Uma Noite em Miami...

Com um texto muito refinado, a adaptação de Regina King impressiona na fala, mas deixa de funcionar como uma obra cinematográfica em prol do discurso.

A década de sessenta foi um dos períodos mais efervescentes da história norte-americana. A luta por direitos civis abalava as estruturas de poder vigentes e, com a vasta utilização de símbolos, o movimento negro ganhou forças na sua luta por igualdade. É nesse cenário que se desenrola Uma Noite em Miami…, novo e primeiro trabalho de Regina King na direção, ilustrando o que teria acontecido com Cassius Clay (Eli Goree), Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), Jim Brown (Aldis Hodge) e Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) na noite em que o primeiro tornou-se campeão mundial de boxe.


Adaptado da peça de Kemp Powers (Soul), o filme traz à tona não só o poder e a relevância desses ícones como também os humaniza e expõe suas fraquezas. Aqui eles interagem de uma maneira muito rica e são enxergados além de seus cargos e ocupações. É válido ressaltar que todos estão passando por algum processo de mudança, amadurecendo e incorporando os aprendizados nas suas decisões e, assim como o discurso que quer passar, vivem nessa eterna metamorfose que incorpora novas percepções até onde se faz dicotômico.

King insere esse discurso de uma forma muito clara e óbvia, tanto o problema quanto a solução saem da boca das personagens e o que ele tem de mais interessante para oferecer é essa sobreposição de métodos. Todavia, esse também é um dos pontos em que o filme se limita. Essa verborragia toda não encontra na linguagem a base ideal para se desenvolver, vide a câmera, branda, que pouco se desdobra ou interage com o ambiente ao seu redor e parece estar mais interessada em constantemente impactar com o texto.


Enquanto a estrutura teatralizada que importa do material fonte confina os quatro em um exercício da forma do meio, na adaptação isso se perde um pouco. A pouca, ou quase nenhuma, articulação cinematográfica que faz sempre se dobra pelo roteiro, quase como se o “discurso” saísse do seu campo de um ideal propagado para se tornar, no sentido mais político da coisa, um discurso ministrado na forma de palestra.

Não é como se fosse uma completa catástrofe no âmbito narrativo, na realidade, só perde a oportunidade de imprimir o que quer dizer para além da palavra. Ainda assim, no que se diz respeito a recriação histórica ele é bem preciso e embora para muitos isso seja de um preciosismo desnecessário, nos melhores moldes de Destacamento Blood (Spike Lee, 2020) é como se King fizesse questão de pausar sua obra para reverenciar esse momento.

Tomando de exemplo a cena final em que as personagens se reúnem no bar, há a encenação perfeita de uma das poucas fotos, para não falar registros, dessa noite histórica. É como se ela tentasse mostrar que isso realmente aconteceu, que eles, figuras irretocáveis, celebravam junto de todo o resto. Mas esse não é o único paralelo que pode-se traçar entre Uma Noite em Miami... e o trabalho de Lee.

Uma das muitas qualidades do cineasta nova iorquino é, ao invés de investir por um caminho que condene, pontuar as problemáticas com o benefício da dúvida, elevando a discussão para um patamar muito mais interessante do que certo e errado. O embate entre Malcolm X e Sam Cooke é um belo exemplo da desconstrução dessa bivalência. Por mais categórico e idealista que X seja, não há como dizer que a alternativa de Cooke para liberar a população negra não seja válida e é preciso muita coragem para desconstruir figuras dessa maneira, quebrantar a sua imperatividade e mostrar que, depois de tudo, ainda são humanos. Mostrar que, no final das contas, ainda tem medo da morte.


Sendo assim, pode-se dizer que o texto tanto rouba a cena quanto sustenta o filme, sendo presente no que ele tem de melhor e no que ele tem de pior. Uma espiral se forma: enquanto a forma se ajoelha perante o conteúdo, este não amplifica o seu impacto justamente por não ser articulado pela cinematografia. Inclusive, talvez essa seja uma boa forma de resumir a obra de Regina King, um filme que não cansa de dar voltas para potencializar seu final, mas esquece de se desenvolver no caminho.


Nota do crítico:


Uma Noite em Miami... já está disponível no catálogo do Prime Video!