Um passeio de cercanias pelo melodrama de Pedro Almodóvar

Pegando uma viagem de 1991 a 2008, traçamos um caminho para compreender o vasto território cinematográfico e melodramático do diretor espanhol



Cercanias. Um meio de transporte espanhol que, para se compreender melhor, pode-se comparar a um trem. É um dos transportes públicos da Espanha, especificamente, o mais utilizado para atingir pontos distantes dentro do país. Por preços variados e independente da distância ou valor de passagem, tanto no físico quanto no filosófico, constantemente leva seus passageiros a um lugar novo.


Assim, como quem embarca em uma cercania com uma mala de mão e um coração repleto de histórias, gostaria de viajar neste texto com você. Porém, mais ainda, gostaria de trazer-te para o banco ao meu lado e cruzar essas narrativas. Aproveitemos a viagem para notar nuances que se diferem ao mesmo tempo que se aproximam, mas que, acima de tudo, se interligam, invariavelmente, pelo ponto de vista sensível que um diretor mantém ao decorrer de sua consolidação como artista.


Antes de dar a partida, gostaria de apresentar o diretor ao qual me refiro e que irá nos guiar nesta viagem. Hoje com cabelos grisalhos e uma barba no mesmo tom, Pedro Almodóvar nasceu há 72 ou 69 anos. Não se sabe exatamente a data de nascimento, um problema que não é estranho à sua época, pois documentos e registros eram feitos à mão, e passíveis de erros. Sabe-se que nasceu em um dia 25 do mês de setembro. Astrólogos diriam que ele é libriano, mas não há leitura de estrelas que poderia prever que um jovem de origem pobre e permeada por conservadorismo se tornaria o maior cineasta espanhol contemporâneo e o primeiro a atingir a marca de ser nomeado à uma indicação da Academia para melhor direção e filme.


Tinha poucas moedas e muitos sonhos. Morava longe da capital, mas seu compromisso com a cultura e arte foi maior que qualquer argumento monetário e familiar.


Com 16 anos, mudou-se para Madri em busca de fazer cinema, custe o que custar. Podemos dizer que lhe custou alguns empregos fora do ramo e 12 anos de atuação como Assistente Administrativo na Telefônica Espanhola, uma gama de histórias e uma sensibilidade social que reflete, hoje, em suas tramas. Assumidamente homossexual, quando jovem performava nas noites como travesti em bandas e cantando, além de atuar ativamente de peças de teatro. Mas sua paixão inegável era o cinema, fosse como ator ou diretor.


Finalmente, em 1980, conseguiu realizar seu primeiro projeto como diretor, lançando "Pepi, Luci, Bom e outras Garotas de Montão". O filme nasceu junto com a democracia na Espanha e desde então, ano após ano, ele lançava uma película diferente. Em 1988, quando estreou seu sétimo filme, "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", finalmente explodiu. A obra foi um sucesso de bilheteria dentro e fora do país e o levou às grandes premiações e ao reconhecimento internacional. A partir de 1988, Pedro se consolida no cenário cinematográfico, e garante seu nome em grandes premiações. O diretor neste trem é corajoso, empático, democrático e excepcional. Confie, não há como o roteiro desse retiro ser menos que curioso:



Começaremos a partir da obra de 1991, chamada "Tacones Lejanos" ("De Salto Alto"), e iremos percorrer um caminho até a obra de 2011, "La piel que Habito"("A pele que Habito").

Em "De Salto Alto" o diretor traz uma das grandes estrelas de seus filmes, Marisa Paredes, como a famosa Becky del Páramo, uma atriz que, em busca de seu sonho de fazer carreira, deixa a Espanha pelo México e abandona sua filha Rebeca (Victoria Abril) por 15 anos. Após uma quinceañera (período de quinze anos) de ausência, decide voltar à família para encontrar a filha que, não só já está crescida, como também está casada. O mais curioso surge após o primeiro encontro entre elas. A trama gira em torno dessa relação de mãe e filha e na impossibilidade de uma escapar da outra, independente da válvula de escape que queiram dar a si.


