Noite Vazia (1964)

Walter Hugo Khouri nos apresenta quatro corpos destituídos de sentido e de sentir em uma noite vazia na grande São Paulo.



Em Noite Vazia, Walter Hugo Khouri constrói uma situação, pelo conteúdo a priori, erótica: duas prostitutas e dois homens estão juntos em um apartamento. Mas a sensualidade de todas as personagens é constantemente negada: ao invés de corpos ansiosos por sexo, o que vemos são closes de olhos, rostos, cabeças, enquanto conversam e pensam sem parar por seu tédio e angústias existenciais. Nos reconhecemos nessas dores pelos close-ups que tomam a tela com os rostos em meio ao ambiente decadente criado por Khouri.


A monotonia, mote narrativo do filme, é sempre presente nessa tentativa constante de sentir em meio à falta de sentido na qual as personagens estão inseridas. O tédio, quase elemento estrutural da grande São Paulo onde a ação se desenrola, destitui de razão qualquer tentativa de quebrar com a rotina.



O único momento em que há uma sensibilidade, uma possibilidade maior de sentir-se no corpo, é também a única cena em que aparece nudez de forma explícita: isso ocorre quando a chuva vem e todos vão observar ou mesmo molhar-se na chuva, pois estão buscando por qualquer elemento novo, diferente, que traga uma maneira mais direta de sentir. Uma cena lindíssima marca a liberdade sensual do corpo (mesmo que momentaneamente): Mara (Norma Bengell) banha-se na chuva enquanto é observada por Nelson (Gabriele Tini) pelo vidro da janela da varanda; nisso, o corpo da mulher é moldado pela água da chuva, confundindo-se com a mesma, de modo que a água torna-se o corpo. Em um filme até então guiado pela impossibilidade háptica, há, neste momento, uma potencialização da sensibilidade (e maleabilidade) do corpo na imagem.


O olhar, inclusive, marcante nessa emblemática cena da chuva, é um elemento crucial na construção da dinâmica de poder entre as personagens. Os homens, detentores do olhar, exercem-no sobre as mulheres que estão se prostituindo. Dessa maneira, eles próprios negam sua participação sensual ativa (e que se tornou também tediosa) em determinado momento para tentar sentir pela fetichização do olhar masculino para o corpo feminino. De toda forma, ao longo de todo o filme há o olhar predatório dos dois para com elas. Ainda assim, este poder também se revela frágil e impotente, retornando o estado dos protagonistas ao tédio e à falta de sentido.



Também o olho surge como elemento central na própria personagem de Mara, que, em contraste com a prostituta vivida por Odette Lara, tem sempre um olhar quase infantil, ao mesmo tempo assustado e buscando proteção, mas que também parece querer descobrir o mundo - tendo seu fascínio roubado por sua condição de vida melancólica. Em determinado momento, são intercalados dois planos: o olhar perdido de Mara com o rosto assustado do filho do homem mais velho, Luís (Mário Benvenutti), numa referência mais explícita à condição infantil da personagem vivida por Bengell. Novamente, esse olhar parece, momento a momento, ir perdendo seu sentido perante uma vida que rouba sua inocência.


Quando, perto do final do filme, Mara e Nelson enfim transam sem interrupções, vemos a pele tomar a tela. Porém, uma música incômoda permeia toda a ação, como se a angústia e a ansiedade jamais sumissem, mesmo na tentativa de entrega sensual. Vemos a mão de Mara constantemente apertando as costas de Nelson, numa tentativa desesperada por sentir, com seu rosto buscando essa sensibilidade do corpo, cada vez tentando e sentindo um pouco mais, embora a música e as reações faciais sempre invadindo este ato sexual revelem uma dificuldade de manter-se no momento presente e de dar sentido a este - razão mor da dor existencial das personagens ao longo de todo o filme.


Nota do crítico:


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