O Cemitério Das Almas Perdidas

Rodrigo Aragão ilustra as contradições nacionais a partir do cinema de gênero em filme que se orgulha de seus excessos.

Apesar de abraçar a veia política e social que circunda os filmes de terror nacionais mais populares da última década, ‘‘O Cemitério das Almas Perdidas’’ parece mais preocupado com o potencial de espetáculo das suas premissas. Em um filme em que o genocídio indígena vira palco para o gore e o fanatismo católico se transforma em rituais satânicos, o fabulesco se mescla com a história em uma experiência que, acima de tudo, existe em função de seus estímulos.


Da trilha sonora de desenho animado ao design de produção novelesco, o diretor Rodrigo Aragão parece sempre interessado em excessos e megalomania. A imagem da garota indígena ensanguentada é mais chocante e horripilante do que dramática em si - e, apesar disso, a tragédia da história brasileira está toda lá. Cria-se o teatro dos traumas nacionais no formato de contos bregas de terror e entretenimento, com direito a toda revolta e violência que o tema pede.


O valor de produção não apenas impressiona pelo escopo - principalmente se levado em conta seu próprio orçamento - mas também por transformar o Brasil em um cenário para a fábula, em que as freiras fanáticas e os indígenas pintados viram símbolos e signos como se fizessem parte de uma Terra-Média da vida. A câmera de Aragão atravessa o espaço através do CGI e traz o horror a partir dos efeitos práticos dentro de uma unidade estética que responde muito bem às intenções do diretor.


E ao mesmo tempo que o filme sofre com a falta de um protagonismo definido - principalmente nas suas resoluções -, o desprendimento do roteiro com regras mais burocráticas de narrativa permite uma liberdade para o potencial de escapismo do filme. As idas e vindas da história e a quebra da linearidade, por vezes surpreendentes e com um toque de abstração, fazem sentido com a atmosfera sobrenatural do longa e possibilitam set-pieces específicos muito estimulantes - o teatro de terror, o confronto entre jesuítas e indígenas, o embate no cemitério, etc.


Rodrigo Aragão também não nega ao espectador a catarse - que pede passagem em um filme político nos moldes de um cinemão pipoca de Jordan Peele -, mesmo que junto da tragédia e melancolia. Com referências e homenagens a José Mojica Marins desde o primeiro segundo de projeção e o norte apontado para o estímulo e o escapismo, O Cemitério das Almas Perdidas encontra seu lugar entre os filmes de gênero de destaque no Brasil.


Nota do crítico:

O filme está disponível no site da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes