Curtas - 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Compilado com todos os comentários sobre os curtas disponíveis na Mostra de Cinema de Tiradentes.



Pelo segundo ano consecutivo a equipe da Singular, agora na forma de Cine-Stylo, faz a cobertura desse que é um dos festivais de cinema nacional mais importante do país. Todos os comentários sobre os curtas disponíveis no festival ficarão aqui:



Rua Ataléia

André Novais Oliveira, 2021


“Rua Ataléia” é um experimento com a característica do cinema como arte do instante, capaz de registrar o que está de frente para a câmera no exato momento em que o evento ocorre. Quando falta luz na rua de André Novais de Oliveira, ele decide capturar, com os recursos que tem, acontecimentos comuns desse momento. Os eventos filmados são tão banais que o conteúdo do filme em si esvazia-se, as conversas e pessoas na tela perdem a importância e a luz recai sobre a forma: o granulado da tela causado pela baixíssima iluminação e as composições formadas por um único ponto de luz. Talvez, para André Novais, seja uma obra carregada de memória afetiva; mas é provável que, para um espectador como eu e você, de fato soe mais como um experimento formal. E não há problema nisso. “Rua Ataléia” é um filme experimental, que inclusive comenta sobre seu próprio processo (como o fato de que a montagem do filme ocorreu 10 anos após sua captura), e, assim, está sujeito aos riscos, erros e acertos, de um experimento.


Texto por: Davi Pieri



Trabalho é Campo de Guerra

Pedro Carcereri, 2021


Um belo exemplo de como expor ideias complexas, que caberiam muito bem em um ensaio, através do cinema. Porque, muito mais do que apenas tentar dissertar de forma expositiva sobre o tema que aborda, “Trabalho é Campo de Guerra”, de Pedro Carcereri, parte da ficção científica para, na realidade, construir um retrato documental do aprisionamento laboral. Acompanhando a vida de pessoas reais, mas guiado por uma narração serena que é o que adquire o tom de ficção científica distópica à obra, é um filme que utiliza da ironia e do absurdo como comentário social, remetendo assim até mesmo à obras do diretor Adirley Queirós, homenageado desta última edição da Mostra de Cinema de TIradentes.


Texto por: Davi Pieri



O Resto

Pedro Gonçalves Ribeiro, 2021


O close talvez seja uma das técnicas mais belas do cinema. E que uso tocante Pedro Gonçalves Ribeiro faz desse recurso em seu curta “O Resto”, para adentrar de forma empática nas dores, memórias e olhares de uma “morta em vida”, dona Iolanda - declarada morta por engano. A sequência final deste filme é o seu ápice: os closes no olhar entristecido de Iolanda e o vislumbre de uma cidade enrijecida com seus prédios muito maiores que todos os seus habitantes, que vivem, como anônimos, mortos; que andam pelas calçadas de Belo Horizonte. Se antes dona Iolanda foi uma grande atriz, se estava viva no fogo intenso da luz dos holofotes, Pedro Gonçalves Ribeiro filma-a em um momento de morte que recai em uma ironia trágica marcada durante toda a obra - tanto ela foi declarada morta pelo Estado como, também, em sua posição anônima, sente-se morta, recusando até mesmo suas memórias (de um passado, igualmente, morto).


Texto por: Davi Pieri



Centelha

Renato Vallone, 2021


Resumiria este filme de Renato Vallone da seguinte forma: o delírio de fome de um homem que, transformado em ritual pelo cinema, invoca uma figura da ancestralidade brasileira; entretanto, em um país manchado pelo sangue de seus nativos, não há oração a se fazer aos deuses, não há prece, nem misericórdia dos céus. Deixe-me explicar melhor, aos poucos: “Centelha” é um retrato cinematográfico muito sofisticado de uma realidade brasileira, uma realidade do terceiro-mundo, digno do que víamos ser feito no nosso Cinema Novo.


