Paloma (2022) | A força para conquistar seu lugar no mundo

Inspirado em uma história real, o longa de Marcelo Gomes explora os papéis femininos mais tradicionais, deixando claro os caminhos tortuosos que unem e separam mulheres cis e trans



Paloma já mostra nos primeiros minutos a que veio, não há aqui questões de descobrimento. A protagonista belamente interpretada por Kika Sena já sabe quem é e vive feliz e tranquilamente sua vida de mãe, trabalhadora e dona de casa no sertão nordestino. A relação com Zé se mostra apaixonada, as amigas e colegas de trabalho são boas companheiras de Paloma e há uma rede de apoio para essa mulher que precisa conciliar o trabalho duro na plantação com a criação da filha, seu sonho de ser cabeleireira e sua vida amorosa. A pequena sociedade conservadora que a cerca parece se incomodar pouco com seu desempenho dos tradicionais papéis femininos. Até que ela ousa sonhar mais.


Apesar dos constantes lembretes de preconceitos diários e alguns momentos de tensão, o filme segue um caminho leve até certo ponto, quando o mundo que cerca Paloma parece dizer que ela quis demais e a intolerância e o preconceito se agravam. O fato de se casar na igreja com Zé é visto pelos outros como se Paloma tivesse cruzado algum limite imaginário e a convivência antes até pacífica com seu meio se torna dura e agressiva, assim como o longa se torna menos alegre, ainda que mantenha o tom otimista. O casamento, essa que é uma das maiores convenções do mundo feminino, é como a representação de uma conquista para ela que já desempenha tantos papéis tradicionais. Esse sonho que é também até hoje um dos maiores desejos de muitas mulheres se mostra uma ofensa para uma sociedade que até aguenta algumas diferenças, mas está a postos para tirar a paz de qualquer um que ouse incomodar seus padrões arcaicos.


O padre, que a recebe bem, logo muda o semblante quando recusa casar uma mulher trans na igreja, as colegas que a tratam bem dão risada quando descobrem seu sonho e o próprio namorado não quer se casar com ela. Mas tudo isso não importa tanto, já que Paloma querer se casar não é pelo amor ou para provar algo para os outros, e sim para superar esse espaço por si mesma e para si mesma, para que tenha o mesmo direito de qualquer mulher cis de usar um vestido branco, um véu e se unir a alguém com a benção de Deus. Ainda que as crenças de Paloma sejam relevantes também, esse desejo está muito mais ligado a esse imaginário feminino, de uma sociedade patriarcal que coloca desde cedo nas cabeças o pensamento de que esse é um destino obrigatório enquanto mulher. Essa ideia é explorada inclusive nas brincadeiras entre ela e a filha, com a boneca se casando, uma atividade que é parte do desenvolvimento de qualquer menina e que Paloma provavelmente não teve a chance de encarar da mesma forma na infância. Portanto, o casamento se torna seu foco, uma barreira que ela quer ultrapassar.


O filme não retrata Paloma como alguém que sofre, ainda que viva dificuldades por tudo que é e representa - e não só por ser uma mulher trans - ela encara suas adversidades com muita leveza, ou talvez com a força que criou ao longo de toda sua vida. O cineasta pernambucano traz aqui um olhar diferente de outras obras do mesmo tema, tanto pelo momento de vida da protagonista quanto pela forma de contar sua história. Ainda que exista uma mudança forte no tom do longa após o assassinato de sua amiga, não há uma exploração dessas violências - nem visualmente - a intenção de Marcelo Gomes parece ser de mostrar essa mulher como alguém forte que conquista seu lugar, seja ele qual for e qual ela quiser, e não como uma vítima de diversos preconceitos e impedimentos. Mesmo quando seu casamento se torna conhecimento público e todos se revoltam contra ela, inclusive o próprio marido que não banca estar a seu lado, Paloma se levanta, não deixa que a diminuam. A briga com Zé não parece ser um grito apenas com o marido, mas também com todos que querem lhe impor limites. Afinal, doa a quem doer, ela conquistou seu espaço, realizou seu sonho para si mesma e é hora de seguir seu caminho e conquistar novos lugares, novos sonhos.


Ainda que em muitos momentos o filme mostre como todas as mulheres vivem caminhos parecidos numa sociedade patriarcal, também deixa claro os lugares onde as mulheres trans vivem jornadas muito diferentes e mais tortuosas. Por seu papel em Paloma, Kika Sena se tornou a primeira atriz trans a vencer o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio, mostrando que ainda há muitos espaços para serem conquistados e, por sorte, muitas mulheres fortes como Paloma e Kika para os desbravarem.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria

Paloma estreia nos cinemas brasileiros dia 10 de novembro.


Nota da crítica:


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