O Acontecimento (2022) | Um retrato íntimo que infelizmente segue atual

Baseado no livro com um relato real da busca por um aborto, O Acontecimento traz sensibilidade e desconforto, mergulhando o espectador na dor da protagonista



Dizer que vivemos tempos difíceis já se tornou repetitivo. A cada semana é mais exaustivo enfrentar as notícias e acontecimentos no Brasil e no mundo, principalmente quando se é mulher. Por isso é interessante e ao mesmo tempo doloroso assistir a esse filme justamente agora. Lançado em 2021 o longa chega aos cinemas brasileiros agora, no auge do debate sobre o aborto, com dificuldades cada vez mais absurdas sendo colocadas em nossos caminhos. Baseado no livro homónimo de Annie Ernaux, o filme é um relato, um desabafo de Annie, que precisou recorrer a um aborto ilegal na França dos anos 60.


A direção maravilhosa de Audrey Diwan nos coloca tão perto de Annie que sentimos quase fisicamente os desconfortos retratados na tela. A câmera sempre muito próxima, acompanhando seus passos por cima do ombro ou em closes de seu rosto nos posiciona dentro do que aquela mulher está pensando e sentindo. É tão íntimo que a angústia dela se torna nossa, as dores podem ser praticamente sentidas por nós e em alguns momentos é difícil olhar para a tela, mas estamos ali, pertinho de Annie quando ninguém mais está.


A jovem, estudante de literatura, boa aluna, com sonhos e objetivos, descobre a gravidez ainda cedo e não tem dúvidas que não quer seguir com ela. Annie sabe que se for mãe estará fadada a ser dona de casa e seus estudos, bem como sua carreira, estarão acabados. Logo no começo do filme suas colegas de classe observam outra aluna que irá desistir dos estudos pois irá se casar. Fica claro que a mulher tem poucas opções ou quase nenhuma naquele cenário.



Como o aborto ainda era ilegal na França nos anos 60, Annie precisa buscar meios ilegais para realizar o procedimento. Num mundo sem internet e com uma lei rigorosa, a tarefa é quase impossível. Os médicos não querem ajudar e ainda atrapalham, as colegas não querem se prejudicar com a lei e por isso a jovem fica cada vez mais sozinha. Sem poder contar com ninguém, sem rede de apoio e com o homem que a engravidou pouco se importando com ela, Annie vai se isolando e adoecendo, não pela gravidez, mas pela solidão nesse processo doloroso, nesse medo de perder a vida, de ser presa ou de não conseguir o que quer e ver o fim do destino que escolheu viver.


Toda essa solidão e sofrimento são muito bem pontuados pela direção, nos mergulhando nesse cenário sem esperança. É doloroso de ver, ainda mais quando se é mulher. Numa sala de cinema com grande maioria feminina foi como viver uma experiência conjunta. Ouvir as respirações tensas, as reações tristes, desesperadas, os rostos se virando. É o reflexo de um belíssimo trabalho no cinema, mas também de uma dor coletiva que estamos sentindo. É assustador que em 2022 um filme como esse seja terrivelmente atual, que a gente assista sabendo que existem milhares de mulheres na mesma situação, até hoje.


É quase um filme de horror se pensarmos nesses pontos - e em algumas cenas com imagens bem fortes mas necessárias - pois é possível passar boa parte do longa com uma tensão absurda e um medo de que Annie pode morrer ou ser presa a qualquer momento. Depois de tentar sozinha o aborto e não ter sucesso no procedimento, Annie finalmente consegue o contato de uma pessoa que pode ajudar. Nesse caminho ela recorre a homens diversas vezes, um colega da faculdade, o homem que a engravidou e dois médicos. Nenhum deles a ajuda. Mas finalmente, a pessoa que fará o procedimento com ela é uma mulher e quem a indica é também, outra mulher.



Depois de tentativas frustradas e continuar grávida, com a gestação avançando cada vez mais, Annie arrisca sua vida. Vendo suas notas caírem, seu professor decepcionado e sua vida piorando em todas as áreas por conta desse problema, ela não vê outro caminho e mesmo sabendo que corre sérios riscos, ela repete o procedimento. É o que acontece com tantas mulheres, a falta de opção, o desespero e a solidão vão destruindo suas vidas até que qualquer risco pareça válido. Afinal, não é uma lei que impede o aborto, ela só serve para que essas mulheres morram, sejam presas ou com sorte, consigam ilegalmente o que precisam sem maiores complicações de saúde.


Não é um debate novo, as mulheres estão expondo no cinema, na arte e em tantos outros lugares há muito tempo a necessidade de uma mudança que nos permita controlar nossos próprios corpos. O Acontecimento é um trabalho lindo que levanta todos esses pensamentos e discussões mas também traz esse gosto amargo de saber que não evoluímos nada de lá até aqui. Nos apegamos tanto a Annie ao longo do filme que torcemos, quase rezamos para que ela viva e não seja punida, é o que esperamos para todas as mulheres nessa situação.


Chega a ser clichê dizer que este é um filme necessário, mas mais do que nunca precisamos falar sobre tudo que ele traz e expõe de forma tão sensível e real.


Nota da crítica:


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