Entrevista com Muniz Filho e Sávio Fernandes de Noite de Seresta

Entrevistamos os diretores do curta cearense que vem conquistando os festivais de cinema e os amantes de uma boa cantoria.


No finalzinho de Janeiro, mais precisamente entre os dias 22 e 30, aconteceu a 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Dessa vez, em decorrência da pandemia e do isolamento social, o tão querido festival mineiro aconteceu virtualmente e, em prol da segurança de todo mundo, os filmes foram disponibilizados para cada um assistir no aconchego de suas casas.


É certo que esse novo esquema, por mais que tire a experiência de ver os filmes em uma tela grande, em uma sala de cinema ou até mesmo na praça, possibilitou que mais pessoas tivessem acesso aos filmes.


Foi por conta desse revés que a Singular deu sorte. Cobrimos uma boa parte do festival, no total foram 5 críticas de longas e 20 comentários sobre curtas (que você pode conferir na íntegra aqui), marcando a nossa primeira experiência com um festival desse porte. Mas é claro que não poderiam faltar surpresas…


Quando eu já me preparava para encerrar a cobertura, resolvi dar uma espiada em uma lista do Letterboxd com todos os filmes da Mostra, lá encontrei algo que captou minha atenção: Noite de Seresta. As avaliações eram bem positivas e a média de 4 estrelas era a maior do momento, então porque não dar uma chance? Fui surpreendido de muitas maneiras. Um show de narrativa que sabe ser tanto cômico quanto dramático e que, sem sombra de dúvidas, foi o melhor curta que assisti nesses 8 dias.


Escrevi meus elogios por aqui e, em um belo acaso, Muniz Filho, co-diretor do filme, deu uma espiada. Minha sede de fã e criador de conteúdo não pôde deixar que ele escapasse sem pedir uma entrevista e aqui estamos! Tanto ele quanto Sávio Fernandes, que também assina a direção, foram muito gentis e toparam responder algumas perguntas sobre o filme.


Aqui vai um pequeno bate-papo encurtado e transcrito, espero que para vocês seja tão bom lê-lo quanto para mim foi escreve-lo.


Para começar, eu queria saber como a Kátia entrou na vida de vocês? E, principalmente, qual foi o momento em que perceberam que essa figura tão única merecia um filme?


Muniz: Então, eu fui convidado para comer um espetinho no RM Bar e lá estava Kátia performando. Eu fiquei louco porque falaram “está tendo uma seresta por aqui” mas eu não esperava que seria A seresta, A Kátia Blander performando e se divertindo daquele jeito. Então aquilo ali foi algo que ficou “Meu Deus, quem é essa mulher?”e eu queria entender quem era ela de fato.


Sávio: Sabe quando tem uma pessoa muito presença? Imagina a Beyoncé na sua frente, você fica sem jeito, é isso ela na mesa sabe? A gente está lá mas não consegue se concentrar porque o foco total é na Kátia. Quando a gente viu essa mulher foi “cara, temos que fazer algo em relação a isso. Vamos fazer um filme por que que mulher incrível.”


Muniz: Sim, a nossa surpresa foi que ela topou, com receio, mas topou. Aí a gente foi conversando mais, explicando como era o documentário, como seria a gravação e ela foi adorando a ideia. Nós tivemos uns três encontros antes para falar sobre o filme e ela ficou super emocionada quando descobriu, quando ela viu a equipe, o amor que a equipe estava tendo, o cuidado com ela e com a imagem dela, ela se doou desse jeito. Nós tivemos três diárias para gravar esse curta que foram incríveis, por ela ter se doado bastante, até demais em alguns momentos (risadas), mas a gente fica até triste por não termos conseguido colocar tudo que presenciamos, mas a mensagem foi passada e está sendo muito bem recebida.


Vocês disseram em um bate papo no Olhar de Cinema que tiveram mais de 16 horas de gravação, como foi reduzir isso para 20 minutos de filme? O que entrou e o que saiu?


Sávio: Então, eu estava até revisando o material um dia desses e foram 12 horas de filmagem, só que nós gravamos com duas câmeras então foram duas imagens simultâneas dessas 12 horas. Muito material para tão pouco tempo assim, sabe? Mas foi bacana porque a gente teve uma visão geral do que a gente queria falar. Tinha muita música que se repetia em questões de narrativa, por exemplo “essa música é bacana porque mostra alegria, mas a seguinte também mostrava isso”. Então a gente fez um filtro sobre o que é que essa música está refletindo na vida dela, que mensagem ela está passando exatamente? Eu tinha um mural na minha mesa enquanto estava editando e a partir disso nós íamos entendendo “opa, isso aqui casa com aquela parte ali, essa parte com essa aqui, essa aqui está muito bacana, muito legal, só que não se encaixa com as outras”


Muniz: E como só eram 20 minutos a gente tinha minutos cronometrados para cada assunto, para não estourar nem ficar muito longo, queriamos realmente falar sobre vários temas porque a Kátia Blander é múltipla né? Ela é uma pessoa totalmente múltipla e a gente queria mostrar todos os lados que nós enxergamos dela para a galera que vai assistir.


