Tudo Que o Céu Permite (1955)

Em um melodrama intenso, Douglas Sirk atenta contra a ordenação, racionalidade e crueldade do patriarcado de uma sociedade capitalista em sua “era gloriosa”.



“Tudo Que o Céu Permite" é um filme que ilustra muito bem como nenhuma obra pode ser enxergada excluída de seu tempo, de seu contexto: todo seu drama pauta-se numa conjuntura social específica dos anos 50. Não que a mulher não sofra mais por sua posição e com os olhares julgadores diante de suas atitudes em 2021, mas no período em que foi lançado, os EUA celebravam períodos aparentemente "gloriosos" de seu capitalismo moralista, enquanto, não tão em segredo assim, destilavam ódio contra grupos historicamente oprimidos; não só as mulheres, mas os mais pobres, aqueles que não ocupam profissões com alto status perante a sociedade.


Nisso, o retrato que Douglas Sirk cria em seu filme busca evidenciar a característica ordenada, recatada, dessa sociedade; que de primeiro parece bela e brilhante em sua ordenação e cores vibrantes, mas que, aos poucos, revela-se racionalmente cruel. E sim, racionalmente. Pois o filme lida diretamente com a crueldade da razão em oposição à profundidade das emoções. O medo que Cary sentia em relação ao julgamento alheio é nada mais do que a razão atuando, pois, perante as circunstâncias sociais em que vivia, era mais racional não estar com Ron. E toda a organização social que leva aos infortúnios no amor dos dois resulta de uma racionalização cruel das emoções perante a servidão a uma estrutura social que é mantida para privilegiar o poder de poucos - é essa a mais evidente face do patriarcado.



Sim, "Tudo Que o Céu Permite" é, dentro das possibilidades de Douglas Sirk em 1955, um atentado contra o patriarcado através da aceitação da profundidade do amor, da paixão, das emoções. Não é, na realidade, um discurso contra o patriarcado, mas uma afirmação da necessidade de se valorizar o que é intenso e inefável, em oposição ao superficial e ordenado. Inclusive, apesar de fisicamente representar um típico homem dos anos 50, Ron não está interessado em controlar Cary. Isso é importante porque, não só no mundo como também no cinema a mulher foi e vem sendo privada de seu real protagonismo. Essa é até mesmo a crítica que a teórica Laura Mulvey faz ao cinema mainstream. Porém, Sirk, aqui, permite o protagonismo de Cary. As escolhas cabem a ela, não ao homem por quem é apaixonada (como acontece muitas vezes em filmes de aparente protagonismo feminino, mas que na realidade colocam a capacidade de mudança nas circunstâncias da estória nas mãos do par romântico masculino). Ron se abstém de escolher por Cary, e assim fica ainda mais evidente a circunstância racional do medo que ela tem de casar-se com o seu antigo jardineiro.


Assim, no quase que cruelmente trágico final (alerta de spoilers), parece até mesmo que Cary é punida, quando tenta encontrar novamente Ron e declarar seu amor por fim. Quando seu amado tem um acidente de certa forma causado por tentar alcançar seu carro, ou seja, "causado" pelo desejo de Cary de vê-lo, é como se, de fato, estivesse determinado que ela não poderia encontrar amor, apenas punição, em uma sociedade tão racional e julgadora como a em que vive. O fim de fato do filme, porém, afirma a possibilidade e a inevitável vitória das emoções, apesar de toda a crueldade do patriarcado. O início do longa de Douglas Sirk apresenta-nos uma viúva, em estado de morte. O último plano nos revela uma mulher apaixonada entregue à profundidade de suas emoções, entregue à vida. Não atoa, a imagem de um cervo encerra o filme: um arquétipo recorrente para representar vida e liberdade. O inevitável triunfo da natureza emocional é a imagem final que prevalece e concretiza o amor de Cary e Ron.


Nota do crítico:


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