Aqui, observamos um homem que não se alimenta há 3 dias, a partir do olhar de uma câmera que acompanha seu enlouquecimento, de forma serena e, ao mesmo tempo, empática. A câmera de Renato Vallone possui um olhar penetrante para seu objeto, parece estar em todos os cantos, apenas capturando o estado devastador do homem sem jamais abalar-se de fato. Ao mesmo tempo, é uma câmera que dança com o delírio de seu protagonista, que em seus movimentos e em seus extremos close-ups está tão suspensa no tempo e no espaço como o homem com fome. “Centelha” é um filme-moldura, capturando o mundo a partir de linhas bem delimitadas pelos close-ups. “Centelha” é também um filme-delírio, que vibra com seu protagonista a partir da desfiguração da imagem no tempo dilatado pela montagem, de modo que a duração de cada momento e sua espacialidade se perdem.


Como moldura de uma realidade delirante, “Centelha” me lembra o que a teórica Maya Deren diz sobre o cinema: a sétima arte é a única capaz de nos apresentar um “Outro Mundo”, tão real quanto o nosso (pois a câmera capta a nossa realidade), mas vibrando em um outro estado poético que jamais seria alcançado no mundo “real”. O cinema é a modalidade artística mais próxima de alcançar o que Nietzsche dizia sobre a arte não ser uma “imitação da realidade”, mas “seu suplemento metafísico, posta a seu lado para vencê-la.” Em “Centelha”, temos essa obra em que seu protagonista habita um mundo idêntico ao nosso, mas carregado de uma potência poética que tanto encanta por sua superfície sensual delirante como, também, seduz enquanto alegoria política. Isso porque, o que vemos nesta obra, é o enlouquecimento de um homem com fome que, buscando na ancestralidade brasileira alguma salvação para sua condição, recebe apenas a fúria dos céus, entristecidos com o assassinato da população fundadora deste país. Todo esse discurso só surge quando a figura da mulher indígena aparece e morre em tela, transformando a situação do homem com fome não mais em um retrato de um sofrimento individual, mas na percepção do adoecimento geral de uma sociedade que, com fome, rejeita o seio de sua ancestralidade e, assim, permanece delirante. A fome e a morte são o único caminho para uma sociedade do genocídio indígena.


“Centelha”, de Renato Vallone, é um delírio, uma moldura surreal de uma realidade absurda, é o cinema brasileiro pulsando intensamente em 20 minutos.


Texto por: Davi Pieri



Imã de Geladeira

Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo, 2021


Dentro da Mostra de Tiradentes, principalmente em suas exibições curtas e interligadas a ideias livres de se fazer cinema, há uma presença muito recorrente do cinema de horror conversando com o cotidiano nacional. Ratoeira e Mangue Branco, dois ótimos exemplos da edição passada, traziam isso de formas muito distintas e, agora, Imã de Geladeira integra essa lista. Em uma narrativa muito simples, acompanhamos um casal de costureiros que precisa de uma geladeira nova e que, em sua busca, acaba trazendo para casa um eletrodoméstico maligno. A forma como ele usa as limitações da diegese para criar suspense é bem interessante, por exemplo, como esconde o que está dentro da geladeira não só pelo suspense e mistério, mas também para fazer sua movimentação de forma prática, o que relembra as origens do gênero com uma nova roupagem especialmente antropofágica e nacional. Há uma cor neon que se apossa do filme, um ar rarefeito que se estende para a localização do item, uma existência elétrica. Julia Ducournau que se cuide.


Texto por: Davi Alencar



Prosopopeia

Andreia Pires, 2021


Para todos os efeitos, esse é um filme alegre. Não que ele proponha uma jornada retilínea para cumprir tal efeito, muito pelo contrário, acha dentro do cotidiano frenético de uma comitiva teatral o espaço para tecer, com cantorias e experimentações verbalizadas, o emaranhado de sentimentos que florescem. Gosto dele especialmente como musical, as vozes e a vivacidade de seus planos sequências dentro desse gênero agregam muita força ao filme e é bem grandioso ao recriar estruturas megalomaníacas dentro de um cenário tão enxuto, diria até que é quase irônico. Há muita vida vivida em sua narrativa e nem sempre ela precisa tentar criar um sentido lógico fora dizer o quão bom é viver.


