Poeta (2022)

Omiryabev investiga os dilemas da arte e da literatura diante a contemporaneidade.



Mesmo tendo feito grandes filmes nos anos noventa, Darezhan Omirbayev é um nome pouco conhecido no Brasil. Alheio à indústria e produzindo os próprios filmes no Cazaquistão, é quase um marginal, revelando suas angústias contemporâneas e continuando investigando o que existe no vácuo cotidiano. Por isso, é praticamente uma honra termos sido agraciados com a exibição de seu mais recente filme, Poeta (Akyn), na 11ª edição do Olhar de Cinema. Não pude comparecer presencialmente ao festival, mas não deixei a oportunidade de cobrir alguns filmes disponibilizados on-line, e foi das mais gratas surpresas ver Poeta entre eles, já que, coincidentemente, conheci os filmes desse sublime cineasta poucos dias antes do festival.


De Omirbayev, vi seus primeiros quatro filmes (Шильде [Julho], Кайрат [Kaïrat], Kardiogramma, Киллер [Killer]), todos compartilhando da mesma sutileza em relação às sensibilidades do corpo (do toque) e da mente (da sensação), o que lhe rendeu honestíssimas comparações à Bresson. Poeta continua essas mesmas ponderações presentes no trabalho do cineasta sobre a forma fílmica, discutindo o existencialismo literário, artístico, ante o utilitarismo contemporâneo: Didar é um poeta que habita um mundo onde a literatura, dia após dia, vem deixando de fazer parte da vida humana. A poesia, a potência da palavra – que para Omirbayev precisa ser exposta antes de ser investigada formalmente: aparece primeiramente escrita no papel e depois é passada para a boca –, pouco a pouco é devorada pelas imposições do capitalismo tardio, do entretenimento momentâneo, da mediocridade consumista.


Didar passa por esses breves momentos que testam sua fé, mostrando como esse mundo pode colocá-lo de joelho: ele reencontra um amigo da faculdade, que largou o academicismo para se tornar dono de um restaurante dedicado à poesia. A maior provação, entretanto, é a mais importante a ser superada: Didar recebe a proposta de escrever uma biografia sobre a rica ascendência de um burguês. Paralelamente, ao longo do filme, as páginas do livro que Didar lê revelam as imagens da vida do poeta cazaque Makhambet Otemisul, que viveu há mais de dois séculos antes dele, morto ao recusar o convite de escrever sobre a vida do Sudão.


Outros dois momentos: logo que recebe seu primeiro pagamento, o poeta troca os sapatos velhos por sapatos novos, mas é resgatado pela estante de livros quando retorna para casa; e já perto do final, quando viaja até outra cidade para realizar uma palestra, mas ninguém comparece, a não ser uma única admiradora de seu trabalho, quem faz Didar recuperar sua crença. Mesmo assim, chega ao ápice do desespero, um pedido de ajuda antes que se afogue: perto do final, quando não consegue ser visto nem ouvido, tenta exibir sua própria entrevista nas muitas televisões em uma loja de eletrônicos.


Mais interessado em como filmar e não o que filmar, Omirbayev compreende o cinema como uma arte diferente das outras, bastante jovem e apta à novas experimentações. Talvez isso seja sua própria pretensão com Poeta, construindo delicadamente a melancolia contemporânea quando captura pequenos momentos nos vácuos cotidianos, seja na idosa zapeando os canais da televisão ou na neta jogando videogame, seja nos restos mortais de Makhambet Otemisul deixados em uma caixa no fundo de uma garagem (“Aqui você pode guardar seu Makhambet já que ninguém mais precisa dele”), ou quando permite que a própria palavra se esconda detrás das coisas para revelar o que precisa ser dito. Omirbayev desenha ponderadamente seus planos, ostenta os limites do realismo tal qual Kiarostami: no final, nos deparamos com o filme quase se tornando um registro do destino dos restos mortais de Makhambet, que foram exumados para a criação de um busto e enterrado novamente. Mas, quem visita seu túmulo?


E se Omirbayev discute a literatura como anomalia contemporânea, e se me permitem tomar o espaço para uma reflexão pessoal, talvez a crítica de cinema cada vez mais caia no mesmo limbo e venha sendo sufocado pelos gatekeepers culturais, que designa ou não o que é bom ou ruim, rejeitando investigarem o filme profundamente. Devemos mutilar nossos textos para que se encaixem nas mídias digitais? Se adequar e fazer coro àquilo que a “indústria cultural” encomenda? Como Didar, os bons críticos de cinema, do passado e do presente, quem luta contra essa maré, sobrevive contente mesmo com uma única pessoa na plateia.


 

Texto escrito para a Cobertura da Cine-Stylo do 11º Olhar de Cinema. Acesse o site do Olhar de Cinema para conferir toda programação online do festiva.


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