O Desprezo (1963)

Com distanciamento e evidenciação de sua artificialidade narrativa, reflete sobre sua própria existência enquanto filme e, consequentemente, parte da indústria cinematográfica.



Godard inicia o filme erroneamente citando André Bazin, com a frase: “O cinema é um olhar que se substitui ao nosso para nos dar um mundo em acordo com nossos desejos.” Na realidade, essa citação é atribuída à Michel Mourlet (presente no ensaio “Sobre Uma Arte Ignorada” — Cahiers du Cinéma nº 98, 1959). Tratando-se de mais provocação por parte de Godard ou não, a narrativa de “O Desprezo” será uma ironia e contraposição à essa frase um tanto quanto romântica que inicia o filme.


No mesmo ensaio em que está essa frase, logo após o trecho citado por Godard, Michel Mourlet adota uma postura do cinema como espelho do espectador, acrescentando: “hino à glória dos corpos, o cinema reconhece o erotismo como sua motivação suprema. (…) o cinema não escolheu o erotismo dentre outras vias possíveis, mas que estando dada sua dupla condição de arte e de olhar sobre a carne, ele estava dotado ao erotismo como reconciliação do homem com sua carne.” Com uma visão muito mais crítica enquanto atuante na indústria cinematográfica, Godard apresenta em “O Desprezo” um discurso que atenta para as relações de poder na experiência e produção cinematográfica. Como parte de uma sociedade desigual, o cinema espelha o desejo e olhar de um grupo dominante: o masculino; e, especialmente, daqueles que detém o capital.


Vejamos: logo na abertura, Godard faz uma espécie de distanciamento ‘Brechtiniano’, mostrando todos os aparatos técnicos de seu filme e evidenciando que aquilo é um filme, uma mentira. Esse distanciamento, essa auto-reflexão, surge colocando o espectador em uma posição de muita consciência — consciente de sua passividade diante do filme e atento para as manipulações dos meios cinematográficos por parte do cineasta. Logo, desde o início do filme, a presença da câmera pode ser sempre percebida. Ou seja, o olhar que Godard coloca sobre os objetos do mundo é perceptível. Então, temos Brigitte Bardot: a figura para onde o diretor irá direcionar seu olhar de forma mais impositiva, perceptível e, no caso, voyeurista/fetichizada. Esse olhar de poder masculino sobre o corpo feminino é comum ao cinema. Tão consciente quanto nós de que é este o olhar que coloca sobre Camille, Godard encena essa disparidade de poder.



As personagens femininas costumam estar ou subordinadas aos homens (como Francesca, assistente do produtor estadunidense) ou são objetos de desejo e disputa por parte deles. Logo, o distanciamento iniciado pela abertura do filme permite, tal qual era o objetivo de Brecht com seu método teatral, que percebamos de forma crítica as escolhas narrativas do filme, como é o caso do olhar fetichista. Com isso, fica evidente que o tal “mundo em acordo com nossos desejos” que o cinema cria, como disse Mourlet, na realidade reflete um tipo de desejo: o masculino, que se impõe sobre o corpo e figura femininos.


Quanto ao predomínio da manifestação do desejo daqueles que detém o capital, é nesse ponto em que se desenrola o drama do filme. O medo do escritor Paul Javal de ser consumido pelo capital, ao passo que os desejos criativos do diretor Fritz Lang são minados pelo produtor Jeremy Prokosch, interferem também em seu relacionamento com Camille. Assim, toda a auto-reflexão que Godard propõe em seu filme caminham também para uma reflexão sobre o próprio lugar do cinema de autor dentro das estruturas mercadológicas que bloqueiam a livre manifestação do desejo do autor no cinema.


“O Desprezo”, com distanciamento e evidenciação de sua artificialidade narrativa (é interessante como, ao contrário de “Acossado, aqui Godard demonstra a artificialidade de seu filme pelo extremo controle da encenação — e não pela experimentação mais evidente da montagem), reflete sobre sua própria existência (e a existência de um cinema autoral), assim como Paul Javal reflete sobre seu papel enquanto artista. Tudo no filme está em crise — o cinema, seu protagonista e seu relacionamento amoroso, o próprio filme -, culminando em tragédia. A arte quando perdida em meio às estruturas de poder pode somente refletir um desejo, aquele que é dominante e que transforma-se em morte. A morte da paixão, do desejo autoral e da própria vida.


Nota do crítico:


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