Os Irmãos de Leila (2022) | O núcleo familiar como espelho da sociedade

Com uma família e um país em crise, Saeed Roustaee constrói um filme intenso sobre o embate entre a tradição e a vontade de pensar livremente



Bem escreveu Tolstói: “cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, ainda que dramas familiares possam ser fáceis de se identificar, mesmo que os gritos sejam em idiomas desconhecidos, Os Irmãos de Leila traz a infelicidade dessa família iraniana de uma forma muito particular, a entrelaçando com a crise de seu país e em um conflito de gerações. O cenário familiar é muito maior - e retrata exatamente a sociedade patriarcal no qual está inserido - mas, o filme se concentra principalmente nos 4 irmãos homens, Leila e seus pais. A crise inicial da escolha do novo patriarca se desenrola em muitas outras questões, expondo muito mais que simples brigas entre parentes. Afinal, o que são as famílias senão pequenos países, com suas hierarquias, políticas, economias e, é claro, crises.


As cenas de discussões entre irmãos e pais carregam a narrativa e prendem a atenção, são momentos com textos intensos que nos mergulham completamente na história, fazendo com que as quase 3 horas de filme passem rapidamente. Há um embate aqui entre tradição e liberdade, honra e ambição, criado pela relação dos filhos com o pai. Cada irmão tem suas particularidades e seus problemas, mas o longa dá mais espaço para Leila e Alireza, que parecem ser os mais maduros e preparados para resolver as adversidades da família. Leila, única filha mulher, é também a única que ousa pensar por si mesma e praticamente gerencia a família, coordenando com os irmãos homens as estratégias para tirar todos do buraco. O enfrentamento de Leila com o pai é uma das cenas mais poderosas do filme, é o momento em que a tradição arcaica que só leva ao fracasso toma um tapa na cara de uma mulher de outra geração que quer viver do seu jeito.


Desde o começo, a situação financeira da casa já não era boa, bem como suas relações. O pai se preocupa muito mais com sua honra e sua imagem para os outros parentes do que com a felicidade dos filhos, sabotando constantemente qualquer oportunidade de evolução em suas vidas. A infelicidade que ronda a casa vem do controle do pai, um velho que carrega tradições muito antigas e é totalmente preso às convenções que tanto prejudicam os que estão mais próximos. Então, a maneira de ser infeliz desses familiares é, geralmente, tentando agradar o patriarca que quer tudo do seu jeito, e nesse embate entre pais e filhos chega o ponto em que a tradição é passada para trás, mas não deixa barato. Ainda assim, a união entre os irmãos parece ser o único respiro no meio do caos, mesmo que briguem, que as coisas se compliquem e tudo pareça perdido, Leila e seus irmãos sempre acabam se unindo para resolver as coisas e encontrar algum conforto.


A cada tentativa de melhorar de vida, os cinco irmãos parecem se afundar mais um pouco, ou melhor, são afundados. É como observar alguém nadar contra a maré, os personagens ainda que caminhem, estão sempre sendo jogados para baixo, mas continuam brigando para levantar. Enquanto a crise do país se torna mais evidente, e parte dessa família, o dinheiro vale cada vez menos e as brigas se tornam mais intensas, é um declínio da economia e das relações familiares ao mesmo tempo.


Com planos fechados e cenas longas de diálogos fortes, Saeed Roustaee cria uma fácil conexão com seus personagens, o que torna ainda mais angustiante a queda catastrófica dessa família. Para intensificar essa ansiedade, o diretor conta com espaços pequenos e cheios de pessoas, quartos apertados para todos, muitos filhos, amontoados de pessoas sufocadas em planos e cenários.


As derrotas aumentam ao longo do filme de forma desesperadora, num clima de ansiedade que não se limita às paredes da casa, mas que também faz parte de um contexto político. O dinheiro de ontem já não vale mais nada, os números aumentam enquanto o dólar sobe, quem tinha pouco agora tem menos e quem tinha muito agora tem mais. Os contrastes se dão dentro da própria família que faz chuva de dinheiro numa festa ostensiva enquanto Leila e seus irmãos mal tem dinheiro para as contas, mas também do lado de fora, nas mulheres bem vestidas em um carro importado que passam ao lado dos irmãos tentando fazer as contas de quanto mais precisam para saírem da lama.


Ainda que tenha muitos temas importantes para tratar, o diretor iraniano não se perde e entrelaça tudo muito bem no drama central, criando um incômodo crescente em seu filme que acaba deixando muita coisa para ser digerida. Uma obra intensa, que toca em crises muito atuais do nosso mundo, Os Irmãos de Leila é um dos melhores filmes de 2022 e dificilmente será esquecido.


Nota da crítica:


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