Peggy Sue - Seu Passado a Espera (1986) | O encantamento atemporal de Francis Ford Coppola

O passado como refúgio de um presente desencontrado é filmado com encanto consciente na obra-prima oitentista de Coppola. A verdade é que Peggy Sue é um anacronismo ambulante, assim como todos nós.



O encantamento com o passado é algo natural. A distância temporal permite a criação de um lugar de conforto, onde todo e qualquer estorvo permanece distante, numa penumbra efêmera, beirando o esquecimento, mas que acaba voltando quando o retorno a esse passado não se mostra mais alcançável. É interessante como essa onda de saudosismo histórico reflete intensamente na produção cinematográfica do período em que é produzida. Quando pensamos no cinema dos anos 80, por exemplo, muitas produções com lugar registrado no panteão de clássicos remetem justamente à um certo encantamento com algo anterior e distante, como é o caso das populares trilogias Indiana Jones e De Volta Para o Futuro, além do próprio Peggy Sue de 1986, foco deste texto.


Em todas as eras da história do cinema esse retorno ao passado é presente; uma das características mais espetaculares da sétima arte está justamente em concretizar nas telas, o que se mostra impossível à realidade. Porém, o que se observa na produção da década de 80 é um encantamento muito ligado à ideia de inocência, ou propriamente um rompimento com essa idealização, o que reflete todo um contexto político e social intrínseco ao período. Em filmes que tratam desse retorno ao passado de forma literal (materializado no conceito de viagem no tempo), o presente se mostra um fator corruptível quando em contato com a inocência de um período que não volta mais.


Em De Volta Para o Futuro de 1985, por exemplo, o personagem Marty McFly viaja para a época em que seus pais se conheceram: os anos 50. A preocupação central da trama está na tentativa de preservação desse passado como ele o conhece, com o motor da narrativa sendo a dificuldade em tornar irretocável os acontecimentos anteriores à ele, como o fato de seus pais se conhecerem, evento responsável pela própria existência do personagem. No longa de Robert Zemeckis, esse fator corruptivo que o presente mostra atende a conceitos científicos na criação de universo que o longa estabelece. O contato entre o futuro e o passado é paradoxal, então o filme cria para si uma relação de causa e efeito, onde toda alteração do passado corresponde à uma modificação (na maioria das vezes brutal) do futuro. Embora tenha seu conceito muito ligado à inflexão dessa estrutura temporal, é interessante observar como o longa trata esse conflito geracional e a idealização de um passado supostamente ausente da malícia encontrada no presente, característica comum aos longas desse tipo realizado no período, e um certo tipo de refúgio à aceleração da modernidade.


A popularização de muitas das produções dos anos 80 até os dias atuais se relaciona diretamente com uma maior presença tecnológica na casa das pessoas durante esse período. O auge de equipamentos como os videocassetes, walkman e muitos outros aparelhos revolucionaram a relação do ser humano com a arte, transformando o modo como consumimos e processamos todos os estímulos advindos dessas produções. E mesmo com toda a informação parecendo cada vez mais próxima dos indivíduos, é nesse contexto que muitos dos longas de encantamento com o passado se situam. É como se num cenário de suposta progressão imposta pelo capitalismo, onde se observa uma grande evolução tecnológica e mudanças nos padrões de vida, com uma maior relevância para produtos e uma vida espelhada na televisão, tudo que os personagens desejam é voltar para um período onde tudo isso parecesse distante, e a vida consequentemente mais simples. É abandonar a evolução material para abraçar uma evolução pessoal, e que só se mostra possível num retorno ao passado, como é o caso de Peggy Sue.



O longa de Francis Ford Coppola, embora se situe dentre a leva de filmes dos anos 80 com essa temática de retorno ao passado, apresenta uma abordagem muito singular e especial da proposta. Peggy Sue é uma mulher de meia-idade, infeliz e em processo de divórcio com o homem que namora desde o colegial. Em um reencontro de sua turma do ensino médio, Peggy acaba desmaiando e retorna 25 anos no passado, na primavera de 1960, onde pela primeira vez na vida, parece ter a oportunidade de corrigir os erros que a perseguem desde então. Coppola filma esse passado com um encantamento consciente, não entregue por completo à fantasia, o que condiz muito com o conceito de uma personagem que retorna ao seu corpo na juventude, mas sem abandonar a maturidade que agora carrega com ela. É um filme que sabe lidar muito bem com essa dosagem ambígua de melancolia e encanto para com a vida, é como se Coppola exprimisse na condução imagética desse universo, todo o conflito que acontece no âmago da personagem: o geracional e de desencontro quanto a sua própria posição no mundo.


