Parker Posey e a efervescência cultural do cinema independente dos anos 90

Tendo trabalhado com diretores como Greg Mottola e Noah Baumbach em início de carreira, a atriz conquistou espaço como ícone da cultura nova-iorquina em um período de destaque no cenário independente.



Nos anos 90, ninguém representou tão bem, ao mesmo tempo, um estado de espírito e a atmosfera de uma cidade, quanto Parker Posey. Sob seu olhar e as suas atuações, a Nova York daquela época era um desfile de tendências fashions e um cenário propício para todo o tipo de interação e divagação, sobre todos os assuntos imagináveis, incluindo muita filosofia de boteco. Tendo trabalhado com diretores (como Greg Mottola e Whit Stillman) que se notabilizaram, durante a década, por retratar os boêmios e os outsiders, da vida cotidiana, que trabalhavam durante o dia e bebiam e festejavam à noite, ela nunca deixou de ser a rainha das produções independentes, e até hoje parece não querer se adequar ao mainstream. Está satisfeita com a reputação que construiu. Eu costumo dizer que ela deixou de ser meramente uma atriz para se tornar, como suas personagens, um símbolo de um período cultural efervescente.


Em “Party Girl”, um filme pouco conhecido da sua filmografia, em que ela pôde ser protagonista porque o enredo era justamente centrado em seu rótulo de outsider, a vibração da cultura clubber/underground que o filme tanto procura emanar, o consequente descontentamento com a certeza de que a vida na metrópole vai te engolir e a desconstrução do fato de ter quase 30 anos e não saber o que fazer da vida (o uso da metáfora do Mito de Sisífo SEMPRE funciona nesse contexto) contagia de longe, e até inspira. Enquanto eu via o filme, até fiquei com vontade de arrumar um emprego remunerado temporário que envolva atividades comerciais presenciais só para viver a eterna troca do dia-a-dia.


O filme ainda conta com cenas com dancinhas aleatórias que me conquistam imediatamente (corredores vazios de largas bibliotecas são propícios para isso). Também tem momentos (que poderiam muito bem descrever um dia normal da minha vida) em que a protagonista vira a noite empolgada praticando alguma atividade nova e, na manhã seguinte, enquanto todos estão dormindo ou acordando, mas ainda em estado de sono, quer compartilhar de prontidão o que aconteceu. Quantas e quantas vezes já não agi assim... Mal dá para contar nos dedos.


Não ganha uma nota maior pelo retrato um tanto quanto infeliz e estereotipado do imigrante e pelo péssimo uso do Liev Schreiber, que é especialista em retratar caras babacas, mas, aqui, todo o conceito da sua atuação é um erro (cena de assédio aleatória, sotaque britânico ridículo). O que o filme tem de progressista na maioria dos aspectos, não tem nesses.


Acaba proporcionando ao público uma grande vontade de alugar um salão e dar uma baita festa com uma trilha sonora que faria todo mundo dançar por toda a madrugada! Ideias para um futuro aniversário à vista.


Essa energia pode ser vista em outros filmes com ela do período, inclusive no cinema Mainstream. Além dos filmes independentes, Posey também emprestou seu talento a grandes franquias, participando de capítulos específicos de Pânico e Blade e filmes maiores de estúdio, como o subestimado Josie e as Gatinhas, geralmente fazendo um tipo específico de personagem: aquela que fala demais e acaba pagando por isso no fim, ou alguém com obsessão pelo poder, que dá muitas ordens, em um tom meio cômico, que diverte o público. A verdade é que Posey é uma das atrizes mais autênticas de uma indústria cinematográfica americana cada vez mais previsível.



 

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