Nos Bastidores da Notícia (1987)

Quando a ética se mistura ao romance.



É curioso como nós só conhecemos um filme de fato quando resolvemos efetivamente vê-lo. Mesmo que tenhamos visto o trailer, ou trechos significativos, é o todo da narrativa que nos dará as respostas qualitativas. Você precisa "gastar" tempo para saber se valeu a pena ou não. Mais do que isso, muitas vezes criamos uma imagem antecipada de como o enredo se desenvolverá, como se, em um único plano, tudo pudesse ser resumido.


Eu digo isso porque “Nos Bastidores da Notícia”, um típico filme agridoce de James L. Brooks (suas narrativas às vezes são mais acentuadas para o drama, como em “Laços de Ternura”, e, em outras ocasiões, são mistas, como aqui e em “Melhor é Impossível”), me surpreendeu de várias formas. Eu não sabia se o trio de personagens principais era constituído de amigos, amantes ou ambos, e não fazia ideia de como encarar a mensagem da história. Inclusive, sempre achei que tratava-se de um filme curto, de no máximo 90 minutos, sem tanto aprofundamento nas emoções de cada uma dessas pessoas unidas pelo emprego e pelos mesmos hobbies. E não poderiam ser mais diferentes em como encaram a profissão e a vida pessoal, mesmo estando no mesmo círculo social e em um patamar próximo de carreira.


Aqui, Jane (interpretada por Holly Hunter), no meio de um dilema moral disfarçado de amoroso, se destaca por ter seguido sua intuição desde o princípio. Sem ser egoísta, sem renunciar às pessoas ao redor, ela conseguiu se reinventar, ao contrário de seus dois colegas jornalistas, que permaneceram na mesma durante os sete anos que separam o início do fim da trajetória de cada um deles.



O "amigo que queria ser mais que amigo" do Albert Brooks acaba casando, tendo filho, mas sempre carregando o fardo de "gostar da pessoa errada" (aliás, esse tipo que ele faz em todos os filmes me remete muito ao Jack Lemmon, tanto na postura física, quanto no tom de voz e até o jeito de se expressar... uma postura de cara que se faz de bonzinho, mas consegue ser bem egoísta em ocasiões adversas, e, na verdade, é totalmente inseguro).


Já a personagem de William Hurt, um baita de um oportunista, alguém em quem o público nunca confia totalmente (nem a Holly Hunter) continua mantendo uma pose de cara ingênuo, que tem muito a aprender com o outro, mas faz exatamente o oposto: se aproveita da posição alheia pra também ter seu momento de glória, e consegue, porque tem muita coisa injusta na indústria.


Mas o mais legal mesmo é ver o rumo final de tudo: apesar de juntos no pôster, os três personagens seguem caminhos distintos, simplesmente porque a Jane de Holly Hunter nunca deixou nenhum dos dois tomar alguma decisão por ela ou manipulá-la. Assim, ela os manteve ao redor, mas podendo sempre controlar como os queria em sua vida. “Nos Bastidores da Notícia” é um filme sobre ética, lealdade e princípios. O romance é uma consequência dos laços no trabalho, e não uma prioridade.


Nota do crítico:


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