Sávio: É e também tem muitos outros lados, mas com o tempo curtinho a gente fez um resumo, um sneak peek (risadas)!


E, aproveitando um gancho, Noite de Seresta, por mais que se centralize na Kátia, aborda uma diversidade de temas. Como foi fazer essa dosagem?


Sávio: Aproveitando o gancho anterior, a gente tinha vários assuntos, por exemplo: a gente tinha o núcleo do filho, da ficante, do bar, da bebida, da música. Tinha várias temáticas para abordar, mas tínhamos que entender como cada uma delas entravam, sabe? Não queríamos nos estender muito em um tema, ao mesmo tempo que não queríamos deixar ele muito raso, então foi um exercício de vários cortes para resolver esse quebra-cabeça da montagem.


Imagino que o documentário tenha sido gravado antes da pandemia, vocês sabem como ela está e, principalmente, como vai a carreira?


Muniz: Então, por causa da pandemia, a Kátia não está se apresentando como antes. Ela fez poucas apresentações, somente agora já que antes ela estava em casa, ela já é idosa e estava se resguardando. Um assunto que a gente não abordou no documentário é que ela é enfermeira, então ela estava atuando. Ela está em casa e fez pouquíssimas apresentações fechadas e uma ou duas lives somente para os amigos.


O filme recebeu muitos elogios e está bem avaliado na maioria dos portais, com isso em vista, como vocês enxergam isso no cenário brasileiro de cinema atual?


Sávio: Cara eu to tão feliz com a recepção do filme, fiquei até acompanhando o Letterboxd, comentários e tudo mais (risadas) e eu acho que o comentário mais triste assim foi “que inferno da pandemia que não deixou a gente assistir a esse filme na Mostra Praça”. Mas é um pouco disso, da mesma forma que a gente está lidando com esse formato online, a gente também está conseguindo ver outras recepções. Porque o Brasil todo tem acesso a essas mostras e tem sido muito bacana, não só pelo filme em si, mas também pela gente conseguir acompanhar novos festivais, com novos filmes e visões diferentes de seleções diferentes e todos online, é uma coisa incrível! Claro que tem toda a questão da exibição no cinema, mas eu acho que é uma saída que a gente está encontrando.


A estética que vocês tem no curta é bem definida e conta até com elementos de karaoke, quais foram as suas principais referências tanto estéticas quanto narrativas?


Sávio: O filme fala sobre bares e karaokês, então eu acho que essas são as maiores referências que a gente tem. Por exemplo, quando a gente chegou na casa da Kátia, a primeira coisa que a gente viu foi aquele quadro gigantesco do pôr do Sol na sala, aquilo é total fundo de karaokê.


Muniz: O quadro que o filho deu para ela de aniversário porque remeteu a mãe, então para a gente era especial e para a Kátia também, fazia sentido para ela esse quadro ser filmado.


Sávio: Total, é isso, quando a gente entra naquele clipe no chroma key, é como se fosse ela entrando e viajando, já que ela disse que viaja quando canta, então nós viajamos dentro do próprio cenário que ela situa, na casa dela. A vida dela e tudo que está em volta foi a maior referência.


Por fim, como está sendo receber esse feedback tão positivo pelo trabalho de vocês?


Muniz: A gente está tendo uma resposta muito massa, eu estou bem feliz e está sendo uma surpresa boa. Nós escolhemos a equipe à dedo, a história da Kátia a gente acreditava desde sempre, mas não imaginávamos que iria chegar tão longe, tipo, estamos falando contigo de outro estado então já é passar barreiras pra ela que só é conhecida em Fortaleza, está sendo um feedback muito positivo tanto para nós quanto para ela. Eu faço muita pré-produção de filme e eu sempre quis me aventurar dirigindo um curta, uma história e tive esse prazer e encanto com o Sávio e com toda a equipe, então está sendo algo muito reconfortante porque a gente sabe que essa junção dá certo e que a gente pode apostar em contar novas histórias.


Sávio: É isso, a gente faz o filme com tanto carinho e receber esse retorno dele, de como o filme toca cada um dos espectadores é muito gostoso e nos motiva a contar novas histórias, fazer novos filmes e seguir em frente.


Noite de Seresta é uma obra-prima e merece todo o reconhecimento que vem ganhando. A história de Kátia Blander é ampla e abraça a todos da mesma forma que ela faz em seus shows.


Obrigado Muniz e Sávio tanto pela entrevista quanto pelo filme e obrigado Kátia por sua jornada.