O Jornal (1994) | O pragmatismo anunciado de Ron Howard

Ao contrário de outros colegas de profissão que exploraram as nuances e os bastidores do que é ser um jornalista, Ron Howard se fecha para as possibilidades e faz um filme protocolar, um reflexo de sua carreira



Em “O Jornal”, de 1994, o diretor Ron Howard, se apropria da área do Jornalismo, especificamente da cobertura de “Hard News”, para trabalhar as questões éticas da profissão. Nada que não tenha sido explorado antes com muito mais classe em filmes melhores, quando se correlaciona a vida pessoal das personagens com o fazer jornalístico, unificando os núcleos e o arco narrativo de cada uma daquelas pessoas, como James L. Brooks faz no excelente Nos Bastidores da Notícia, ou, ainda, Joan Micklin Silver no também maravilhoso Between the Lines. Aqui, há uma abordagem indecisa e muito atrapalhada por uma mão pesada e uma visão limitada das possibilidades de construção de um melodrama.


Na obra de Howard, os atores dão o seu melhor, e é justamente através, e a partir deles, que há nuances. Nas cenas que se passam no ambiente de trabalho, no escritório do jornal que seria uma espécie de New York Times do universo de ficção, o filme encontra seus melhores momentos, mas não necessariamente porque apresenta algum conteúdo ou desenvolve alguma trama investigativa, de análise e pesquisa, mas porque aposta nas particularidades da convivência em grupo. Nos melhores momentos desse recorte, eu até pensei que o filme poderia se transformar em um seriado de comédia com ares constrangedores à la The Office.



O problema é que Howard, ao contrário de Brooks ou de Silver, é um cineasta que visualiza uma cena e parece fechar completamente sua mente para outras possibilidades, um rearranjo de pares dentro de um cenário pré-estabelecido.


Assim, para cada divertida disputa de ego e diferentes maneiras de lidar com o ambiente de trabalho, existe uma tensão pessoal querendo se converter em tragédia. É o pai que tem dificuldade de relacionamento com a filha, o marido que trabalha mais do que deve e "esquece" da esposa e do filho, que está para nascer, e por aí vai.


Eu não vejo muita leveza (e nem muita certeza) na soma dessas partes. Parece que o cineasta ficou realmente ficou confuso, não sabia se estava fazendo um filme sobre jornalismo, sobre o que é ser jornalista, ou se estava apenas usando-o como muleta para registrar altos e baixos sobre a vida de um jeito pouco espontâneo e ainda maniqueísta, com pontos de vistas duvidosos sobre questões raciais, sociais e políticas e um mau aproveitamento em termos de construção de personagem para as grandes interpretações de Marisa Tomei e Glenn Close (que fazem o que podem com papéis mal escritos e, principalmente, desenvolvidos, que não as ajudam muito).


Nota do crítico:


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