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La Chimera (2023) | Mostra SP

Em um filme apaixonado e apaixonante, Alice Rohrwacher dilui o onírico ao real ao longo de sua narrativa



La Chimera já começa em movimento, com Arthur (Josh O’Connor) voltando para casa depois de passar um período preso. O inglês alto se destaca do restante da população da vila italiana em que reside, uma figura escusa e deslumbrante que muito se assemelha a um mito. Ele sonha em reaver a namorada e, desde seu primeiro momento, é ela que atiça o elo entre o sonho e a realidade, entre a mitologia e a vida real. O jovem tem um talento único, sente a presença de mortos. Ele usa sua habilidade para achar túmulos e vender os presentes que foram deixados pelos etruscos naquelas sepulturas de séculos atrás. Como Caronte, ele é responsável por levar os vivos ao reino dos mortos, mas diferente do condutor dos mortos na mitologia grega, suas intenções não são nem um pouco nobres e diretas.


Para ilustrar, Alice Rohrwacher coloca a câmera de cabeça para baixo enquanto essa capacidade se manifesta, relacionando o que está em cima e abaixo da terra, como se o mundo dos mortos existisse oposto e paralelo ao mundo dos vivos. Da primeira vez há uma transição, vemos a câmera invertendo seu eixo, em um segundo uso o corte entre as direções se torna abrupto, por fim, elas se mesclam e, em um momento de incerteza, vão e vem. Essa é a força motriz da encenação da diretora, ela constrói tudo a partir do dom do protagonista e faz uma quimera da união entre vivos e mortos, futuro e passado, real e sonho. Enquanto o personagem explora a região, ela utiliza a linguagem para dar uma cara onírica à sua mise-en-scène. Desde a retirada de quadros em uma cena de perseguição a pé (que fica com uma cara engraçada de filme mudo) até as bordas arredondadas que preenchem as sequências de sonho e uma eventual quebra da quarta parede, tudo tenta aproximar o espectador de uma experiência sonial.


Arthur é abraçado por uma sociedade interessada em seus dotes. A trupe de saqueadores que encabeça sequer tenta esconder a ganância e Flora (Isabella Rossellini) só se interessa em rever Beniamina, sua neta. Assim como Caronte, ele utiliza seus dons mais em prol dos outros do que em prol de si mesmo. Quando conhece Itália (Carol Duarte) a sua perspectiva muda, vendo a vida da imigrante brasileira ele enxerga um espelho. Ela, prometida como pupila vocal de Flora, é tratada como empregada doméstica, explorada enquanto é caçoada pela família da mulher. Quanto mais se aproximam um do outro, mais se distanciam dessas amarras e mais conseguem seguir seu próprio caminho. A jovem é a clarividência do rapaz e, assim como Psiquê engana Caronte para adentrar o inferno, ela consegue penetrar na consciência do jovem.


O que mais me fascinou em La Chimera é o quão mitológico o filme consegue ser. Todo mito tem a sua grande moral, quer contar alguma coisa ou passar um recado. Aqui temos o bom e velho “quem procura acha” muito bem disposto ao longo dos 130 minutos de rodagem. Se Arthur ganhava a vida encontrando os mortos, só poderia topar com a morte em seu caminho, mas talvez isso não fosse a pior coisa a lhe acontecer. Assim como a figura que comparo com ele ao longo desse texto, o estado vagueante, estar entre dois mundos, é mais angustiante do que pertencer a algum deles independente de qual sejam suas sinas. O protagonista, depois de muito procurar, encontra o seu fim. Ele transita para o mundo dos mortos em uma metáfora linda, encontrando a linha que norteava sua vida e, que agora, o guiará para além dela.


 

Nota do crítico:


 

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