O estado mutável da arte: uma questão de interpretação

Em "Cópia Fiel" e "Jogo de Cena", a interpretação e o questionamento são exercícios que exigem escuta e empatia ao se colocar no lugar do outro


Em determinado momento de “Cópia Fiel”, primeiro longa de ficção do diretor Abbas Kiarostami longe de seu país de origem, o renomado autor James Miller, interpretado por William Shimell, expressa sua admiração pelas coisas e pessoas simples, sem esquecer, porém, o quão complexo é atingir esse estado tão puro. Ser, em sua essência, já é um ato que demanda um repertório. Ninguém é sem partir de algum lugar de origem. Ninguém é sem incorporar, em outras palavras. A interferência humana está presente em todos os cantos, nossos toques atingem objetos e até mesmo outras pessoas, que sempre se transmutam, se alteram, a partir dessa nova recepção, desse primeiro contato que permite inúmeros outros.


Na perspectiva dessa corrente ocasionada pelo toque, não existe perfeição. A reprodução, seja ela do ponto de vista biológico, da perpetuação da espécie, seja ela do ponto de vista material, da reprodução de um objeto, é sempre errática e contraditória, porque assim é o ser humano. Foi-se o tempo em que se pensava que o processo evolutivo demandava uma linha reta, em que não era possível distanciar-se de sua prole. Seja através dos gestos corporais ou do dispositivo técnico, sempre haverá algum tipo de movimento que desviará de sua aura (“a aparição única de uma coisa que sempre estará distante, por mais perto que ela esteja”, segundo definição de Walter Benjamin) a segunda, a terceira ou a quarta tentativa de replicar algum conteúdo sem que ele perca seu sentido original.



Se tudo é impregnado pelo toque, pelas sensações, e se nossa percepção, hoje, é, em grande parte, tátil (mesmo aquilo que é contemplado também pode ser tocado e, em algum momento, é), a reprodutibilidade técnica, primeiro amparada pela fotografia e, posteriormente, pelo cinema, se diferencia do olhar inerte com que um observador encara uma pintura em um museu. Para compreender as nuances daquele objeto estático, o pintor se distancia da realidade dada em relação a ele próprio, se desnudando de qualquer interferência externa, e se vê curvado ao momento presente. Já o cinegrafista, que observa a realidade se formando diante de seus olhos através de um aparelho que envia à sua retina vários fragmentos de um tempo que já está se decompondo em outro, vê a vida como uma ilusão que ele traduz em movimento.


No cinema, a associação de ideias do espectador é sempre reajustada, recondicionada de modo que a então implacável e impenetrável realidade é sempre remexida. Ao enquadrar, ao fazer escolhas, o diretor de um filme opina. Em “Jogo de Cena”, Eduardo Coutinho não controla certezas absolutas, mas, sim, permite que o espectador sinta dúvida. Ele propõe um jogo interpretativo que, em sua superfície, é simples, mas, cuja execução é sempre complexa. Em um teatro do Rio de Janeiro, ele reuniu diversas mulheres, entre anônimas e atrizes conhecidas do público, para darem depoimentos, sem introdução ou maiores delongas. Nosso primeiro contato é com uma mulher que à época estava iniciando a carreira de atriz, mas não era famosa. Vemos seus rostos enquadrados e são eles que ditam o ritmo dos relatos, até mais do que aquilo que é dito. Quando começamos a nos acostumar com as falas, ouvimos uma continuidade das mesmas histórias, dessa vez narradas por nomes como Marília Pêra, Fernanda Torres e Andrea Beltrão, mas, como o corpo fala, e as expressões vêm da vivência de cada uma, naquele momento eternizado pela câmera, elas não são atrizes, e sim personagens.


Sobre essa questão, Marília Pêra tem uma fala muito interessante, em que diz que o ator, por estar acostumado a representar, não faz questão de esconder o choro quando atua, porque ele quer que o notem como alguém encenando, alguém que faz parte do jogo. Já o não-ator, sempre que flagrado em cena, esconde o choro, porque quer ser visto como uma estrela, alguém que está obtendo um tipo de atenção que a vida sem filtros não permite, porque tudo é corriqueiro e banal.



