Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022) | Família e frenesi

A dupla de diretores constrói milhares de universos através de uma cinematografia frenética só para refletir sobre um drama familiar.



Considero o momento em que um cinéfilo começa a assistir filmes pela experiência sensorial um marco em sua relação com cinema. Entender que aspectos técnicos, como roteiro, direção de fotografia, efeitos especiais e etc, servem para cumprir um propósito idealizado pelo diretor é fundamental para sentir o cinema e senti-lo precede analisá-lo. Por essa percepção, gosto muito da interação entre forma e conteúdo que faz com que, justamente, os sentidos aflorem. Analisar essa dinâmica diante de uma proposta faz parte do ofício crítico e há filmes, como o criticado nesse texto, em que essa dupla opera um caminho muito interessante de entregar isso para o espectador.


Um pouco antes, vale dizer que essa díade funciona propositalmente de maneiras diferentes e, ao contrário do que outros amigos acreditam, não creio que exista uma predominância ou relevância de uma ou outra. Logo, não há conteúdo que não seja contado por uma forma ou forma que não seja articulada para propriamente apresentar o conteúdo. Em filmes como O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972) o conteúdo mais sério e denso é amplificado pela forma que o diretor dá à obra, já em Um Cadáver Para Sobreviver (Daniel Kwan e Daniel Scheinert, 2016), dos mesmos diretores do filme em questão, a despretensiosidade do enredo deixa que sua apresentação seja tão brincalhona quanto. Não há uma força que se destaque, uma caminha junto da outra, mesmo sem esbarrar na intenção do artista, atingindo diversos efeitos na digestão da audiência.



Tendo dito isto, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Daniel Kwan e Daniel Scheinert, 2022) transforma o drama familiar mais simples em uma experiência transcendental através da velocidade, dinamismo e vivacidade que tem ao construí-lo. Por cima, Evelyn é uma imigrante insatisfeita com sua vida que se vê presa em uma luta multiversal contra sua própria filha. Enquanto sobrevive tanto à possível destruição de sua realidade quanto ao pedido de divórcio de seu marido, a mulher descobre a pior versão de si mesma e se eleva a um estado de onipotência e onipresença em todas suas variações pelos universos paralelos aos seus.


Aqui, a dupla de diretores abusa de atuações exageradas, uma montagem rápida, efeitos frenéticos e uma trama autoconsciente para olhar para dentro de suas personagens. Quer dizer, até a metade de sua rodagem a história se encaminha para um clássico filme de ação, em que a protagonista tenta barrar apenas o avanço de um mal que põe em jogo sua existência (assim como a de todos os outros), mas a partir do momento em que a trama vira e se torna tão somente sobre “assuntos familiares” as coisas mudam. Para pontuar isso, olhemos as realizações finais que Evelyn chega no clímax da história: a potência que a bondade do marido tem, como sufoca sua filha e como, justamente por nada fazer sentido, o fato dela ser atraída pela menina tem uma força triunfante.


Sim, elas são bem clichês, e isso é o puro conteúdo que se quer entregar, o que torna tudo tão especial é como o faz. Nesse momento, os acontecimentos já ramificaram para diversos universos e os diretores fazem questão de apresentar uma perspectiva para reflexão em cada um deles. No caso do marido, vemos várias versões dele sendo caridoso, simpático e articulando sua bondade em uma fração de segundos. Em algumas através de diálogos, em outras por ações e gestos, tudo isso dentro de uma combate kung-fu e milhares de cortes que, simplesmente por nunca desacelerar, distorcem a passagem do tempo e dão a impressão de que todo aqueles episódios estão acontecendo simultaneamente tanto na diegese do filme quanto na tela.



Sem hesitar sequer por um instante, ele acavala essas percepções da protagonista e transita do drama do marido para a perdição da filha no mesmo frenesi. O ciclo continua durante alguns bons minutos de sua duração e nós, como espectadores, somos anestesiados por essa proeminência de imagens, formas, universos e luzes. Entende tão bem seu ritmo que consegue encaixar algumas brincadeiras, como quando encerra o filme que está sendo assistido por Evelyn em uma das realidades e faz com que acreditemos que o próprio filme, por ser tão sem nexo, já tenha acabado. Em outro momento, para toda essa velocidade e transforma as personagens em rocha (literalmente), dando um respiro silencioso para a obra.


Enfim, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é extremamente bem sucedido no que propõe em seu título: entregar tudo que está acontecendo em todos os lugares ao mesmo tempo. Um filme tão criativo em todos os seus recursos, ressaltando especificamente os efeitos visuais (feitos por apenas cinco pessoas), que se destaca mesmo percorrendo um caminho tão comum quanto o drama familiar. Quando, de fato, acaba, você pode suspirar na poltrona e sussurrar um “uau” enquanto se acostuma mais uma vez com o silêncio da realidade. Poucos filmes conseguem isso e, reiterando minha fala inicial, é muito bom poder se entregar a essa experiência sensorial sem ficar preso nas amarras de uma análise técnica.


Nota do crítico:


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