Richard Linklater roubou este texto

Dentre seus recortes na vida do jovem, a vírgula é mais poderosa do que o ponto final.


O cinema é grande demais para ser reduzido somente ao que é condicionado. Duas horas, três arcos, doze passos da jornada do herói, introdução, desenvolvimento ou conclusão, seja qual for o artifício, quando utilizado arbitrariamente pela simples conformidade e até mesmo necessidade comercial, todos aprisionam a liberdade que, em parte, faz com que a experiência cinematográfica seja tão rica. Ver a verdade que subsiste através das distorções da lente, moldada a partir da articulação e crença do diretor é o que torna a sétima arte tão fluorescente, relacionável e puramente verdadeira para mim. Agora, no meio do primeiro parágrafo, já escancaro minha pessoalidade, afinal, para falar sobre o que quero falar, do jeito que sinto que devo falar e de um ponto de vista tão meu, seria injusto me esconder na terceira pessoa.


Para entender melhor, em seus primórdios, isso aqui seria uma série de reflexões sobre o embate entre os respectivos papéis da racionalidade e da crença na filmografia de M. Night Shyamalan, mas um golpe do destino quis mudar o rumo da minha participação nesta edição. O artigo original não foi abandonado, mas uma sensação nova se apossou da minha cinefilia, dois filmes do mesmo diretor em madrugadas consecutivas triunfaram sobre a proposta anterior e, no aberto de seus filmes, Richard Linklater roubou este texto.


Os filmes em questão foram Jovens, Loucos e Rebeldes (1993) e Boyhood: Da Infância à Juventude (2014). Ambos, por muitos motivos particulares que constantemente se interseccionam, reconfiguraram não só minha percepção ante a narrativas menos convencionais como também a minha maneira de encarar o realismo de uma forma diferente: a partir de um ponto de vista que não se apoia nas amarras deprimentes daquilo que é de fato real, abraça um micro universo lúdico, poético e jovem e que, por sorte, calhou de pertencer a um artista tão fenomenal quanto Linklater. Finalmente, depois de três parágrafos recheados de explicações e justificativas, me sinto confortável para de fato começar a me debruçar sobre essas duas jornadas, das suas diferenças às suas igualdades.



Seu trabalho de 93 é o mais mágico. À moda de Cinderela, em uma única noite o mundo daquelas personagens se transforma, uns conhecem o que há de novo para a fase que se aproxima e outros se despedem das memórias acumuladas dos últimos anos de ensino médio. Nesse ritual de passagem semi místico o diretor entende o que de fato interessa para o adolescente, tanto o que assiste quanto o que toma forma na película, nesse diminuto tempo. Não existem diálogos exibicionistas que destrincham personalidades na fala, biografias são chatas demais e para fazer essa ponte ele se utiliza de momentos e atitudes. Quando David Wooderson (Matthew McConaughey) pergunta para Mitch Kramer (Wiley Wiggins) se ele tem maconha para, após a negação do menino, emplacar sua emblemática frase “seria legal se você tivesse” é um ótimo exemplo. Um sujeito minimamente interesseiro, que não resiste a uma menina mais jovem que ele, parasita a prefeitura, mas que não nega divertimento. Ele é alguém que só quer curtir o momento, aproveitar a vida e ter suas experiências.


Vejamos Randall Floyd (Jason London) e o termo de comprometimento em não usar drogas que precisa assinar para jogar no time de futebol americano da escola. Ele poderia facilmente riscar seu nome e seguir adiante do mesmo jeito com sua vida, mas isso não só seria uma trapaça com o treinador e com time como também seria desonesto com ele mesmo. Essa epopeia que percorre, quando a responsabilidade constantemente insiste em bater à sua porta reforça como, por mais que seja um bon vivant, ele tem ideais fortes e não se dispõe a abrir mão disso. A máxima motivacional “a palavra convence, o exemplo arrasta” toma forma de um jeito menos charlatão e mais sincero aqui, como se as personagens se provassem em uma camada do consciente que as processa como um ser real, pensante e contraditório e não em um discurso superficial moldado para recortes de legendas no Instagram. Daí vem a magia da realidade de se provar tanto com tão pouco.


