Noites Alienígenas (2022) | Um alerta importante mas pouco efetivo

Noites Alienígenas usa seus personagens sem muito aprofundamento para construir o foco na periferia de Rio Branco e seus recentes problemas com o tráfico



Há uma dificuldade em estabelecer uma conexão com os personagens do longa de Sérgio de Carvalho, pelo pouco aprofundamento que é dado em suas vidas, anseios e personalidades e pela forma como o diretor perambula por seus núcleos, alternando a observação em seus momentos sem realmente nos apresentar seus contextos. Grande parte do filme parece uma introdução, passeando por esses espaços da periferia de Rio Branco, construindo muito mais esse lugar do que as vidas que fazem parte dele. O tráfico, principal ponto que une as pessoas dessa comunidade, é apresentado com dois lados: de Alê (Chico Diaz), que parece se importar mais com as pessoas e trabalha apenas com Rivelino e o lado da “Família”, uma facção violenta que recruta jovens levando a tragédias na região.


Quando o longa engata, encontrando seu foco na história de Rivelino, se torna muito mais interessante e coeso, o que infelizmente dura pouco tempo. O jovem que mora com a mãe e trabalha para o traficante é mais uma vítima das dificuldades que atraem tantos como ele para o trabalho no tráfico. Uma história bem conhecida no Sudeste que ganha um novo olhar, da cidade que também é natureza, da floresta que também é urbana, da periferia que abriga nossas origens e as raízes do país, e foi impactada brutalmente. Ao colocar essa periferia como protagonista, Sérgio de Carvalho traz as margens para o centro, para mostrar que é através da arte e da cultura que podemos conhecer os diferentes olhares que existem no Brasil (e no mundo). Noites Alienígenas quer dizer que o Acre existe, ainda que muitos não enxerguem, e que tem todo tipo de história para contar.


Temos aqui diversos personagens que se cruzam, com algumas boas atuações - destaque para Chico Diaz - que constroem esse espaço central, mas parece que muita coisa sobra e se perde. Sandra (Gleici Damasceno), a mãe de Rivelino, a família de Paulo, são apenas algumas das peças importantes que serviriam para construir alguma empatia com a trama, mas são pouco trabalhados, flutuando sem muito sentido em alguns momentos, jogando poucas pistas sobre quem realmente são. Kika Sena então, que brilhou neste mesmo ano com Paloma, parece completamente avulsa aqui, com uma cena que tenta trazer algum impacto e mostrar a força de sua amizade com Sandra mas é completamente vazia, com palavras soltas que não conseguem emocionar justamente por toda essa falta de aprofundamento em todos os personagens e de foco, que acompanha grande parte da obra. Dessa forma, a falta de conexão não é apenas com essas pessoas, mas também com o filme em si, que tem potencial para ser muito mais poderoso do que realmente é.


Outro problema é que há muito para observar e entender, além do que é o objetivo principal, o longa ainda quer nos mostrar um pouco da Amazônia, da cultura dos povos indígenas, um sonho de estudar e crescer para além daquela realidade, o problema do vício, crenças e formas de artes que fazem parte da região. Todos os pontos são relevantes e fazem parte dessa intenção forte de colocar Rio Branco no mapa, mostrar pro mundo algo, mas também ajudam o filme a se perder nele mesmo, afastando emocionalmente o espectador e deixando de dar a devida atenção a tudo.


O ponto alto se concentra nos últimos momentos, quando a narrativa se livra de tudo que ficou sobrando no começo e afunila seu olhar, finalmente mostrando tudo que quis dizer através do fim da jornada de Rivelino e Paulo. Ainda assim, é difícil se importar muito com tudo que acontece com os jovens, já que há esse grande distanciamento. Portanto, o longa até funciona bem para apresentar um espaço e seus problemas, mas não tem força suficiente para imergir em tudo de tão importante que tem a dizer.


Nota da crítica:


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