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Um Visto Para o Céu (1991)

Com um humor sarcástico e recheado de autocrítica, mas com intenções delicadas, Albert Brooks entende que a vida é baseada em uma eterna espera por um novo comando



Albert Brooks sempre esteve na linha dos comediantes que construíam suas personagens se baseando em uma aparência, um tipo de proteção, que esbanjava ironia e comentários sarcásticos meticulosamente calculados para se encaixarem no tempo correto de uma frase, mas, por dentro, tinham uma necessidade quase que patológica de serem aceitos e amados, cuidados, por alguém que os entendesse. Entre os anos 70 e 80, mas sobrevivendo nos 90, era um tipo de humor que colava entre os americanos, também em nomes como Bill Murray e Woody Allen, e abriu portas para comediantes de stand-up que surgiam naquela época.


Em Um Visto para o Céu, quem apara os excessos de ego de sua personagem, Daniel, um homem um tanto quanto egoísta que morre e recebe um julgamento para saber se continua tentando ser uma pessoa melhor ou fica onde está, é a Julia de Meryl Streep, que se encontra na mesma situação, mas com algumas vantagens na forma como é tratada e recebida no local.


Na visão totalmente imparcial e não-religiosa de Brooks, a vida "lá em cima" é igual à vida "aqui embaixo": é tudo sobre a espera, e não sobre a passagem. Não existe nada de pior ou melhor em ficar em uma espécie de recepção de um consultório médico em um lugar ou outro. No fim, você sempre terá que assinar uns papeis, esperar filas para ser atendido e dormir para acordar. A não ser que obtenha privilégio, quebre barreiras ou mostre algo diferente.



O filme conta com ótimas surpresas e sacadas bem-humoradas que nunca soam forçadas, como a escalação de Rip Torn como a figura imponente do advogado de defesa do protagonista, e o constante embate profissional e pessoal que ele tem com a promotora de justiça do caso (interpretada por Lee Grant), Lena Foster. Nessa onda de provocações, muitas vezes eles esquecem de avaliar o fichamento, materializado através de filmagens precisas da vida de cada pessoa que está sendo julgada, de quem está à procura de um visto para o céu ou um retorno para a Terra.


Dá para dizer que, ainda que subestimada, a obra de Brooks foi influente e deu uma nova abordagem para filmes que retratam o que acontece com a vida após a morte, porque, ao invés de utilizar de truques, grandes efeitos especiais e se basear em decisões duvidosas, não mostra nada muito diferente do que vemos aqui, tirando o fato de que não há mais nada a perder. Tanto o tipo de humor quanto a forma como ele é estruturado inspirou bastante a concepção de The Good Place, série com uma visão bem parecida sobre o assunto, que durou quatro temporadas.


Nota do crítico:


Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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