O Demônio das Onze Horas (1965)

Godard alia a divertida inconsequência que já havia demonstrado em “O Bando À Parte” com sensações a respeito da geopolítica de seu momento histórico



Os filmes de Godard que assisti até agora, em geral, mais mostram um evento do que criam sequências de causa-consequência como uma história convencional. Ou seja, Godard pouco se importa em explicar o que acontece, mas sim em provar o que acontece. Em Pierrot Le Fou, filme de 1965 situado num contexto de guerra fria, temos o casal de protagonistas Ferdinand e Marianne: Ferdinand foge com Marianne e larga sua esposa. Por que ele larga a esposa? Não é importante, não vemos qualquer desgaste na vida conjugal do homem. Até quando os protagonistas pensam em explicar o que está acontecendo, é uma explicação tão confusa e desconexa que não é possível entender nada (me refiro à quando uma narração em off de Marianne diz apenas palavras aleatórias para explicar o porquê ela e Ferdinand estão fugindo de uma casa com armas e outros suprimentos de guerra e um homem morto numa cama). No fim, o que importa é: eles estavam nessa casa, eles fogem.


Essa falta de uma causalidade clara transmite a inconsequência dos personagens, que rege o filme. Assim como “Bande À Part”, é um filme divertido justamente por essa inconsequência. Como disse o próprio Godard em uma entrevista de 1961: “meus três filmes têm, no fundo, o mesmo tema. Pego um indivíduo que tem uma ideia e procura levar sua ideia até o fim” (referia-se, até então, à “Acossado”, “O Pequeno Soldado” e “Uma Mulher é Uma Mulher”). “Pierrot le Fou” se encaixa nesse mesmo “tema” de uma busca implacável. Talvez ainda mais intenso que em outros, já que é uma busca por “liberdade”, por uma vida cada vez mais livre de convenções sociais, malandra e cheia de adrenalina.



Por boa parte do filme, toda a inconsequência dos personagens jamais tem de um fato um efeito. A estrutura de Godard que ignora a causalidade explicada traz essa sensação de que tudo é possível, tudo é uma brincadeira: mais ainda, o distanciamento que o diretor gosta de propôr em seus filmes, colocando atores para falar com o “público”, variando entre diversos gêneros do cinema sem nenhum compromisso com as convenções dos mesmos e, em geral, evidenciando que estamos vendo apenas um filme, transmite também esse senso de que naquele universo não existem consequências reais, tudo é (ainda que macabramente) lúdico e possível. “O Bando À Parte” se orienta, de certa forma, nesse mesmo sentido. Mais uma vez, ambos filmes divertidos e guiados pela inconsequência.


Porém, em seus momentos finais, “Pierrot, le Fou” aproxima-se mais de um filme como “O Desprezo”. Em ambos, uma situação trágica ou ao menos pessimista ronda o universo das personagens. Em “O Desprezo”, é toda a burocracia regida pelo capital e por homens de poder que domina o cinema. Em “Pierrot, le Fou”, a guerra se manifesta em muitos momentos. Em pleno período de Guerra Fria, a alienação que os personagens buscam do mundo a partir da malandragem os isola mas não permite que o filme consiga fugir do pessimismo resultante das tragédias que surgem de um conflito mundial.


O que acontece é que, tanto em “O Desprezo” como em “Pierrot le Fou”, esse ambiente de pessimismo diante de algo trágico acaba trazendo também consequências trágicas para o filme. Se “Bande À Part” encerra pouco se importando com suas consequências mais trágicas (a morte de um dos personagens), demonstrando a falsidade e ludicidade do mundo que o diretor consegue criar pelas narrativas do cinema, “Pierrot le Fou” não consegue escapar do pessimismo de seu mundo em guerra. Assim, não é como se Godard evidenciasse qualquer crítica social. Como já mencionei, ele não explica, mas sim mostra. Dessa forma, a inevitabilidade do filme terminar em tragédia acaba muito mais transformando-o em um modelo pessimista que não consegue manter-se como um filme de gângster ou um musical (ou qualquer outra coisa que seja) divertido, sempre marcado pelas referências à tragédia ao seu redor, do que uma crítica social clara e explícita ao desenrolar da Guerra.


Nota do crítico:


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