Cabra Marcado Para Morrer - História e memória no cinema de Eduardo Coutinho

História e memória em um dos mais importantes filmes do cinema brasileiro e mundial, responsável por eternizar Eduardo Coutinho no Cinema.



Moro no nordeste desde que me entendo por gente. Cresci com minha família contando histórias sobre disputas de terras, jornadas de trabalho exaustivas em plantações de algodão alheias, casos terríveis de envenenamento e muita, muita violência que acontecia pelos interiores do Maranhão. Minha infância foi marcada por relatos de muita luta, suor e lágrimas, que permearam boa parte da vida dos meus antepassados e de tantas outras famílias nordestinas. Essas histórias sempre mexeram comigo e, de tempos em tempos, me faziam questionar o que eu iria sentir caso alguém documentasse tudo que acontecia por aquelas terras, naquele contexto histórico de repressão estatal e, depois transpusesse, em tela e em palavras, todo o sofrimento vivido por quem não tinha ninguém para olhar por si.


Hoje eu penso: ainda bem que, mesmo vindo de outro local e provavelmente com diferentes motivações, Eduardo Coutinho também se perguntou o mesmo. Movido pelo interesse inicial de filmar uma reconstrução ficcional sobre o que vinha acontecendo no interior da Paraíba, Coutinho sai do Rio de Janeiro (sua cidade natal), para contar a história de líderes camponeses da região da Galiléia que, na ausência de Estado, se organizavam para ter seus direitos respeitados, a história de João e Elizabeth Teixeira. João Pedro Teixeira, um líder camponês assassinado por motivações políticas em 1962, e Elizabeth Teixeira, a viúva que tentava resgatar a coragem do marido para continuar lutando pelo que acreditava ser certo, mesmo com dez filhos para criar.


As gravações do filme, que tinha os próprios camponeses como atores, tiveram de ser interrompidas após o golpe militar de 1964. Equipamentos utilizados para a gravação foram encontrados e queimados pela polícia ditatorial da época, restando a Coutinho o silencioso retorno de volta ao Rio. Se não fosse um cineasta tão humano, Coutinho não retornaria para contar a história de quem ficou. Era mais simples deixar o passado no passado, especialmente quando a continuação do filme de outrora já não era mais possível. Mas, mesmo 20 anos depois, a história de João Pedro e Elizabeth Teixeira continuava a ecoar na sua mente. Preocupado e curioso com o que poderia ter acontecido às estrelas do seu filme-que-nunca-aconteceu, Coutinho retorna à Galiléia após o fim da Ditadura Militar, com uma motivação diferente: encontrar Elizabeth.



O que temos a partir disso é uma mistura até então única entre documentário e ficção, onde um desafia os limites do outro. Ao intercalar imagens do filme inacabado do início dos anos 60, com entrevistas e narração de Ferreira Gullar e dele próprio em voice-over, Coutinho posiciona Cabra na linha tênue entre a ficção e a realidade, e acaba criando, a partir disso, o que viria a ser um dos mais importantes documentos que temos sobre esse momento tão triste da nossa história. Dando uma voz àqueles cuja visibilidade e humanidade foi arrancada, o filme de Eduardo Coutinho é o documento não-oficial mais honesto e humano que poderíamos ter sobre o período ditatorial, justamente por não tentar abrandar os efeitos do golpe militar em tantas pessoas, em tantas famílias.


O sofrimento de Elizabeth Teixeira não se finda com a morte de João Pedro, nem com a redemocratização brasileira. As marcas da violência perpetuada pelo Estado estão presentes também em cada um dos seus dez filhos e reverberam no trauma que Elizabeth ainda tem, até aquele momento, de falar sobre o assunto e expor as feridas deixadas por tanto terror vivido. Com o peso adicional de ser mulher e mãe viúva, precisou fugir da Galiléia até um povoado à beira do Rio Piranhas e mudar de nome, numa busca incessante por uma paz que nunca veio. Através dos relatos difíceis que ela dá, seus filhos ao redor de uma mesa choram pelo sofrimento da mãe, até hoje estampado na expressão cálida e na voz embargada. Da mesma forma como eu já chorei com os relatos sofridos da minha família, durante a minha infância.


Cabra é apenas uma história, dentre centenas, marcada pela dor da perda, da violência e da injustiça. Mostrando, claramente, que não existe reparação pecuniária ou pena de reclusão que possam apagar as dores de quem tanto sofreu em nome da esperança. É um filme não apenas sobre aqueles que continuavam a lutar mesmo quando o túnel parecia não ter nenhuma luz, mas também sobre aqueles que atingiram seu limite depois de tantas batalhas e tragédias, como os camponeses que acabaram fugindo da Galiléia enquanto podiam para resguardar a própria vida. Coutinho conversa também com aqueles que desistiram não por falta de vontade de lutar, mas por falta de força para continuar.



