First Reformed (2017)

A fé fragilizada, o mal estar e a performance como sobrevivência de um religioso no capitalismo tardio



First Reformed, de Paul Schrader, nos apresenta um padre em crise de fé - nada de novo por aqui; puramente por isso, teríamos neste filme uma refilmagem de Luz de Inverno (1963), de Bergman. Porém, essa crise de fé, no ano de 2017, agora situa-se no contexto do que se chama pós modernidade ou capitalismo tardio - estágio da contemporaneidade em que, abarcando ambos os conceitos, as contradições do capitalismo escancaram-se cada vez mais e os valores sólidos como as religiosidades e as ideologias tal qual o marxismo perdem espaço para o que há de mais imediato no regime do capital. É como Marx já apontou em seu tempo: a burguesia foi uma classe revolucionária e, com ela, todos os valores sólidos da aristocracia feudal foram se esvaindo aceleradamente; “tudo o que era sólido se desmanchava no ar”. O momento no qual vivemos e representado em First Reformed é este em que acelera-se cada vez mais a deterioração dos valores mais sólidos que ainda restavam na contemporaneidade.


Desta maneira, o filme de Schrader é essencialmente esvaziado de sentido concreto, tal qual a pós-modernidade ou capitalismo tardio que representa. O final abrupto, não apenas aberto mas que não conclui efetivamente nada, já faz saltar aos olhos a estrutura que permeia o filme inteiro: não temos exatamente um começo, já que ao início nos é apresentado um diário que parece ser peça importante da narrativa (tal qual em Diário de Um Pároco de Aldeia, muito semelhante na verdade); porém, o diário é um elemento eventualmente abandonado durante o filme. Igualmente, não há um meio: os eventos se desenrolam de maneira muito rápida e pouco construída dramaticamente, de modo que o que prolonga a duração do filme é mais o alongamento do plano que Schrader articula, e o esticamento da narrativa pela sequência de ações banais e momentos reflexivos do protagonista, do que de fato acontecimentos que façam avançar o drama. Algumas várias pistas colocadas pelo filme como potenciais conflitos a serem resolvidos, como o aprofundamento do protagonista, o reverendo Ernst Toller (Ethan Hawke), em seu desejo de "acabar com os destruidores da terra", a tensão sexual entre ele e a viúva Mary Mensana (Amanda Seyfried) - algo que poderia tornar-se um problema para o reverendo dentro da Igreja e da comunidade -, seu caso com a instrutora do coral da Igreja, enfim, nada disso toma qualquer concretude maior na narrativa e, como é explicitamente claro no filme, nada se resolve ao final - pois sequer temos uma conclusão tanto no sentido do cinema clássico e até mesmo no sentido moderno; a estrutura de "First Reformed" é plenamente pós-moderna.



Se o sentido não existe na estrutura narrativa, tampouco está presente em qualquer discurso que possa vir a ser compreendido a partir do filme. Não é uma obra sobre ambientalismo, não há uma crítica social precisa; há o aprofundamento nas inquietudes existenciais de um reverendo situado no capitalismo tardio. São inquietudes diferentes das apresentadas em obras como Luz de Inverno (Bergman) e Diário de Um Pároco (Bresson), são inquietações potencializadas pela falta de sentido na existência material, no mundo, perante o avanço desenfreado das formas de destruição da natureza pelo capital, de modo que a existência perante a vida que nos cerca torna-se sem sentido visto a sua iminente destruição pelos estágios avançados e potencialmente irreversíveis do modo de produção burguês. A questão, aqui, é que pouco há de marxista na postura de Schrader, visto que ele muito mais encena o enlouquecimento de seu protagonista sob essas condições do que de fato apresenta qualquer reflexão (direta ou subentendida) sobre a estrutura, muito menos procura propor uma “solução” pela análise material da realidade. Retornando ao que pontuei ao início deste parágrafo: não há uma unidade de discurso ideológico que possa ser concretamente apreendida neste filme. E que fique claro, isso NÃO é um demérito - é justamente isso que unifica a encenação de Paul Schrader dentro de suas premissas formais.


Sob esses pressupostos narrativos e contextuais do capitalismo tardio, compreendemos que as crenças, as ideologias, os símbolos, e claro, a fé, vão se esvaindo. Por isso, uma cena como o velório do marido ambientalista de Mary, Michael Mensana (Philip Ettinger), que pede que suas cinzas sejam jogadas num rio poluído ao som do coral da Igreja cantando a música de Neil Young “Who’s Going to Stand Up and Save Earth” (bastante brega), nos é apresentada de modo tão ridículo: porque os símbolos (tal qual podem ser o velório ou uma encenação artística de sentido político) perderam completamente o sentido e o capitalismo tardio transformou-os em performances superficiais. Podemos perceber a exacerbação do performar como meio de sobreviver ao esvaziamento do sentido do mundo ainda mais à frente no filme: perturbado pelo suicídio do mario de Mary, a quem tentou ajudar, o reverendo Toller decide, na comemoração de 250 anos de sua igreja onde estarão burgueses responsáveis pela destruição climática, vestir o colete de explosivos montado por Michael e suicidar-se levando consigo esses mesmos burguses. É um ato de revolta e ação direta que igualmente é uma performance, um movimento individual que não há de mudar nada na realidade se não as inquietações individuais. Na realidade, é semelhante a ações praticadas por “militantes” nos dias de hoje como furar pneus de carros para “frear a poluição” - uma performance, que, em First Reformed, apenas é levada às consequências mais extremas possíveis dentro da angústia existencial do protagonista.


