Thor: Amor e Trovão (2022) | Filmes que não existem

E fica cada vez mais difícil assistir ao mesmo filme com atores diferentes.



O ofício crítico consiste, entre outras coisas, na capacidade, habilidade e disponibilidade de se refletir sobre a experiência que um filme lhe proporcionou e que caminho trilhou para tal realização. Quando temos algo bom diante de nossos sentidos, é um deleite completo. Ver como a união entre imagem e som cria um universo tão rico no campo sensorial é uma das coisas que mais me fascina e que me mantém faminto por consumir cinema. Infelizmente, nem sempre esse sentimento é tão voraz, nem sempre o diretor tem a capacidade de usar a linguagem para criar algo único e tocante, nem sempre o enredo do filme e sua condução consegue ser tão cativante. Todavia, acredito que terminar um filme achando ele ruim pode ser um dispositivo de reflexão quase tão eficaz quanto achando-o bom. Seja na completa negação, tentando destrinchar os defeitos da obra e em que ela não te agrada, ou na pulga atrás da orelha que, satisfatoriamente, tem o poder de mudar completamente sua percepção depois de uma nova assistida.


No cinema de hoje, na era das grandes franquias e blockbusters, um fenômeno muito curioso contradiz essa lógica que passeia pelos tons de cinza entre “bom” e “ruim”: filmes que simplesmente não começam. Filmes tão sem alma e sem vontade alguma de criar algo fora da repetição de uma fórmula (que todo amante do cinema já não aguenta mais ter que repetir o quanto se desgastou) que, ao mesmo tempo que já foram assistidos milhares de vezes, não parecem existir ou impactar, seja para o bem ou para o mal. Thor: Amor e Trovão é um membro assíduo desse grupo que, como se não bastasse a falta de vida atingindo a câmera, apela para uma série de maneirismos humilhantes para ter algum pulso.



O novo filme do deus do trovão não tem um momento, cinematograficamente falando, que seja capaz de fazer sentir. A câmera filma a ação das personagens como uma sitcom, tentando estender sua linguagem somente até a chegada de uma nova piada. Aliás, são muitas piadas e elas soterram o espectador. Enquanto bons filmes de herói, como os dois Guardiões da Galáxia de James Gunn, usam o alívio cômico com maestria, Thor não se leva a sério sequer por um instante e, a todo momento, insiste na repetição das três únicas piadas que se repetem pelo filme e que transformam o “alívio” cômico em insistência cômica. Um humor que não consegue nem ser besta o suficiente para voltar a ter graça, para antes, na tentativa de tentar memetizar.


Enquanto o Batman de Matt Reeves encontrou nas HQs a melhor inspiração possível para elaborar sua forma noir, Taika Waititi puxa das revistinhas apenas os piores clichês. É como se ele usasse esses artifícios advindos dos quadrinhos apenas a fim de ter uma defesa para colocá-los no fogo cruzado que ataca seu filme. Ele rebaixa o cinema ao invés de exaltar o seu material fonte. Não só isso, é um filme completamente mecânico, os diálogos parecem terem saído de um algoritmo que analisa as demais obras do MCU, os efeitos são feios para um filme que custou tanto e que se apoia tanto na tela verde. É frustrante desde essa análise técnica fria até o calor das emoções que desperta ou, no caso, deixa de despertar.



O que digo no começo, do filme nunca começar, se dá pela sensação que predominou minha experiência: o diretor não acredita o suficiente em sequer um plano de seu filme e, por isso, tem que não se levar a sério para cortá-los. Aliás, se já um exagero chamar o que eles proferem de texto, seria demais pedir qualquer tipo de subtexto em Thor: Amor e Trovão. Não há um respiro e nem é dada nenhuma oportunidade para que essas personagens digam algo que não seja estritamente focado em continuar o seguimento da história. Tudo funciona tão somente para ligar o ponto A ao ponto B e isso é o mais triste que pode ser feito com o cinema.


Aliás, além dessa conexão de pontos simplista em que traça sua mise-en-scène , ele tem que resgatar acontecimentos de todos os outros filmes do universo cinematográfico e fazer uma espécie de catadão para que o espectador saiba em que pé está dentro de um grande mapa. Nesses momentos, utiliza Korg, personagem do próprio Waititi como narrador. Imaginem só, uma bagunça tão grande que o próprio diretor para o filme e explica na literalidade o que está acontecendo. Enfim, a cada novo lançamento da companhia, os filmes da Marvel se tornam um desafio para mim como crítico. Afinal, não consigo ter uma boa experiência assistindo a mesma encenação massante dos últimos dez anos e vou só até tão longe criticando o mesmo filme pela enésima vez. É como tentar reviver uma memória ou reencenar uma lembrança. Não há unidade, não há vida, não há filme.


Nota do crítico:


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