Em suas entrevistas, que nada mais são que conversas filmadas, o cineasta se revela um verdadeiro contador de histórias. Na forma como conduz suas perguntas, dado o exímio comunicador que era, vai deixando o entrevistado à vontade para contar as mais dolorosas e íntimas experiências. Nunca explorando a dor do outro, e sim sendo um raro exemplo quanto ao exercício máximo de alteridade que uma pessoa pode ter. Ele sempre se coloca no mesmo local que o entrevistado, mantém o contato visual importante para transmitir confiança, aos poucos, se anula em cena, ficando fora de quadro para deixar o protagonista do filme ser o que há de mais comum: a vida. Aquilo que é vivido pelo outro todos os dias, aos olhos de Coutinho, se torna algo ordinário e é justamente essa habilidade que o torna espetacular.


Cabra Marcado Para Morrer é apenas o primeiro filme em que o cineasta vai explorar essas narrativas da vida “comum”. Anos depois, em Edifício Master (2002) e Jogo de Cena (2007), ele resgata essa ideia de que no ordinário existem histórias “de cinema”, faz coisas ainda mais incríveis em termos de aperfeiçoamento da sua própria técnica e marca para sempre a história do Cinema brasileiro. Até hoje, ao menos, não existe nenhum filme que tenha sabido exercitar de forma tão magistral uma aula de história, sociologia, jornalismo e cinema como é Cabra Marcado Para Morrer. O misto de informações e emoções que o filme passa, mesmo sendo praticamente um filme de estreia do diretor, o põe em um local já consagrado como um dos melhores filmes já feitos no seu tempo - e, na minha opinião, em todos os tempos.


E você pode me chamar de supersticiosa, mística ou religiosa, mas eu acredito que Coutinho atendeu a um chamado. Não queria ser cineasta, nunca quis. Trabalhou mais na televisão que no cinema, se via muito mais como repórter do que como diretor, mas mesmo assim não conseguiu abandonar a sétima arte e nos deu, assim, alguns dos melhores filmes que o cinema já viu. No livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, de Carlos Alberto Mattos, existe uma passagem que fala sobre a falta de vocação que o cineasta acreditava ter para trabalhar com a sétima arte. Sempre humilde, Coutinho nunca achou que era suficiente, que dirá o melhor. Mas, nunca deixou de acreditar no poder dos relatos das pessoas. Ainda que fosse mentira, sabia que o momento da pessoa comum, do não-ator, com a câmera, era também um momento de magia. Onde tudo, de dor à milagres, poderiam aparecer.



Cabra Marcado Para Morrer é um dos melhores filmes da História por ser exatamente a síntese de tudo o que seu diretor foi: curioso, preocupado, altruísta, humilde e, principalmente, um comunicador. O filme transmite uma mensagem, comunica uma história e tem um papel mais que fundamental para a memória coletiva sobre um período tão devastador e triste da nossa história. É um trabalho jornalístico por essência e autoria, documental por história e entrevistas, e ficcional porque tem sim atores, ao usar as imagens do filme inacabado para provar pontos na trama que é, então, essencialmente mista. Mista, não confusa. Ele usa apenas os melhores e mais interessantes pontos de cada segmento, montando um quebra-cabeça de mais de duas horas de investigação, exposição e descrição, da jornada, das pessoas, da história e dos lugares.


Comungo da ideia de que o filme deve ser fim em si mesmo. Mas, quando falamos desse em específico, é fato que este é um instrumento histórico que tem como uma das suas mais belas consequências não nos deixar esquecer jamais de todos os horrores do período ditatorial e de como ainda estamos tão longe de uma política agrária, especialmente na região nordeste, que seja isenta de violência e opressão. Assistir Cabra é ter a certeza da urgência por uma política de terras justa, que pare de vitimar tantas pessoas e gerar tanta desigualdade. É ter consigo uma eterna prova documental dos horrores do Estado, sem precisar assistir as várias audiências da Comissão da Verdade para isso. Basta olhar para os olhos de Elizabeth para ter certeza do que é verdade e do que é mentira.


Em um mundo cada vez mais afetado pela pós-modernidade, no que tange a uma ideia de “verdade” cada vez mais relativa, o filme de Coutinho é um lembrete de que, quando falamos sobre ditadura e desigualdade social do Brasil, a verdade é una. São gerações e gerações assombradas pelos fantasmas de um passado sombrio, onde o Estado que deveria garantir direitos, na realidade perseguia e matava os que tentavam obtê-los. João Pedro morreu assassinado na beira de uma estrada. Enquanto Elizabeth continuava lutando, perseguida e violentada, com dez filhos para criar. Um retrato de tristeza e impunidade, desigualdade e injustiça.



O que nos faz imediatamente pensar: quantos Joãos e Elizabethes existiram no Brasil? Quantos foram aqueles cujas famílias quebraram para sempre? Quantas marcas dolorosas foram imprimidas em uma sociedade que teve de conviver com tanta injustiça, violência e desigualdade, sempre calada e invisibilizada pelo poder da opressão estatal infinda e aparentemente invencível? São anos e anos de instabilidade política, social e econômica, que mesmo sem ser a intenção inicial de Coutinho, acabam se tornando protagonistas dessa história. Nos convidando a refletir desde quando nossa nação está doente, desde quando tantas histórias como essa ocorrem e não sabemos, não documentamos, não vemos.