Deste modo, em seu final, o filme pelo menos "encerra" (se é que conclui qualquer coisa, como já apontado) com algo que se esperava: um ato performático. Não à toa, ao final, Schrader abandona o minimalismo de sua mise-en-scène e se joga no maneirismo com a cena de beijo entre Toller e Mary filmada à la Hitchcock - cena que é precedida pela performance corporal de auto-flagelo de Toller diante do espelho, quando recobre seu corpo de espinhos. Aproveitando o ensejo, agora abordando questões mais específicas da mise-en-scène de Schrader neste filme, temos esse minimalismo que remete à Dreyer sobretudo na maneira como lida com os cenários, reduzindo-os aos elementos mais essenciais ou expressivos dentro do campo, bem como valendo-se de campo-contracampo, planos estáticos e movimentos de câmera sutis, utilizando-se minimamente das técnicas de câmera mais evidentes aos olhos do espectador. Isso é, como mencionei ao início deste parágrafo, quebrado completamente com o beijo final, que é puramente maneirista. Contudo, outro momento em que também há um abandono das características minimalistas da mise-en-scène é na sequência em que Toller e Mary deitam um sobre o outro enquanto respiram juntos: um exercício ao mesmo tempo erótico e meditativo, de modo que Schrader consegue criar essa atmosfera de Eros e de austeridade numa mesma ação, mas que é completamente quebrada pela ansiedade de Toller: as imagens (genéricas, num fundo verde explícito) de relaxamento, natureza e calmaria vão sendo substituídas por lixões e fotos-pensamentos de destruição do mundo. Sempre sob o viés da performance, mas ainda assim representando a ansiedade de existir sob a falta de pertencimento perante o mundo; uma ansiedade que bloqueia tanto a espiritualidade (que existe no estado de presença perante as coisas) quanto o erotismo, a sexualidade (que essencialmente não estão tão separados da espiritualidade quanto nos é ensinado).



Ao mesmo tempo, retornando ao aspecto minimalista da encenação, enquanto Paul Schrader reduz sua mise-en-scène a aspectos essenciais, igualmente articula uma estranheza muito expressiva na plástica da imagem com o uso específico de algumas técnicas: primeiro, com a proporção de tela de 1:37:1, que reduz a extensão do quadro, e, em segundo lugar, com a utilização de planos fechados filmados com grandes angulares, o que gera um achatamento das figuras na tela enquanto tomam toda a imagem que já é reduzida pelo aspect ratio. O efeito expressivo dessas duas técnicas em conjunto mergulham nosso olhar como espectadores no ponto de vista distorcido de Ernst Toller; é como se a imagem se achatasse para caber na cabeça perturbada do protagonista. O minimalismo dos cenários passa a ser também ressignificado por essas técnicas, de modo que a cena fílmica começa a poder ser assimilada como palco, esvaziado para dar espaço de ação às performances e perturbações do reverendo.


Entretanto, ao contrário de simplesmente mergulhar na mente perturbada de seu protagonista, a postura de Paul Schrader como narrador é bastante autoconsciente e irônica, articulando uma narração dialética desta história, ao mesmo tempo estudando o existencialismo pós-moderno enquanto lida emocionalmente de maneira frontal com ele. É o que se manifesta na própria construção da personagem de Ethan Hawke que tem como sua maior falha o orgulho, que tanto explicita em sua narração do diário. É algo que pode ser compreendido moralmente, como uma simples falha individual, mas também como sintoma da necessidade de agir para encerrar o sofrimento existencial no qual se encontra, que, aqui, é agir individualmente, novamente, como performance de modo a encontrar um sentido para a própria existência a partir da espetacularização desta perante a percepção da impossibilidade de ação que cause mudanças reais. Schrader percebe toda a característica performática das ações de seu protagonista enquanto comenta o seu orgulho a todo o momento na narrativa. Ao mesmo tempo, o diretor intui em sua mise-en-scène uma sensibilidade à toda essa ansiedade pós-moderna que jamais permite que o filme torne-se puramente um olhar distanciado para o mundo no qual ele próprio está também inserido. Ou seja, nunca torna-se um exercício de hipocrisia. Acaba sendo o que Schrader sempre fez já como roteirista, por exemplo em Taxi Driver: enquanto estuda o adoecimento de seu protagonista, ele mesmo vivenciou sentimentos análogos a esses que, diante de uma narrativa, experiencia como observador. Em First Reformed, 40 anos depois, Schrader desvela a crise da fé pela crise que é o capitalismo tardio (pós-moderno); existindo em sua encenação tanto como observador perspicaz quanto como sujeito que também está mergulhado no drama existencial que é viver sob as fases avançadas e cada vez mais destruidoras de uma demagogia burguesa.


Nota do crítico:


*First Reformed foi o último filme da última edição do Clube do Leão, um dos mais importantes cursos na minha formação como crítico e de onde saíram muitos dos nomes que hoje escrevem aqui na Cine-Stylo. Fica aqui a minha, a nossa, homenagem ao professor e amigo Philippe Leão.


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