O Som do Silêncio

Com uma abordagem narrativa fortemente apoiada na técnica o filme elabora uma trama sobre como a familiaridade à zona de conforto pode ser auto destrutiva.

Muitos consideram o cinema a união de três coisas: imagem, som e como o espectador os percebe. Dessa máxima podemos extrair que, por mais que o teor técnico envolvendo os dois primeiros tente sempre se firmar como essência, o que dita o rumo do filme é como ambos são flexionados a favor da narrativa. O Som do Silêncio, novo filme do estreante em ficção Darius Marder, chega com uma trama despretensiosa que sabe usar um leque de recursos sonoros com primazia para trabalhar seus temas.


Antes de exaltar a principal coluna do filme, vale dizer que, como poucos, ele sabe refletir sobre o comportamento humano de uma forma sorrateira e triunfante. Enquanto a relação com a perda é feita de uma maneira abrupta e repentina, a relação com o vício é levemente desenhada. Assim, o que em um primeiro momento é visto como algo “quebrado” lentamente muda para algo que simplesmente não é aceito. A surdez muda de status, saindo de algo que precisa ser reparado para algo que deve ser aceito.

Dá para dizer que ele provoca o caráter auto destrutivo do instinto primitivo de sobrevivência que, em um desespero para retornar à zona de conforto, se deteriora ainda mais e menospreza não só o período de aceitação como todos aqueles que passaram por ele. Uma ode de como o comodismo vicia o ser humano a um estilo de vida que, diferentemente da maioria de obras que abraçam esse tipo de temática, consegue ser crível, sensível e empática.


Ele mostra que estamos tão acostumados com as possibilidades provenientes dos sentidos que mal podemos imaginar uma vida sem eles. Sendo assim, preferimos ouvir uma distorção do mundo através do metal ao invés de embarcar em uma nova realidade.


Retratando o vício de uma forma bem particular, é no momento em que tudo parece ter se assentado que a verdadeira tempestade acontece. Quando Ruben (Riz Ahmed) se firma como membro de uma nova comunidade, com sua vida ressignificada, ele recaí. Tal qual um dependente químico, o seu corpo anseia pela audição. Ele repete os comportamentos desesperados de alguém que simplesmente não aguenta ficar sem o prazer que uma experiência pode proporcionar. No final ele só recebe os frangalhos da sensação de outrora e, mais uma vez, tem de recorrer a Lou (Olivia Cooke), seu porto seguro, para aceitar sua nova condição.


O filme sabe sustentar muito bem essa temática com seu uso da linguagem. Desde o corte seco com elipses longas que representam a mudança repentina na vida do protagonista e o silêncio categórico que se mescla com os ruídos abafados e a ambientação sonora primorosa até a câmera que, com movimentos e ângulos inconstantes, sempre acha um espaço para retratar a parte externa de um ser em eterno conflito e desgaste.

Não há a necessidade de agonizar ou incomodar o espectador, por conta disso ele dosa muito bem os momentos em que o insere na surdez de Ruben. Uma percepção sensível que confere a dose de empatia certa para que se possa compadecer dos seus dramas, mas não necessariamente experienciar o desconforto de sua situação.


Por mais bruta que seja a comparação, não é difícil traçar um paralelo entre o ambiente sonoro nos momentos de contemplação de O Som do Silêncio e a obra de Hayao Miyazaki. Um som que, acima de tudo, está focado em criar textura para o mundo que o emite. Um som que, enquanto nos filmes do diretor japonês tenta criar um lugar rico para as personagens habitarem, no drama de Marder, explicita a evolução de seu protagonista através da deformação dos detalhes sonoros ao longo da narrativa. Ele sai de uma posição em que não percebe essa textura, passa a valorizá-la e, cruelmente, aprende a viver sem ela. No fim, o silêncio já não é mais incômodo e os sons continuam existindo, independentemente se alguém vai ouvi-los ou não.


A interpretação de Riz Ahmed é surpreendente. Por mais que o ator já tivesse tido alguma relevância com Rogue One (Gareth Edwards, 2016) e O Abutre (Dan Gilroy, 2014), um papel principal com tamanha profundidade pode ser de grande importância para a sua promissora carreira. Ele consegue seguir o que o filme propõe, um otimismo estranho e sem floreios que afaga com a mesma mão que apedreja.

O roteiro, muito alinhado com a direção, soa real de uma maneira tão estranha quanto esse otimismo. Em uma cena logo no começo, o corte que separa os conselhos de um especialista para que o baterista se afaste de qualquer barulho e a sua apresentação com música estridente é um belo exemplo disso. Usando um corte preciso e uma sobreposição entre palavras e atitudes, ele já consegue traçar a maneira que ignoramos a realidade em prol daquilo que queremos priorizar. Mais uma vez, um uso primoroso da linguagem em prol da narrativa.


Essa mesma característica aparece em um outro filme muito aclamado deste ano. Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Eliza Hittman, 2020) traz um choque tão forte quanto e, mesmo sendo menos positivo, não deixa de revelar que sempre há uma luz no fim do túnel, ainda que ela mostre um mundo diferente de sua outra extremidade. Esse amadurecimento forçado, que não faz perguntas e nem se preocupa em ensinar uma lição da maneira mais pedagógica e lúdica, se aproveita do ruído para achar um espaço para ser reconfortante. No final, o filme soa muito menos como uma lição e muito mais como um recorte de uma vida em constante metamorfose.


O Som do Silêncio é uma amálgama entre uma jornada enervante e um aprendizado revigorante. Uma obra que se flexiona entre seus temas, sabe extrair o máximo de seus recursos e consegue se resolver muito bem sem pecar na originalidade. Em suma, o equilíbrio entre todos os fatores que geram um bom produto.


Nota do crítico:


O Som do Silêncio já esta disponível no catálogo do Amazon Prime Video.