Essa relação dependente e desesperada começa quando Rebeca se casa com Manuel (Féodor Atkine), que, por sua vez, teve um grande caso de amor com a Becky del Páramo no passado. Mesmo com uma relação infeliz e claramente desgastada, Rebeca não suporta a ideia de ser abandonada por Manuel e, mesmo sabendo do caso de amor que teve com sua mãe, não quer deixá-lo ir, fazendo questão de garantir que ele seja exclusivamente seu. Do outro lado, sua mãe, que viveu o tal romance há alguns anos, ao descobrir o casamento, não deixa de sofrer pelo antigo amor e, numa atitude quase irracional e completamente desleal, acaba revivendo a paixão ao tornar-se amante de Manuel.


No momento do filme em que isso acontece, a teia de relações fica tão tensa e emaranhada de caos que, em determinado momento, sente-se que a tela irá explodir. Como espectadora, parece uma piada de mal gosto que uma filha se case com o antigo amor da sua mãe, e pior, que sua mãe seja amante do marido da filha!


É um evento desenfreado de causa e consequência que culmina no ponto de alto do relevo da narrativa: A morte de Manuel. A princípio, Rebeca assume o crime em rede nacional, mas não deixa de suspeitar de sua mãe por ser amante de Manuel. Com o desenrolar dos pequenos eventos, não é claro se Rebeca cometeu o crime, ou se foi sua progenitora. Aqui fica claro a revolta da filha contra, que seria suficiente para causar uma bomba atômica de nervos: mesmo com a confissão clara, Rebeca não consegue ser protagonista se quer de um assassinato que confessara. Não existe protagonismo enquanto estiver ao lado de sua mãe. A morte de Manuel é um grande símbolo que de, indiretamente, Becky e Rebeca são indissociáveis dentro da sua existência. Enquanto houver Rebeca, haverá Becky, e enquanto houver Becky, haverá Rebeca, não à toa, o nome de sua mãe é uma alusão ao nome da filha, dando entender-se subjetivamente essa exata insolubilidade de protagonismos.


Mesmo revoltada com a mãe, o que se explicita no episódio da delegacia quando ela a visita, é perceptível que a filha não consegue ficar longe. Rebeca, em uma tentativa de resgatar a mãe que foi ausente, procura meios de tê-la para preencher seu vazio de infância, seja através de Manuel, seja através de seu papel como repórter na televisão, no assassinato do homem que as magoou ou até mesmo na sua forma de vestir-se. O foco na marca da bolsa Chanel de Rebeca no início do filme traz milhões de significados em si, desde a tentativa de mostrar o que tem, quando não se tem nada, até querer ser como sua mãe, mesmo sendo impossível ser ela. Vale ressaltar que o drama obsessivo, além da narrativa intrigante, é muito bem composto pelo cineasta pelas cores e cenários que usa. As utiliza para representar simbolicamente o que a trama traz na sua intensidade e vivacidade. As cores te levam a sentir a emoção de forma mais intensa e a trilha sonora faz o coração disparar.


Ainda, além dessa análise materna entre Becky e Rebeca, podemos explorar mais um relevo da obra, que está na relação de sua amiga travesti, Letal (Miguel Bosé). Ela é uma travesti afeminada e muito talentosa, composta de toques aveludados e rigidez musculosa, ela traz os dois mundos do que é ser travesti e as facetas transitáveis da virilidade e delicadeza que tem. É sensível ao ter Rebeca em seu camarim para conversar sobre seu relacionamento desagradável e dominador para tê-la em suas mãos e engravida-la enquanto pendurada em canos (literalmente). Letal se faz presente como uma das marcas registradas das obras de Almodóvar e levanta uma análise de outra profundidade ao apontar as variáveis masculinas e femininas de um mesmo ser. Diferente da trama maternal, em Letal observamos a possibilidade de ser tudo e muito. Em oposição a uma cadeia maternal rígida e insolúvel, Letal traz a flexibilidade e adaptabilidade que a liberdade concede à quem deixa de comparar-se com o protagonismo alheio. Seu domínio não quer ser sobre sua mãe ou filha, e sim sobre suas vontades e desejos.


O filme se chama "De Salto Alto" e não é à toa. A importância da classe e finesse dentro do redemoinho de frustração romântica e maternal, destaca a tentativa de manter-se firme e elegante perante uma infinidade de relações complexas e desvalorizadas.