Diferente de outros longas de viagem no tempo, aqui há pouco interesse em esclarecimentos detalhistas sobre como a personagem chegou até lá. É como um refúgio natural, que se apresenta para a personagem em seu momento de maior necessidade. Não há máquinas do tempo, explicações racionais, nem mesmo uma relação de causa e consequência, Peggy quando retorna ao passado deseja fazer tudo que sempre quis, e assim o faz. É dos filmes que melhor externaliza essa liberdade existente na ausência das angústias do hoje, embora isso não prive a personagem das aflições de viver como um “anacronismo ambulante”, como é citado por Peggy em um momento do filme. Esse foco narrativo intensamente ligado ao humano, permite que Coppola deixe as amarras tradicionais da ficção científica de lado para abraçar um longa fantasioso na abordagem de suas situações, ao mesmo tempo que direto em suas relações, como no fato do marido de Peggy ter abandonado a carreira de músico quando jovem para herdar do pai uma loja de equipamentos eletrônicos - evidenciando a ligação entre a opressão de um capitalismo exacerbado na formação de um passado idealizado.


Peggy retorna ao início de 1960 - o que independente do fator viagem no tempo, já seria um intenso cenário de contraste geracional. Esse embate da inocência dos anos 50 com a rebeldia que tomava o interior dos Estados Unidos no apogeu da nova década, é filmado com maestria por Coppola; sem se deixar cair em estereótipos, os personagens apresentam uma tridimensionalidade fruto da complexa revolução cultural que emergia, e ambos os períodos são vistos pela lente de Coppola com um distanciamento temporal (já que o filme se passa décadas depois) saudável para a construção da narrativa, e que permite observar as nuances desse sincronismo com uma atenção e genialidade ímpar. É interessante como Coppola expõe essa dualidade na composição de sua imagem, o que faz parte do encantamento autoconsciente citado anteriormente, uma dicotomia exposta no dilema de viver uma vida regrada ou rebelde, mas que o filme desconstrói traçando ambas as vertentes sobre uma mesma linha de chegada.



Nos ambientes familiares - como quando Peggy vê os avós pela primeira vez após retornar ao passado, por exemplo -, há uma inocência e leveza que é transparecida na criação de um ambiente de conforto, enriquecida pela fenomenal trilha de John Barry. A ligação do cinema de Francis com a família é exaltada em Peggy Sue, um longa que ao mesmo tempo que questiona os papéis familiares e os conflitos de geração, nunca abre mão da importância da família na formação do indivíduo, pelo contrário, parece dar todas as voltas justamente para valorizar o papel dessa instituição. Como se tornando Peggy livre para retornar a esse passado, pudesse tornar mais forte os laços que sustentam a família da protagonista, ressaltando a importância dos filhos e do próprio casamento que está quase no fim.


Talvez o fator marcante que ressalte essa aura familiar do longa seja a própria ideia de vida como ciclo que o longa estabelece - composta na trama pelo fato do futuro ser imutável, não apresentando alteração no final independente do que a protagonista faça, mas também idealizado na imagem de Coppola, como numa cena em que, no passado, Peggy ganha um colar que em seu interior possui fotos suas e de seu então namorado quando bebês, e que no tempo presente são foto de seu casal de filhos, com diferença quase imperceptível da foto dos pais na mesma idade. É um ciclo imposto pela vida, do futuro repetir o passado, e do passado repetir o futuro, e que Peggy abraça como parte intrínseca de si.


O conflito geracional existente nesse retorno ao passado é ressaltado na posição de desencontro que Peggy Sue exerce naquele mundo que não mais lhe pertence. Uma personagem que cansada do agora, se refugia no passado, e mesmo assim não deixa de se sentir perdida. É curioso como toda essa passagem pelo passado serve para evidenciar o lugar de permanência da personagem no presente. Esse desencontro todo sempre foi mais sobre como Peggy observava o mundo ao seu redor, do que sobre a ausência de algo que nunca precisou estar lá. E bastou um olhar sobre um período perdido no tempo, cujo retorno parecia improvável, que Peggy voltou a entender que nunca foi sobre corrigir os erros do passado, mas sim sobre usar eles para alcançar os acertos do futuro. Uma personagem extraordinária na sua cotidianidade, e ciente de seu próprio lugar, justamente quando parece mais estar perdida do todo. Um anacronismo ambulante, bem como todos nós.


Francis Ford Coppola torna o passado de Peggy Sue repleto de um encanto tão íntimo, como se essa (re)descoberta fosse de uma memória ao qual nós fizéssemos parte, e seu retorno tão natural e necessário quanto para a protagonista. Mesmo com todo o encantamento de Coppola na composição desse passado - da escola, ao ambiente familiar e as primeiras relações vividas pela personagem -, nunca é convidativo ao ponto de sua permanência ser mais prazerosa do que a sensação de voltar ao tempo que verdadeiramente lhe pertence. O autor F. Scott Fitzgerald escreveu a frase: “não desejo repetir minha inocência, desejo o prazer de perdê-la novamente”, e ela de certa forma sintetiza a vida de Peggy Sue; só há prazer em retornar, porque outrora houve dor ao partir, como só se encontra quem um dia já esteve perdido. Assim, o filme se encerra sem decisões pré-definidas, sem um final feliz limitador em sua conclusividade, mas sim com uma porta aberta, e a consciência de que passado, presente, e futuro, não são nada além de uma linha transeunte, mais tênue e próxima do que aparenta ser.


Nota do crítico:


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