É engraçado pensar nessa aura que o filme exala, tão verdadeiro e tão honesto, desses que dá vontade de sair pela porta e viver a vida pura e simplesmente. Vasculhando na rede social mais cinéfila da internet, o Letterboxd, me deparo com um fato que me encafifou nesse particular. Jovens, Loucos e Rebeldes é figurinha marcada em uma das listas com mais curtidas do aplicativo, ““nothing happens” yeah but the vibes” que em tradução livre seria algo do tipo “nada acontece, mas que energia”. De fato, entendo porque colocaram o filme na seleção, mas tal escolha não poderia estar mais equivocada. Reforçando o que trago no começo, para alguém que o olha por uma perspectiva mercadológica ou até pseudo racionalizada, os atos desse filme são de fatos pequenos, ao invés de um vilão super poderoso e maligno temos um garoto que só quer provar sua dominância, ao invés de um romance shakespeariano temos poucos selinhos tímidos florescendo sentimentos no desabrochar de novas experiências e ao invés de uma grande batalha homérica e sangrenta temos um jovem que não quer deixar uma humilhação passar barato.


E é justamente por isso que é tão especial!



Em uma abordagem em que várias verdades ganham destaque, na verdade de cada um, essas coisas são tão grandes quanto poderiam ser. Richard Linklater entende tão bem o jovem que, caindo ou não no elemento nostálgico, não é difícil sentir o mesmo frio na barriga de uma provocação ou as borboletas no estômago de um amor jovial. Na visão crescida e sem sal isso pode não significar nada, mas dentro da realidade de um menino que acabou de sair do nono ano poder dar uma volta de carro com os garotos mais velhos é o maior triunfo possível. Você até pode dizer que no final o mundo permanece o mesmo, mas para eles a vida já é completamente diferente do que era algumas horas atrás e essa volatilidade polvilhou minha visão recheada de adultices e responsabilidades com um pouco de imaturidade e com o calor das preocupações e atitudes indecifráveis que só alguém entre 12 e 18 anos poderia ter.


No próprio making of o diretor fala um pouco sobre como, desde o começo da produção, sempre houve essa perspectiva despretensiosa. Enquanto os executivos do estúdio esperavam um pitching completo, cult e conceitual, ele não entregou mais que suas palavras entoando a visão simples que tinha sobre sua própria obra. Linklater não tinha um objetivo maior do que aterrissar o espectador em 28 de Maio de 1976 e deixar com que passasse aquele dia ao lado dos estudantes. Segundo ele "a história é o que acontece durante a tarde" e a falta de um grande arco dramático é o que dá espaço para que os menores se desenvolvam. "Os riscos são poucos, mas como é a sua vida, na verdade, eles são bem altos" e esse sentimento transborda nas personagens porque por mais que o clima garanta a vontade de vivenciar a adolescência do mesmo modo que eles, no final das contas ela é sempre um período complicado e esses dramas reais não são mascarados ou enevoados pela inconsequência.


"Se você é adolescente é sempre difícil, não importa quando ou onde, sempre é complicado".

Se por si só esse filme já é uma obra irretocável, sem sombra de dúvidas um dos meus favoritos dos anos 90, quando inserido dentro da futura produção do diretor ele se torna ainda maior. Mas mesmo com seu trabalho seguinte, Antes do Amanhecer (1995), explorando a mesma potência que um bocado de horas e uma boa conversa pode provocar e até mesmo Escola de Rock (2003) voltando para o âmago da discussão ao redor da eficiência escolar, o que ao meu ver mais forma um elo com Jovens, Loucos e Rebeldes, através tanto da forma quanto do conteúdo, é Boyhood: Da Infância à Juventude. Isso porque ainda que sejam diametralmente opostos, um contando a história de muitas personagens em pouco tempo e o outro narrando a jornada de poucas personagens ao longo de muito tempo, eles conseguem destrinchar os mesmos amadurecimentos enquanto lidam com suas abordagens de tempo.


