O Mistério de Silver Lake (2018) | Olhar e desejo reprimido

Qual o resultado do voyeurismo característico de Hitchcock somado à fanfarronice crítica de Carpenter? “O Mistério de Silver Lake”, de David Robert Mitchell



Muito se fala das diversas referências aos filmes de Alfred Hitchcock em “O Mistério de Silver Lake”, filme mais recente do diretor David Robert Mitchell. Mas ao quê servem as influências hitchcockianas neste filme? Não apenas às diversas possibilidades sensoriais que a abordagem moderna com câmeras subjetivas ou mesmo descorporificadas adotada e marcada no cinema pelo diretor inglês proporcionam, mas também para a construção de uma ideia no filme que irá partir de uma característica marcante no estilo de HItchcock, que diz respeito à forma como direciona seu olhar: a câmera-voyeur, que observa o mundo enquanto uma série de manifestações distantes dos desejos do observador. É assim em Vertigo, quando o olhar de seu protagonista procura na personagem vivida pela atriz Kim Novak a concretização de seu ideal feminino desejado. Da mesma forma se orienta o olhar de Sam (Andrew Garfield) em “O Mistério de Silver Lake”. O mundo ao seu redor é marcado por desejos que o protagonista é incapaz de saciar. Sua jornada mesmo se inicia a partir da busca da satisfação de um desejo simples, mas que move-o bem como move a alienação social apresentada no filme. Vamos por partes.


O que de fato coloca Sam em suas intermináveis investigações é uma falta: a mulher que estava desejando, Sarah, e com quem iria transar na tarde seguinte ao dia que se conheceram, desapareceu. A motivação do personagem à princípio é guiada por uma obsessão em direção à satisfação de seu desejo: transar com Sarah. É uma necessidade simples, mas igualmente primitiva e motivadora. O que acontece é que, a apresentação desse personagem voyeur logo ao início do filme (no momento em que ele observa a mulher que faz topless na sacada e também a própria Sarah pela primeira vez), em uma clara referência à Janela Indiscreta (de Hitchcock), cria a percepção de que, ao redor de si, de sua casa, o que surge são desejos do protagonista, estes que apenas são desejados de longe, como que inalcançáveis. A atriz que transa com Sam não mais tão o interessa sendo o sexo com ela algo que ele já tem, logo, não há o que desejar. Sam, então, embarca em uma aventura que irá evidenciar uma compulsão enquanto motivação: apesar de nada ter relação, à priori, com mulheres, a figura feminina é algo que marca cada passo das investigações do personagem. Sam busca mulheres que o levam à novas descobertas em suas investigações, num ciclo que se repete, enquanto tanto a sensação de impotência como o desejo tomam o protagonista já que a insatisfação do segundo leva ao primeiro.



Assim, a busca pela satisfação do desejo vai muito além do desejo sexual, até porque a figura feminina é apenas um exemplo de objeto desejado, porque o que se quer não é a mulher, mas sim a posse. Em busca do “ter” é que se orienta o olhar de Sam e, logo, da câmera de David Robert Mitchell: olhar para o outdoor da ex-namorada que está com dinheiro e quase casando enquanto ele, Sam, está desempregado e sem conseguir pagar o aluguel; ou olhar para mulheres que mais parecem figuras mitológicas de um mundo guiado pelo desejo do que pessoas de fato (vide as “shooting stars”).


Portanto, como dito, o sentimento de impotência colocado sobre Sam o mantém alienado — se não tem dinheiro para pagar o aluguel, busca a compensação em ter o corpo feminino. A motivação dele nunca escapa ao longo de suas infindáveis investigações: encontrar Sarah. Ainda é sobre satisfazer um desejo básico. Quando percebe que isso é impossível, ao final do filme, ele apenas desiste de desvendar tantas conspirações e se volta, finalmente, à satisfação de seu desejo: vai até a primeira mulher que vimos observar no filme, a moça mais velha que faz topless na sacada de sua casa. Aquilo, então, acaba sendo o suficiente. De um modo, Sam aceita sua alienação em sua desistência, já que a busca pela “verdade” é ainda mais alienante. Embora pareça contraditório perceber que tanto leva à alienação procurar compreender o que se esconde por de trás da cultura que comanda a sociedade como também renunciar à tarefa de compreender a arquitetura dos poderosos, é esse o triunfo da estrutura social apresentado em “O Mistério de Silver Lake”: colocar um “OBEY”, tal qual mostrado no filme de Carpenter, até mesmo onde, à princípio, estaria desvelando-se a superfície que esconde as ordens de comando alienantes impostas por “Eles”. Ainda mais quando a compulsão que faz parte dessa engrenagem social se sobrepõe à qualquer possibilidade de ruptura.



Então, David Robert Mitchell arquiteta um discurso que tão se leva à sério como brinca em sua fanfarrocine (à lá o já citado John Carpenter), com uma abordagem sofisticada que é justamente tão interessante por agregar o olhar como elemento fundamental de seu discurso: esse olhar voyeur da câmera, de seu protagonista, à lá Hitchcock, concretiza a ideia do desejo como ferramenta para o controle pela cultura.


Mesmo os óculos de Roddy Piper não revelariam a verdadeira face que Eles escondem.


Nota do crítico:


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