Pulse (2001)

O incomunicável medo da morte no terror reflexivo de um mestre japonês



Pode parecer uma obviedade afirmar que a característica temática central que estrutura o gênero do horror é a maneira como uma obra lida com o medo. Sobretudo, com o medo da morte. Não à toa, este é o tema recorrente no gênero no cinema desde seu surgimento. Pulse, filme de Kiyoshi Kurosawa, articula este mote essencial do gênero enquanto mescla-o a um tema que se tornou querido a obras de vanguarda das artes narrativas: a incomunicabilidade. Neste texto, proponho analisar as duas faces que estruturam Pulse em forma e conteúdo: a incomunicabilidade como característica essencial da (pós)modernidade, que potencializa o medo diante da morte intrínseco à ontogênese humana.

Formalmente, para a construção da base sensorial do horror, Kiyoshi Kurosawa orienta a dialética de seu filme no uso da autoridade fotográfica da câmera, isto é, a capacidade que a imagem foto-cinematográfica tem de adquirir um peso de realidade visto a sua semelhança mimética com o nosso mundo, de modo que a textura imagética de seu filme por vezes soa como um found footage; entretanto, o formalismo que Kurosawa adota em sua mise-en-scène se opõe ao mesmo tempo que complementa dialeticamente a elaboração realista da imagem. Tanto na maneira como utiliza de composições geométricas bem delimitadas no quadro, como pelo uso da experimentação com a montagem, com o som e com os elementos que compõem o plano (interpretações e movimentos dos atores, enquadramentos, maneiras de preencher a imagem), Kurosawa estrutura a base da dramaticidade que gesta o horror em seu filme.



Contudo, a construção do medo aqui se faz sem alguns recursos bastante familiares ao gênero como o jumpscare ou o gore/body horror. Acontece que o diretor japonês delimita premissas formais que funcionariam perfeitamente com estes recursos, porém, ao invés de apelar a estes, uma das características plásticas mais interessantes de Pulse é como o horror surge a partir da estranheza da mise-en-scène e sobretudo de como os elementos no interior do quadro se relacionam com a montagem e com a realidade do espectador. Toda a estranheza física dos fantasmas em suas movimentações imprevisíveis, seu olhar vazio, sua frieza de expressão e a construção plástica do plano pela textura sombria e “amadora” da imagem, como se o filme viesse diretamente da deep web, encontra-se com o peso da autoridade fotográfica e com isso a narrativa se torna cada vez mais assustadora à medida que os espectros não soam como algo desconectado de nosso mundo.

Por fim, o último elemento que marca a construção do horror formalmente no filme é a maneira como Kurosawa lida com a paranóia, outro sentimento muito explorado por clássicos do gênero. Em meio às imagens dessaturadas que perduram em toda a narrativa, elementos vermelhos surgem no plano de maneira pontual mas que atraem inevitavelmente a atenção visual. Estes elementos sempre indicam um perigo iminente à sanidade e, consequentemente, à vida das personagens. Dessa forma, o vermelho surge como elemento que sempre gera uma apreensão paranóica que resulta em imensa ansiedade para o espectador, dada a impossibilidade de se evitar a tragédia iminente anunciada em tela. Igualmente, a paranóia é trabalhada por um elemento temático central no filme, que é a internet e a evolução dos meios de comunicação. A partir dela, que era até então pouco compreensível para a maioria das pessoas no início dos anos 2000, Kurosawa trabalha o medo do desconhecido - a partir de algo que é, hoje, muito familiar a nós - e a construção da ansiedade advinda de uma nova técnica ainda indecifrável para muitos.

Após este breve estudo das características que estruturam a construção do medo na narrativa, cabe observar como o tema que circunda essa obra de Kurosawa potencializa o terror para além de suas elaborações sensoriais. Pulse é um filme que lida até as últimas consequências com a incomunicabilidade e seus irmãos gêmeos - a solidão e o isolamento. O contexto de horror sobrenatural é mote para apresentar o ser humano inventor da internet - um meio de comunicação “criado para conectar as pessoas” - como um ser que é cada vez mais espectro na grande cidade; isolado, dos vivos ou dos mortos. Assim, a tecnologia da comunicação aparece como ferramenta que somente amplia ou escancara a incapacidade do ser de construir relações e diálogos bilaterais, sobretudo quanto ao sujeito pós-moderno.



Por isso, as personagens do filme raramente se encontram nas conversas e olhares, incapazes de ouvir o outro genuinamente; quase sempre estão perdidos em suas próprias divagações e monólogos ou silêncios existenciais. Cada personagem vive em seu próprio quadradinho, sua própria casa, seu próprio drama isolado no filme; de modo que o único encontro entre dois dramas diferentes ocorre ao final e é, na realidade, um desencontro, que resulta em mais um espectro, incomunicável, como a única companhia de uma mulher solitária. Kurosawa é capaz até mesmo de enquadrar duas personagens em plano conjunto (técnica que em qualquer manual de enquadramento é apontada como forma de demonstrar proximidade entre duas pessoas na tela) e mostrá-las como irremediavelmente incomunicáveis uma com a outra. Assim, o medo da morte aparece aqui como medo de vivenciar no findar da vida o que se experiencia nela própria: a solidão, o isolamento. As personagens sentem-se desoladas diante da morte e fogem dela da mesma forma que temos repulsa às imagens absolutamente incômodas e assustadoras dos espectros que surgem na tela.


Deste modo, ao final do filme, o isolamento em alto mar das poucas pessoas que aparentemente ainda restaram no mundo é a própria morte em vida, à medida que todos vão desaparecendo e se tornando espectros. Em Pulse, de Kiyoshi Kurosawa, a solidão consome a modernidade que almejava, pela técnica, a conexão ininterrupta; mas que encontra a incomunicabilidade na essência de sua maneira de coexistir inter-relacionalmente.


Nota do crítico:


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