Se em 1993 todas as personagens sempre estavam convivendo com uma projeção do futuro, em 2014 vemos onde essa precipitação desemboca. No primeiro há uma hiper valorização do que está por vir e do que eles estão se tornando, uma vivacidade de experimentar o que a vida tem para oferecer. Já no segundo, as expectativas do amanhã não são necessariamente frustradas, mas sim redefinidas. O assombroso término vira mais uma infame memória, os padrastos são uma breve dor de cabeça esquecida e, pasmem, até o cabelo cresce.


Boyhood tenta provar que, embora estejamos sempre na busca por pontos finais, a vida é uma eterna subsequência de vírgulas.



Como um estudante de audiovisual com matérias de produção em excesso esse filme é inacreditável para mim. São 12 anos filmando a verdade do momento, envelhecendo pessoas e roteirizando lado a lado com o maior provedor de histórias: o mundo. Um filme que não predispões seu final no começo e, da mesma forma que o outro joga o espectador em um dia de 1976, insere o público como um acompanhante nos desenrolares despretensiosos. Há uma lição muito grande sobre pesos e medidas, como o momento enaltece tanto pontos negativos quanto positivos e vai do êxtase à catarse.


Quanto terminamos o filme há uma sensação estranha de tempo passado, os casamentos de Olivia (Patricia Arquette) e a rebeldia de Mason Sr. (Ethan Hawke) ficaram tão distantes de nós quanto deles e todo o atrito relacional tem menos peso e é curado pela ação do tempo. Também há magia nesse cotidiano que, mesmo perdendo seu impacto em razão da ação irrefugável do relógio, ainda vale a lembrança.


Em meio a tudo isso, bem no final de sua rodagem, quando eu achei que já havia absorvido a "mensagem", fui surpreendido com algo que ainda não decifrei. Nesse jogo de momentos com relevância flutuante, Nicole, uma personagem que havia entrado na narrativa à menos de 5 minutos, soltou uma fala que alugou um espaço na minha cabeça por tempo indeterminado. "Sabe quando dizem para aproveitar o momento? Eu não sei, mas acho que é ao contrário, como se o momento nos aproveitasse". Poucas coisas de fato saem quando espremo meu cérebro na tentativa de realmente internalizar o que isso significa, quer dizer, mesmo com todo nosso egocentrismo humano ainda enxergamos os momentos como uma fase de videogame, fixa que inevitavelmente será alcançada.


E eu acompanhei o filme nessa ótica! Pensando na irrelevância do corte anterior quando sobreposto pelo atual. Todavia, todo segundo é um momento e, quando de fato estamos dispostos a provar que ele vale a pena, o transformamos em algo significante. Ele se desenvolve a partir de nós e aguardar a conjuntura perfeita para aproveita-lo pode demorar uma vida inteira e outras mais. Ele se aproveita de nós porque nós fazemos dele o que ele de fato é.


Talvez seja isso, somos precursores de momentos.


Aliás, Richard Linklater é um precursor de momentos. Com dois filmes que parecem não ter fim e que têm perambulado pela minha mente, chego a conclusão que ele não só roubou meu texto como também é uma espécie de Robin Hood de memórias. Dando nostalgia de algo que nunca vivemos e lembranças de um tempo em que não existíamos, seus recortes, sejam eles uma peça única ou um conglomerado, não só nos dão a sensação de termos vividos outras vidas, como também nos fazem querer viver a nossa.



Davi Alencar

Estudante de Rádio, TV & Internet, produtor de podcasts e aspirante a crítico de cinema vivendo em um fluxo constante de sonho. Editor-chefe, redator e designer na Singular e escrevo pontualmente para a Odisseia. Confira meu trabalho aqui!