Independentemente de sua origem, interpretar é questionar o tempo todo. É um exercício de análise que ocorre em silêncio, é inflexível e ninguém acompanha enquanto acontece, mas altera a percepção de todos os envolvidos. É a interpretação que move o tempo, gera ritmo. Sem ela, não há movimento: tudo se torna objeto, sem função ou descrição. Sem incorporar, não há sustento que mova o retrato. Mas essa apropriação só encontra um caminho viável no testemunho, e não há como fazer isso sozinho. Tudo aquilo que é testemunhado só pode ser visto, ouvido ou sentido inteiramente pelo outro. Só isso já torna a reprodução mais confiável do lado de quem está observando do que quem está narrando ou propondo. Nesse sentido, o diretor é o olho que tudo vê, e o ator apenas vê o que lhe interessa. Como articulador de um verdadeiro jogo de cena, Eduardo Coutinho se infiltra exatamente no meio, no cerne, dessa disputa entre apresentar e representar. Antes mesmo de sua câmera entrar em ação, tudo passa pelo seu olhar, monitorando e recortando pedacinhos de realidade que, em soma, prosperam e geram ficção.


O que acontece na arte também ocorre na ciência, porque tudo provém de um tipo de natureza externa à sua realização, e a intenção original de uma fala sempre se reproduz em uma versão sofisticada do primeiro impulso, do ato criativo. Estamos constantemente tentando nos ajustar em modelos de comportamento para pertencermos a frases fabricadas que compõem uma realidade sempre alterada, a cada segundo, por uma nova imposição. Assim, como no filme de Kiarostami, dois desconhecidos podem virar um casal em crise de meia-idade andando sem rumo intencionalmente em questão de minutos, e esse tempo gasto discutindo é um recorte que nos impede de enxergar além da superfície, nos impede de enxergá-los como algo além daquilo que está sendo mostrado, ou então, como no caso do filme de Coutinho, a personagem pode ser atriz e a atriz pode ser personagem: tudo depende do seu ponto de vista.


O que seria, então, uma cópia perfeita, se tudo aquilo que tocamos é vivido e sentido por outras pessoas que transformam (e adaptam) o sentido original daquela existência de acordo com a sua? Em um momento de “Cópia Fiel”, a personagem da Juliette Binoche tenta traduzir a descrição, falada em italiano, de uma obra de arte, mas sua tentativa de replicar aquilo se torna ineficaz, porque ouvimos a voz da outra pessoa em tempo real, e o que ela diz sempre chega ao ouvinte com atraso, se distanciando da ideia inicial. Movido pelo tempo e pelo espaço, o ser humano é capaz de ajustar sua capacidade cognitiva ao domínio de novas línguas, flexibilizar seu estilo de vida e projetar um novo horizonte, reproduzindo um olhar ao qual ele já teve contato.



No cinema, a arte deixou de ser “bela”, porque não há mais uma unidade, não há mais uma essência: tudo torna-se alcançável, tudo torna-se capaz de ser reproduzido. No entanto, ao contrário da pintura, em que o objeto era o cerne da obra (seria a figura que originou a criação da “Monalisa”, de Da Vinci, o verdadeiro original, e não o quadro em si?), no cinema, o foco está espalhado. Surge então, a montagem, como um elo entre o assunto retratado e a reprodução. Graças à montagem, o presente ganha forma e vira passado, vira registro. Cada frame a ser exposto na sala de montagem é a reprodução de um acontecimento que nem constitui em si uma obra de arte ao ser filmado. O cinema por si só, em sua forma simples, sempre será uma cópia. A arte nasce de um trabalho em equipe que, em um estúdio, refina esse material bruto, que foi encontrado pronto na natureza.


Para Walter Benjamin, a arte contemporânea será cada vez mais eficaz a partir do momento em que se orientar em função de sua reprodutibilidade e, portanto, quanto menos colocar em seu centro a obra original. Nesse sentido, o cinema surge como o ponto máximo dessa afirmação. Nele, ao contrário do teatro, o ator não performa para uma pessoa, e sim para a câmera, que é quase uma entidade, que pode captar tudo o que está visível e invisível. Se o público de uma peça pode acompanhar a atração em primeira mão, presenciando algo na estreia, sem que ninguém tenha visto, o mesmo não pode ser dito do público do cinema, porque a câmera já viu tudo que estamos vendo, e alguém já mediou esse encontro muito antes de nós. A cópia fiel é, na verdade, a reprodução. Inacabada. Imperfeita. Infinita. Sobretudo, humana.



Pedro Porto

Tenho tantas ideias que dizem, e eu concordo com quem diz, que gosto de transportar o que se passa em minha mente inquieta para o formato de texto. Entre minhas principais paixões estão vários elementos que compõem a cultura pop, como a música e o cinema, em suas mais diversas formas, e a escrita que traduz em sentimento esses interesses. Confira minha produção no Instagram (@filmegrafando).