Texto por: Davi Alencar



Ingra!

Nicolas Thomé Zetune, 2021


Ingra é um filme muito peculiar tanto em forma quanto em conteúdo. Enquanto forma ele tem referências e um jeito muito peculiar, sempre se apoiando em uma câmera especulativa, que acompanha de longe, e, principalmente na porção final, uma iluminação com bastante neon. Tais aspectos não poderiam estar mais presentes em outras obras independentes que povoam o nicho cinéfilo. Da mesma forma, o conteúdo é bem catártico, um fantasma do passado que ressurge para cobrar os atos de uma ação terrível e que, se não bastasse por si só, entra em confronto com o arrebatamento cristão. Sinto que falta a ponte, ambos traçam muito bem seus interesses e vontades mas, por mais que nem tudo precise de um propósito, se um conectivo ficam muito flutuantes. O simplório ato de se contar uma história com uma preocupação estética que não agrega em como conta-la.


Texto por: Davi Alencar



Bicho Solto

Dayse Barreto, 2021


Esse filme é uma grande surpresa! Em uma viagem que vai do autoconhecimento, religião e amor próprio, de uma forma muito engraçada, ele explora a pequenez do ser humano ante à seus algozes e si mesmo. A estética improvisada em ressonância com alguns planos muito bem construídos traz uma outra camada de diversão, afinal, não quer impressionar por aspectos técnicos ou filosofar muito sobre nada. Ao contrário, prefere se apoiar em um término de relacionamento para flertar com não só o já citado humor como também com o experimental, as animações desconexas se apoderam da tela e, assim como seus outros aspectos gráficos, são simplesmente magnéticos demais para se desgrudar. No fim é um daqueles filmes grandes mesmo sendo pequenos, que você terminar meio anestesiado.


Texto por: Davi Alencar



A Sentença

Laura Coggiola, 2020


O amor que temos por histórias, pela fantasia, talvez seja uma das formas com as quais tentamos lidar com todos os sentimentos, sensações e experiências que estão além do nosso controle: se os desafios do cotidiano por vezes parecem quase impossíveis, podemos carregar em nosso coração a história do herói que derrota o dragão, como fonte de inspiração para alcançarmos nossas vitórias. “A Sentença”, de Laura Coggiola, é um filme que comenta sobre essa nossa relação com o fantástico a partir do cinema e sua capacidade onírica. A escolha narrativa de compor o filme por fotografias, como o clássico “La Jetée”, faz-se por uma construção metódica de cada plano: são realmente fotos muito bem organizadas, tanto na ordenação dos elementos no interior do plano como também em uma identidade visual alcançada pela escolha pontual das cores que preenchem cada imagem. Isso junto à presença de uma mise-en-abyme, com fotos tiradas pelas duas meninas e fotos dessas fotos: a câmera ganha um papel importante no encontro das duas, marcado pelo registro fotográfico. É interessante notar como, junto a isso, o único elemento que separa o sonho que inicia o filme da realidade de fato é o uso do colorido x preto e branco. Fora isso, a mesma dinâmica que se faz no sonho existe na “realidade” (uma realidade que evidencia o quão fabricada é em cada fotografia). Temos ainda o uso do som que, ao contrário das imagens, mantém-se fluido ao longo da obra, sendo utilizado de forma tão expressiva que, em uma relação dialética com as imagens, cria a sensação de que estamos constantemente em um sonho. Assim, o audiovisual surge como esse elemento construtor de uma realidade onírica, em que a narrativa comunica o sonho de fantasia, o desejo que a protagonista tem de proteger o dragão e encontrar conforto no amor, na proteção.


Texto por: Davi Pieri



Central de Memórias

Rayssa Coelho & Filipe Gama, 2021


“Em janeiro de 1997, a cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, recebeu a equipe de produção do filme Central do Brasil, no então recém povoado Conjunto Habitacional Vila Serrana II”.