Por isso, para mim, não é exagero dizer que Cabra Marcado Para Morrer é um dos filmes mais importantes da história. É universal em tratar do sofrimento de um povo diante do desamparo e da opressão exercidas por um Estado absoluto. Assim como não é exagero dizer que, para a história e cinema brasileiros, o filme é um marco que constitui um legado sem precedentes para o estudo desse período do país - e para todos os períodos, na verdade. Pois, é claro que o coronelismo continua, disputas por terras continuam, mortes continuam. Embora nem sempre as vejamos, como disse, podemos estar certos de que não parou por aí.


A redemocratização brasileira não significou imediata reforma agrária, nem para a Galiléia e, no meu caso, nem para o Maranhão. E em seu início, diga-se de passagem, a redemocratização não significou nem mesmo a volta de uma democracia em si. Mas, ao menos, já era uma garantia para Elizabeth Teixeira de que caso fosse assassinada, ao menos seria uma notícia em alguns jornais que não estavam mais sob a égide da censura, quem sabe? Contar a sua história, no fim das contas, ainda foi um dos maiores atos de coragem. Não tinha como saber exatamente a repercussão de tudo isso, mas Coutinho preservou o seu relato e transmitiu, para nós espectadores, momentos de muita emoção. Onde frequentemente me vi incrédula com a força que deve ter sido necessária para que essa mulher pudesse viver de novo.



Talvez Cabra Marcado Para Morrer seja o mais claro exemplo da influência da História no Cinema e do Cinema na História. O Brasil, sempre marcado pela perda de memória coletiva, especialmente sobre sua história política, tem na obra de Eduardo Coutinho um documento eterno sobre todos os temas que mais assolam a sociedade brasileira desde sua fundação. Para ver o Brasil que ninguém via, o cineasta ia além do documentário pelo documentário, da entrevista pela entrevista. Era preciso que a conversa fosse real. Era preciso que os momentos fossem de fato significativos. Nada era automático, apesar de muito bem pensado pelo autor.


Como chorei com os relatos da minha própria família, chorei ao ver o que aconteceu a João Pedro e Elizabeth Teixeira. Vi pedaços da minha história, dos meus antepassados, presentes naquilo que restou deles. Uma sensação de impotência, uma angústia que não passa - por mais risadas que possam ser arrancadas pelo breve momento de sentir que estão sendo vistos. O que mais importa aqui é que dar um rosto e uma voz àqueles que frequentemente se tornam apenas estatística da violência rural é poder dar força e urgência a esse assunto toda vez que se fala sobre o filme.


É relembrar que, não importa a nova história que queiram escrever à força sob os papéis manchados de sangue, na Ditadura Militar, não houve lado bom. O lado bom sempre vai ser a liberdade e garantia de direitos que à época nos foram arrancados à força. É lembrar que, um povo sem história, é um povo sem memória e um povo que não tem a quem recorrer, é um povo oprimido. Coutinho pode nunca querer ter sido o cineasta que foi, mas nos deixou um verdadeiro presente em forma de filme. Cabra Marcado Para Morrer vai ser lembrado por décadas a fio, enquanto o Cinema existir como uma arte capaz de emocionar e conscientizar. É um filme, um documento, um marco e um legado. Para sempre.


Lista de favoritos da redatora

  1. Antes do Pôr-do-Sol | Richard Linklater, 2004

  2. Oito e Meio | Federico Fellini, 1963

  3. Amor À Flor da Pele | Wong Kar-wai, 2000

  4. O Show de Truman | Peter Weir, 1998

  5. Cenas de um Casamento | Ingmar Bergman, 1973

  6. Senhor Ninguém | Jaco Van Dormael, 2009

  7. Taxi Driver | Martin Scorsese, 1976

  8. Cabra Marcado Para Morrer | Eduardo Coutinho, 1984

  9. Gosto de Cereja | Abbas Kiarostami, 1997

  10. Era Uma Vez Em Tóqui | Yasujiro Ozu, 1953

  11. Quanto Mais Quente Melhor | Billy Wilder, 1959

  12. O Poderoso Chefão | Francis Ford Coppola, 1972

  13. Janela Indiscreta | Alfred Hitchcock, 1954

  14. Fogo Contra Fogo | Michael Mann, 1995

  15. A Felicidade Não Se Compra | Frank Capra, 1946

  16. De Olhos Bem Fechados | Stanley Kubrick, 1999

  17. Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo | Karim Ainouz e Marcelo Gomes, 2009

  18. Cidade dos Sonhos | David Lynch, 2001

  19. Asas do Desejo | Wim Wenders, 1987

  20. Persona | Ingmar Bergman, 1966


Esse texto pertence ao nosso especial Favoritos da Cine-Stylo: Uma lista com os filmes prediletos de nossos redatores e 11 textos para discorrer um pouco dessa paixão. Acesse!


 

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