De 1991 para 2008, ele conta com um elenco que ajudou a consolidar e que, inclusive, hoje tem reconhecimento internacional. Trazendo seu fetiche para frente das telas com Antonio Banderas e Bianca Suárez interpretando personagens complexos, surge "A Pele que Habito".


Este novo filme é muito diferente das demais obras dos anos 90, em que Almodóvar desenha a película com cores vivas e dias ensolarados. É como uma noite sem estrelas após um dia ensolarado. Entenda-me, isso não é o oposto negativo, falo isso no aspecto de opostos existenciais: ambos habitam um mesmo dia, porém em formatos diferentes. Existe agora uma penumbra que não se faz presente anteriormente e, justamente por essa imprevisibilidade e imersão atmosférica sobre a narrativa, o diretor eleva seu drama à décima potência. Se antes você não conseguiria se desprender da trama pela beleza cromatizada, agora você tem sintomas físicos que refletem a escuridão que está diante de sua face.


O filme traz o retrato de uma família melancólica que tem Robert Ledgard em seu centro, interpretado por Banderas. Cirurgião plástico e pai de Norma, sua filha com Gal. Sua esposa comete suicídio e a morte dela é triste e mal digerida: sofre um acidente e queima seu corpo, o que a deixa inteiramente em carne viva. Seu marido, cirurgião plástico, tenta reverter seu quadro através da criação de uma pele humana sintética. Mas Gal não tem tempo de esperar pelo milagre, sua crença neles havia acabado no dia que sentiu o fogo na sua pele, e definitivamente decidiu que não haveria Deus algum que pudesse salvar da sua aparência. Assim, decide dar fim à sua vida pulando do penhasco de sua janela. Mal sabia que, no mesmo momento embaixo de sua janela, sua filha estava apreciando a vista. O trágico fim da mãe deixa pai e filha com o vazio inconsolável, inexplicável e infinito.


A trama principal desenvolve-se após tal morte, dentro de um evento traumático que Norma sofre. Ela, que passara uma juventude comedida de prazeres e relações em função do peso psíquico que carregava, finalmente sai para acompanhar o pai em uma festa de um amigo. Pela primeira vez, sai de casa, após a morte de sua mãe. Acompanhada inicialmente do pai, sente-se claramente desconfortável no lugar, mas não deixa abater-se pelo sentimento. É visível sua tentativa de enturmar-se com os demais adolescentes da festa. Sua única vontade era de superar seus medos e viver o que não conseguia.


Em determinado momento, Norma avista um jovem observando-a chamado Vicente (Jan Cornet), e os dois começam a trocar olhares. Preparada para tirar mais um espinho que espetava seu coração, ela decide conversar com o rapaz num bosque perto da casa onde acontecia a festa. Seu coração dispara durante esse acontecimento no bosque e a cada movimento do garoto lhe sobe um calafrio. A face dela desperta o desespero compatível com o de ver uma amiga na situação. A dor é de quem perde um campeonato depois de 15 anos treinando para vencê-lo. Norma é abandonada no bosque, sozinha, após ser violentada sexualmente por Vicente.



Percebendo a ausência demorada da filha, Robert sai a sua busca. Encontra-a no bosque com a roupa rasgada e marcas de agressão. Apesar de não ver Vicente, ele já havia observado os olhares entre os dois e percebera o desaparecimento do rapaz. Nesse exato momento, Robert toma para si Vincent como o Diabo, e a si mesmo como Deus, e o tortura por infindáveis horas, dias e meses, até enfim transforma-lo em uma mulher.


Desde a morte de Gal até a transformação e desenvolvimento de Vincent como mulher, o estômago embrulha a ponto de mal ingerir-se água. Robert rapta o jovem que abusou de sua filha em um lance só. E, em uma espécie de caverna medieval, o prende por correntes grossas e o mantém como escravo de seu sofrimento. O suprassumo de tal enjoo se dá quando a câmera vai lentamente acompanhando Robert em uma espécie de sala operatória, mostrando os instrumentos metálicos tenebrosos que incidem na transformação violenta e inconsciente de Vincent em Vera. Quando acorda, ele não tem mais posse de sua existência, está condicionado ao universo que seu Deus criou e tem de aprender a lidar com isso dentro de um cubículo vigiado por câmeras, onde Robert mantém Vera, sua experiência social, seu teste cirúrgico e seu bode expiatório.


