Tempo (2021)

“Tempo”, de M Night Shyamalan, é o filme menos clássico do diretor, mas um dos mais rigorosos e que melhor evidenciam sua sofisticação formal



Como um mestre da mise-en-scène, Shyamalan sabe manipular muito bem o tempo em seus filmes. Seu novo lançamento, “Tempo”, é um dos mais interessantes nesse sentido, ao passo que é também o filme menos clássico do diretor. Sendo um que sinto carregar semelhanças com “The Happening”, porém, é muito mais bem sucedido do que o filme de catástrofe. Ambos soam experimentais em diversos momentos, mas creio que somente “Tempo” integra à sua narrativa o experimentalismo que se assume como uma obra carregada de elementos “B”.


O que primeiro me chamou a atenção nesse sentido são as atuações: estas são, no mínimo, não convencionais. Nos primeiros minutos do filme, antes do incidente incitante da estória (que ocorre quando as personagens chegam à praia deserta), o tom estranho e desconexo das interpretações acaba por arrastar um pouco o ritmo do filme. Mas, ao mesmo tempo, já intui um senso de desconexão com o mundo: o hotel é sempre estranho, desde o início intui-se que algo está sendo controlado, escondido.



Isso surge tanto pelas atuações que têm reações estranhas e um ritmo descompassado entre as falas, como também a partir da própria construção dos planos por Shyamalan — na composição de seus quadros há distorções das figuras humanas por lentes, planos muito chapados e com a centralização das figuras (próximo até ao que Stanley Kubrick faz em “O Iluminado”). O senso de controle e estranheza surge pelo preciosismo formal muito evidente do diretor. Até, como já citado, remete ao Kubrick na variedade de enquadramentos e movimentos de câmera que Shyamalan adota aqui, bem como ao modernismo de Hitchcock.

E tais características modernas que o diretor adota nesse novo filme são determinantes, visto que Shyamalan costuma ser um diretor mais conservador e clássico em sua mise-en-scène. Os elementos narrativos clássicos ainda estão muito presentes, porém os planos em “Tempo” trazem uma subjetividade maior — acompanhamos, por vezes, o ponto de vista de algumas personagens, planos da nuca, elementos da composição do quadro que nos conectam de forma mais íntima com os seres do filme.


Nessa manipulação inventiva do diretor com sua câmera, é possibilitada tanto a paranoia (potencializada pelas atuações estranhíssimas, que se tornam ainda mais coerentes no momento em que todo o desespero na praia se inicia, aumentando o senso de desconexão com o mundo à medida que os personagens envelhecem precocemente e presenciam os acontecimentos mais bizarros), como também a sensação ininterrupta de urgência. É como se, a cada movimento de câmera ou corte, fosse possível sentir a passagem violenta do tempo. Shyamalan até cria planos sequências muito reveladores e potentes nesse sentido, fazendo um uso inspirador dessa técnica.



Outro elemento importantíssimo no filme, que Shyamalan utiliza para potencializar a força do tempo sobre seus personagens, são as manifestações da natureza: o mar diante deles parece infindável, as ondas violentas batem contra as rochas, e enormes muros rochosos os oprimem. A sensação de impotência é enorme, e o diretor torna-a ainda mais forte ao filmar a pequeneza de seus personagens diante da grandeza, beleza e potência inexplicável da natureza que os cerca.


Assim, com todo esse senso de urgência que guia o filme, pode até ser justificável o final um tanto quanto sosso. Não há catarse, mas um encerramento mais frio e resolvido até que de forma bem simples. Se, por um lado, pode ser um pouco anticlimático, é um fim que traz respiro à personagens que, já na sua meia-idade, perceberam o quanto pesa o incontrolável e ininterrupto avançar do tempo.


Nota do crítico:


Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor: