The Batman (2022) | Descompassos narrativos

Matt Reeves explora a figura do Batman em investigação superficial e rudimentar.



Uma das coisas que sempre me impressionou em O Planeta dos Macacos: O Confronto, é a forma como os filmes começam e fecham com um lento zoom-in/zoom-out nos olhos hiper-realistas de Cesar, como se, por trás de toda aquela textura gráfica, esses olhos revelassem o fragmento mais próximo do humano que ele tem do ser humano e, logo, do espectador. Em Batman, quando o vigilante sai das sombras para confrontar uma gangue no metrô, o som pesado dos passos, as fracas luzes do ambiente vão revelando pouco a pouco as curvas opulentes por onde as gotas das chuvas escorrem. Seus olhos, escondidos pela máscara, nunca são revelados por completo.


Talvez essa seja uma das coisas que Matt Reeves melhor resolve em sua abordagem acerca da figura do Batman. Diferente de Tim Burton, que o enxergava menos como uma imagem inexoravelmente enigmática e mais como uma silhueta fabulosamente sombria, Matt Reeves preenche e adorna seu Batman com uma fisicalidade bruta e inexorável que deforma a relação que tem com os espaços e com outros corpos. Batman se move desajeitadamente, gesticula mais lento que o normal e impõe em cada um desses gestos um peso bastante palpável.



São duas as sequências: quando entra na cena do crime inicial, é encarado pelos policias como uma criatura bizarra (“You freak!”, um deles grita), incômoda, repressiva; em outro momento, na casa noturna de Pinguim, existe uma rispidez com que seu corpo abre espaço através das pessoas, e existe uma rudeza no modo como o microespaço que se forma entre ele, Selina e Pinguim parece não suportar suas extensões físicas. Também é o lugar onde, pela primeira vez, vemos seus olhos observando Selina, e Reeves filmando e decupando ponderadamente esse momento.


É Batman, e não Bruce Wayne. Reeves evidentemente elipsa a narrativa sempre que a roupa de morcego fica de lado, muito porque o lado investigativo do personagem se encontra precisamente na figura do vigilante, e não do humano. Batman é sua identidade, Wayne é sua fantasia social. Nesse sentido, o que existe é uma recorrente construção de humanidade do monstro através das recorrentes abordagens acerca da relação dele com Gotham. O Batman, o Charada, a Mulher-Gato, o Tenente Gordon e a polícia corrupta, o Pinguim e o Carmine Falcone são manifestações concretas da sordidez urbana de Gotham. Ela criou essas pessoas. O Batman, então, deve lutar ou não por aquela cidade? Como controlar seus ímpetos violentos que o dominam quando coloca a máscara do morcego?


Bons planos e boas esquematizações, no fim, não levam essas perguntas para lugar algum. São lapsos descompassados no meio de sequências excessivamente estrondosas e épicas porque, no final das contas, é um filme investigativo escondido no meio de um filme de super-herói; melhor: um filme do Matt Reeves escondido no meio do filme da Warner/DC. Logo, não importa muito se Reeves filma bem ou não, sabe brincar com a luz-sombra em enquadramentos nitidamente propensos a isso (as decorrentes cenas no telhado que tratam as mesmas sequências da mesma forma pueril) porque nunca é costurado ou cadenciado juntamente com os pequenos arcos narrativos que vão surgindo. O exemplo mais visível é a decisão de Reeves em mostrar parcimoniosamente o Charada mas, no fim, defini-lo através de diálogos explicativos de ações que nunca vemos serem tomadas – a surpresa no ato final expõe exigências megalomaníacas típicas de filmes de super-heróis.



As comparações com os film noir foram muitas, mas o que inexiste em Batman é ímpeto narrativo das tramas rocambolescas e sem saída que existem em filmes como À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1946) ou A Morte num Beijo (Kiss Me Deadly, 1955) partem de um gradativo esvaziamento narrativo com o propósito de drasticamente rearranjar sua parafernália visual. Reeves se limita a mostrar apenas, e somente, a busca de uma pista e outra sem uma assimilação estética; não existe muito a ser inspecionado no vácuo entre sair de uma cena de crime e entrar em outra.


Essa burocracia narrativa nunca consegue ser bem resolvida porque se interessa muito mais em explicar detalhadamente o que ao invés de como estimular essa investigação; o que importa no final é a informação e não a forma como ela vem, o conteudismo televisivo que não se assimila com as estruturas cinematográficas – nem mesmo dentro do que Reeves propõe. O que acontece é que Batman vai se inchando a cada explicação concedida, a cada diálogo repetitivo, a cada personagem aparecendo e saindo e dando outra informação, e nunca consegue desfazer o nó que amarra o filme em si mesmo.

Talvez o Tim Burton tenha me deixado mal acostumado, mas o que fica de Batman é a tentativa de conciliar gêneros, mas que parecem reprimidos por forças maiores (Warner/DC e Disney/Marvel: em busca do filme de super-herói perfeito ou... mais rentável). Talvez numa futura continuação – e é claro que vai ter –, Reeves consiga manipular melhor as superestruturas hollywoodianas ou, torcemos, que soltem esse cineasta que, sabemos, conserva uma vontade de fazer filmes que raramente se vê hoje em dia.


Nota do crítico:


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