Interrompo aqui para refletir o acontecimento. Essa punição de Vicente vem do mesmo vazio que Robert tem em si. Ambos têm uma existência punida pelo destino, amargurada pelo tempo e desprovida da benevolência sagrada.


Robert reflete sua raiva imparável do evento ao raptar e torturar Vicente, mas expande sua projeção traumática na transformação do mesmo. Ele decide punir com algo inegociável, e tentar através desse movimento, provar a si mesmo que seria capaz de gerar um milagre de uma nova pele sintética para sua esposa, algo que não aconteceu a tempo de mantê-la ao seu lado. É uma punição ao outro e um movimento terapêutico para si.


A história continua sob a ótica de Vera que convive com seu torturador, e de Robert, que convive com o torturador de sua filha. A surpresa é que, após transfigurar e transsexualizar o seu preso de cativeiro, o vê agora como Vera, mas com a face de Gal. Vicente ao ser punido, pune em oposição seu torturador ao trazê-lo prazer e sofrimento com sua existência.


Assim, os dois se desprendem gradualmente do passado e aproximam-se, formando um par romântico. Ao fim, juntos, Vera vê uma foto sua antiga, como homem, e traz a violência e revolta à tona. No mesmo momento, decide fazer exatamente o que se espera de um prisioneiro frente ao seu torturador vulnerável. Atira em Robert com dó e ódio. Seu fim é recompensado com o fim de Robert. Finalmente Vera renasce da morte de seu passado e o filme termina com sua existência livre.


Do primeiro ao último frame é enquadrado um clima pesado em todos os sentidos. Sua trilha sonora é tensa e traz sons mais graves e destoantes nos momentos de agressão; as falas enxutas se bastam em cumprir uma função com poucos diálogos sucintos, o que, dentro da atmosfera escura e mal iluminada, traz a certeza de estar-se observando um filme de terror de primeira classe. Nesta obra, Almodóvar, que sempre entrega tanto brilho, luz e cor às suas obras, mostra sua flexibilidade de trabalhar com diferentes roteiros e adaptar-se à cada um para trazer o melhor de sua narrativa para com a proposta. Ambos filmes trazem tramas familiares embaraçadas em diferentes aspectos, abordam a transexualidade e o papel do feminino, mas de formas completamente diferentes. Assistindo os dois, parece humor dizer que são dirigidos pelo mesmo homem. Percebe-se que seu objetivo final não é ter só repetir maneirismos, e sim fazer com que o espectador sinta o que se quer mostrar com toda intensidade possível, seja pelo exagero de cores ou por sua ausência.



O ponto principal que quero trazer aqui após essas análises são que: Almodóvar tem face para tudo. Apesar da sua obra completa ter características mais fixas, como a presença de uma protagonista mulher, espanhola e forte, também sabe articular uma história diferente da sua preferência e consegue montar um arranjo de cenas que faz o roteiro tomar vida e respirar através dos cenários e câmeras.


A sua flexibilidade é umas das responsáveis na composição de uma filmografia tão única. Não obstante, é reconhecido internacionalmente e ganha muitos corações quando apresenta-se à tela. Ainda, mesmo com sua habilidade de direcionar a luz e a câmera para angulações intencionalmente diferentes, admito grande apreciação por sua obra mais viva. Porém não deixo de me arrepiar com ambos estilos.


Almodóvar é um cineasta de genialidade e sensibilidade inigualável. Esse é foi um breve passeio para conhecermos um território que está se modificando neste exato momento, produzindo cultura e sentimentalismo. Como quase devota de sua criação e existência, sou constantemente tocada por suas obras. As cores quentes da Espanha pelos seus olhos aquecem o coração, e o frio metálico do bisturi com a parede cor de cimento trazem o inverno da alma para a tela.


Bom, chegamos ao meu ponto. Aqui me levanto com minha bagagem e, se me permitir, te dou um abraço como agradecimento pela companhia durante o tempo em nossas cercanias. Espero seu encontro nas muitas estações do trabalho de um gênio como Pedro.

¡Hasta la vista!