Uma introdução SINGULAR

Olá, Mundo!

Atualmente, no momento exato em que os dedos do redator tocam as teclas de um notebook, a população do planeta é de sete bilhões oitocentos e trinta e três milhões seiscentos e noventa e oito mil oitocentos e trinta e um seres humanos. Uma fração relutante dos estimados cento e sete bilhões que já plantaram seus pés em solo mundano e que, com algum esforço, podem ser considerados os mais modernos.


Desse número exorbitante, o qual nós temos sérias dificuldades de concatenar, surge uma dúvida: o que nos torna especiais?


Será que são as intermináveis probabilidades que circundam esses algarismos que, num acaso mendeliano, resultaram em todas as nossas diferenças ou é a incrível semelhança que sete bilhões de indivíduos compartilham em seu código genético?


De fato, em tempos de cólera, é difícil enxergar as semelhanças no outro. O esforço sistemático para que nossa espécie abandone suas origens tribais compartilhadas para uma vida individualizada envenenou nossa percepção de mundo. Agora, há quem prefira olhar para a diminuta porcentagem de diferenças genéticas da maneira errada, atribuindo significados egoístas em um determinismo frágil que, ao invés de projetar pontes, constrói muros.


Capacidade de atribuição essa que, por vezes tão destrutiva na contemporaneidade, já foi deveras importante e benigna para nós. Por volta de cinquenta mil anos atrás, em um vislumbre iluminado de inspiração, um antepassado nosso mergulhou o dedo em uma mistura vermelha e, pressionando-o contra a parede em um gesto despretensioso, mudou para sempre o rumo da humanidade.


Ali, com o dedo primitivo banhado de óxido de ferro, quando esse hominídeo singular resolveu atribuir para uma série de riscos na pedra a representação de sua caça, o ser humano dava um passo inesperado em uma jornada pela eternidade. Ali, em uma caverna reclusa, surgia a arte.


Sem créditos, identificação ou sequer um resquício de nome, ele transformou a sua experiência individual em algo compartilhado. Um ato simples que, até hoje, guarda uma memória de onde estávamos e aponta para onde vamos. Essa assimetria que se pluraliza é a diferença que vale a pena ser cultivada. A criação de uma base para que outras almas inspiradas possam se apoiar e agregar suas particularidades é o que torna a arte algo tão plural.


Afinal de contas, somos semelhantes por termos diferenças e, respondendo a pergunta inicial, isso é o que nos torna especiais. A capacidade inigualável de fluir entre o ser e o coletivo, entre o individual e o compartilhado, entre o pouco e o muito, entre o singular e o plural.


Sendo assim, o objetivo da nossa revista não poderia ser diferente: juntar pessoas singulares para falar trimestralmente sobre arte, cultura e sociedade do jeito mais plural possível.


Sejam bem-vindos!