O slasher reinventado em Premonição

Para os cineastas que trabalharam com o cinema de horror, deve ter sido no mínimo interessante brincar com o gênero no início do milênio, principalmente quando voltamos o olhar para o subgênero do slasher. Fundamentado no final da década de 70 por John Carpenter com seu emblemático Halloween, o estilo foi sendo desgastado com o tempo até que Wes Craven o revitalizou com seu trabalho em Pânico, que usou de uma metalinguagem bem empregada para homenagear o slasher sem deixar, para trás, a fórmula básica: um grupo de jovens lidando com um implacável, porém vencível, assassino.



Quatro anos depois do primeiro Pânico — e com esta franquia em específico chegando ao final de uma trilogia —, James Wong ganhava as telas de cinema com um novo terror, Premonição (Final Destination). A premissa era simples, mas intrigante: um grupo de jovens está para viajar quando um deles tem uma visão de que o avião em que estavam ia explodir. Após saírem do avião e evitarem o acidente, o grupo passa a ser perseguido, um a um, pela própria morte.


Antes de fazer sua estreia como diretor em Premonição, James Wong atuava como produtor-executivo da aclamada Arquivo X. Foi para a série que Jeffrey Reddick escreveu o episódio “Vôo 180”, enquanto ainda tentava se estabelecer como roteirista. O texto não foi aprovado, mas Wong convenceu Reddick a reescrevê-lo em formato de filme, e assim surgia a franquia de sucesso que gerou quatro continuações e uma legião de fãs para os quais Premonição tem espaço reservado quando se fala do cinema de horror dos anos 2000. E é algo compreensível, pois apesar do roteiro simples, a premissa cativante só não é melhor que as mortes elaboradas e visivelmente divertidas. Para quem gosta, é claro.


Apostar na simplicidade talvez tenha sido um dos maiores acertos dentro da franquia. Enquanto a ideia de um grupo de jovens tentando manter-se vivos não é nada nova — não à toa o slasher está se reinventando, não se inventando aqui —, a ideia de usar uma premonição como catalisador da narrativa traz certo frescor ao subgênero. Mas o que realmente faz com que Premonição possa tirar o máximo da premissa é a ideia de trazer a morte como inimigo final. Não há Jason, Freddy Krueger ou Ghostface que os jovens tentem enfrentar, já que a morte é invisível, traiçoeira e, pelo que parece aqui, muito mais inteligente do que se pode pensar. E isso permite não apenas que as cenas de morte sejam divertidas como também faz com que a franquia reinvente o modus operandi de seu “vilão” com maior facilidade.



Com um inimigo assim, o slasher de Premonição ganha contornos que o diferenciam dos demais sem que seja necessário recorrer a uma ferramenta tão “rebuscada” quanto a metalinguagem de Pânico. Além disso, sem um vilão com seus traumas ou motivações, fica a cabo do espectador buscar entender os artifícios, mas também os motivos da morte. Afinal, as premonições soam quase aleatórias — porque aquelas pessoas, naqueles momentos ou eventos específicos? —, mas uma coisa fica clara desde sempre: a morte não gosta de ser enganada, e tampouco pode ser evitada. Sinceramente, mais parece que o ceifador, em sua função eterna, ficou um pouco entediado e resolveu tornar as coisas mais interessantes. O que até explicaria as mudanças de abordagem conforme as continuações começam a se acumular.


Ao mesmo tempo, Premonição embala suas ideias em moldes devidamente familiares ao espectador comum ao terror. Como legado do slasher, Wong e Reddick trazem os arquétipos base de todo filme do gênero, como a final girl ou o alívio cômico, e também — óbvio — aqueles personagens que são tão odiosos que o espectador não apenas espera, como deseja a morte deles — pois sim, somos sádicos a este ponto. Nomes como Ali Larter e Seann William Scott fizeram parte da primeira “geração” de sobreviventes, enquanto Mary Elizabeth Winstead, uma das queridinhas do público, esteve em uma das continuações — o terceiro, meu favorito da franquia. Já o icônico Tony Todd se faz presente de forma emblemática, sendo responsável por explicar aos jovens as regras do jogo. Igualmente cativante e sombrio, o personagem é um dos ícones da obra, sendo comumente associado como sendo a própria morte. Mistério que, felizmente, nunca foi respondido de fato.



São componentes de uma franquia que acaba deixando sua marca mesmo que seus problemas sejam gritantes. E estes problemas vão desde os personagens rasos — alguém realmente se importa com eles? — até o fato das continuações serem quase um ctrl+c, ctrl+v do primeiro filme. Entretanto, nada disso realmente importa, já que mesmo com um algoz invisível, Premonição entrega uma série de momentos marcantes. Sejam nos acidentes iniciais — em uma montanha-russa, ou uma rodovia — ou nas mortes individuais, como a sequência do bronzeamento artificial, a franquia acerta no quesito gore, com cenas que deixariam Michael Myers vidrado na tela. Além disso, são sequências totalmente convidativas, provocando o espectador a tentar prever a armadilha orquestrada que ocorre tal qual um efeito-dominó brilhante e cruel.


Isso, por si só, é uma desconstrução de toda a ideia do assassino do slasher, aquele que sai atrás dos jovens com alguma arma em mãos pronto para finalizar o serviço da forma mais direta possível. A morte de Premonição não precisa se preocupar em chegar até suas vítimas, apenas traçar o destino mais elaborado possível, algo que aproxima a franquia de outra dos anos 2000 — que também é, costumeiramente, associada ao gênero —, Jogos Mortais. As duas trazem sequências complexas, mas enquanto os jogos de Jigsaw são explicados e propostos para serem vencidos, as armadilhas cotidianas aqui são muito mais imprevisíveis. E por isso, mais divertidas. Além disso, existe uma inevitabilidade envolvida, pois vencendo ou não a próxima tentativa, é impossível escapar da morte à longo prazo, dando um charme extra à obra. E até novas possibilidades que nunca foram abraçadas pelos realizadores.


Mas talvez a maior das reinvenções propostas dentro de Premonição, entretanto, seja o medo. Pela natureza das narrativas dos slashers, poucos tem potencial para traumatizar o espectador, mas enquanto o público nunca ficará verdadeiramente preocupado em encontrar com algum rosto marcante do cinema de terror — Jason, Michael Myers, Krueger, Chucky, etc —, Premonição certamente o fará olhar torto para cada objeto, pessoa ou situação do dia-a-dia. Afinal, você pode nunca ter encontrado um mascarado com um facão na rua, mas com certeza já passou por uma ponte, ou foi em uma montanha-russa. Ou fez a barba, cozinhou, fez uma cirurgia… As possibilidades são infinitas. E a morte espreita cada uma delas. Então… Boa sorte!


 

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