Por meio de narração em off, imagens antigas e a sobreposição com novas imagens, “Central de Memórias" traz relatos verdadeiros sobre parte da história da ocupação e seu cruzamento com o cinema nacional. Já é evidente o jogo de palavras do nome do curta “Central de Memórias” com o nome do filme dirigido por Walter Salles “Central do Brasil”. Não há rosto de quem fala, mas a materialização dessas vidas é apresentada por meio de fotos da região durante sua ocupação.


No Brasil, a falta de moradia ainda é um grande problema. É garantido o direito de ter uma moradia digna, entretanto, isso vem sendo uma grande luta pela população mais carente. No Art. 5º da Constituição Federal, o direito à propriedade é considerado de primeira dimensão.


Essa questão não se limita ao Brasil, é claro. Devido a isso, no Urbanismo Moderno, surge a preocupação e necessidade de criar blocos de moradia que atendessem a população e sanar esse problema, como foi o “Unité d’Habitation”, do francês Le Corbusier. Deste modo, o Estado constrói as famosas casas populares, como forma de corrigir essa questão, acabando por resultar em especulação imobiliária, marginalização de comunidades pela sua consequente marginalização.


A história brasileira é marcada pelo êxodo rural e a luta pela reforma fundiária. Mesmo com essas habitações voltadas pela população mais pobre, ainda acontecem invasões, pois nem todos os grupos são supridos, resultando em uma expansão descontrolada de cidades e comunidades.


Segundo o estudioso Aldo Rossi, “nenhum crescimento urbano é espontâneo, mas é pelas tendências naturais dos grupos dispersos nas diversas partes da cidade que se podem explicar as alterações de estrutura”. No livro “Origem das Habitações Sociais no Brasil”, o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, afirma que “o problema da habitação popular é concomitante aos primeiros indícios de segregação espacial”.


O curta “Central de Memórias” compreende o relato de quatro mulheres contando como se deu a ocupação. Contam que atualmente elas moram de aluguel e a apropriação das terras se deu por meio de invasões, que até hoje nenhuma instituição foi reclamar. A interessante história dessa ocupação contou até com a participação da polícia, que no dia que tudo aconteceu, davam tiros para o alto, gerando uma intensa confusão.


É fato que vivemos em uma sociedade, com suas regras. Mas também é natural do homem ir em busca de suprir suas necessidades, neste caso a do direito de moradia. Já há um laço de posse e pertencimento com essas recentes casas invadidas, as quais os novos moradores precisavam tomar de contar, se não, perdiam o lar.


O filme “Central do Brasil” é um dos mais importantes do nosso cinema, super conhecido também pela indicação ao Oscar da atriz Fernanda Montenegro. Quando a comunidade ficou sabendo que um filme teria cenas gravadas no bairro, gerou-se uma comoção, uma agitação, afinal, era um fato bastante inusitado para aquela população.


Durante a gravação do filme, as casas eram originais e havia uma forte curiosidade sobre a produção, muitos queriam participar como figurantes. A curiosidade também em saber como se produzia e gravava essas obras que se vê na TV, algo tão distante, mas também tão próximo de nós.


As cenas de “Central do Brasil” na ocupação de Vila Serrana II é a marcação de uma história coletiva real. Uma documentação do inicio desse conjunto, mas também uma identificação com seu bairro, com sua comunidade. Uma das principais funções sociais do cinema é o ser humano se identificar com o que vê, e para aquele grupo de pessoas, tem uma grande importância. Uma das moradoras conta que para eles foi prazeroso ver um bairro que começou por conta de uma invasão sendo palco de um filme que concorreu ao Oscar.


Depois de anos e muitas mudanças, a população diz estar no paraíso, que é notória a evolução e melhora na infraestrutura. Olhar o Conjunto Habitacional de Vila Serrana II atualmente, e analisar o gravado no filme “Central do Brasil” é ver a luta de uma população por sua moradia, notar essas mudanças depois de 24 anos é entender parte da história da construção urbana no Brasil.


Texto por: Ana Rita Meneses

 

Confira o festival na íntegra acessando mostratiradentes.com.br e prestigie o cinema nacional e suas experimentações!


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