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A Memória e a Ancestralidade na Produção de Nilce Eiko Hanashiro

O desenho, o corpo e as raízes na obra da artista visual brasileira Nilce Eiko Hanashiro



Nascida em São Paulo e com raízes em Okinawa, Nilce Eiko Hanashiro veio com os seus pais para Brasília ainda enquanto a cidade era construída, sendo assim, Nilce se considerava candanga¹. Ela era. Porém, a artista não se prendeu à capital federal. Viajou para o Rio de Janeiro, estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e começou a produzir suas obras nos anos 1980.


Nilce Eiko Hanashiro tem uma produção vasta em performances, instalações, desenhos, pinturas e se aventurou em várias maneiras de comunicação, criando uma forma particular e íntima para o seu trabalho, desenvolvendo um trabalho significativo com suas narrativas e vivências.


Sempre muito simpática e atenciosa, como é perceptível no vídeo disponível no youtube² onde ela fala sobre sua exposição Linha do Céu na Casa da Cultura da América Latina (CAL), a artista produziu obras que são parte da história de uma mulher que buscou de todas as formas construir sua identidade ampla e diversificada. Nilce se revela em sua produção de diversas maneiras, pois ela é metamorfose, mas também é antropofágica: “devora” e coloca muitas culturas e religiões em suas criações, além de dar vida a personagens animais com formas humanas em seus desenhos.


Artista, mulher, nissei. Nilce era muitas coisas, produziu muito e se fez presente no cenário das artes visuais de Brasília, um cenário que está sempre se desenvolvendo e no qual Nilce Eiko Hanashiro se manifesta como passado, presente e futuro.


O DESENHO, O CORPO E O ANCESTRAL


Sua fase inicial nas artes visuais foi cercada de desenhos, durante toda a sua vivência na Escola do Parque Lage, Nilce dedicou sua produção para o desenho e a pintura. Normalmente feitos com crayon, os desenhos eram animais-humanos, uma espécie de fusão entre essas duas criaturas. Essas obras foram feitas entre os anos 1980 e 1990, sempre muito bem estruturadas e arqueológicas, os desenhos de Nilce nos traz quase que narrativas implantadas em seus rabiscos cuidadosos e delicados, mas simultaneamente agressivos. O artista Evandro Salles, em um texto sobre esses desenhos, diz:


“Pacientemente, com grande doçura e concentração, Eiko vai reiterando, de dentro de si, personagens de um tempo ancestral, tempo infinito, e vai tecendo uma língua misteriosa: a língua que os homens falam quando estão profundamente distraídos, adormecidos, abstraídos e esquecidos do mundo, absortos no turbilhão cósmico de imagens sem tempo”


(SALLES, Evandro. Opinião. Publicado no Catálogo A Linha do Céu, 2006)


Esses desenhos nos trazem uma busca pela essência, pelo que está no fundo de uma história que normalmente nos custa vários minutos de observação. Mesmo assim, não é algo definitivo e nem o título da obra pode nos ajudar nessa missão de descobrir o que Nilce queria, afinal, ela não colocava títulos em suas obras. A artista cria um universo de personagens só dela, personagens que aparecem em diferentes desenhos. Mas sua criação não se limita apenas a essas criaturas; Nilce desenha estruturas e objetos, quase figuras arqueológicas.


Evandro Salles, na citação acima, afirma que os desenhos dela criam uma nova forma de comunicar, uma forma que as pessoas podem entender mesmo distraídos do mundo, distraídos do cotidiano, refugiados em um mundo paralelo. Esses desenhos são como os desenhos que fazemos enquanto estamos em uma ligação e temos uma caneta ao lado.

Criando desenhos que misturam o abstrato e o figurativo, a artista cria personagens e universos que geram narrativas que podem ser contadas sem palavras. Foi o que aconteceu na exposição Antologia, realizada no Museu Nacional da República, em Brasília: seus desenhos foram expostos em sequência, dando a impressão de que ali havia uma narrativa.


Figura 1: Sem Titulo, Nilce Eiko Hanashiro

Para Angélica Madeira, esses desenhos de Nilce nos trazem a sensação de horror. Ela afirma: “a artista parece querer ilustrar uma história de horror para crianças” (MADEIRA, 2019). E percebe-se que esses desenhos não seguem as formas da nossa realidade, com deformações e animais com pernas e braços de pessoas, eles se assemelham aos filmes e animações de horror produzidos por grandes mestres, porém Nilce tem uma individualidade que não é possível confundir com outro artista. E mesmo que o preto, na obra de Nilce, aumente essa carga sombria, seus desenhos coloridos não se ausentam dessa sensação de horror.


Vale lembrar também que podemos perceber algumas características das vanguardas, e, sem dúvida, o surrealismo está presente. Nilce coloca as memórias, o terror, as vanguardas em seus desenhos, mas eles ainda são segredos, camadas que não conseguimos entender por completo. Mas se, em algum momento, Nilce tentou cavar o que desenhava, como afirma João Evangelista de Andrade Filho em seu texto no catálogo da exposição Antologia, hoje tentamos entender as mitologias individuais³ da artista. Fernando Cocchiarale afirma, em seu texto que inicia o catálogo Antologia, que:


“É possível que parte do trabalho de Nilce Eiko Hanashiro, analisada sob o crivo de generalismo, ainda não tenha sido corretamente interpretada, não por excesso de timidez poética, mas por rebeldia aos padrões estabelecidos por um sistema de arte em que o mercado se tornou critério fundamental para a consagração de obras de arte.”


(COCCHIARALE, Fernando. Nilce Eiko Hanashiro: Intensidades, in: Nilce Eiko Hanashiro: Antologia, 2019.)


Dessa forma, as mitologias individuais de Nilce se formam, pois essas obras não se enquadram em uma história da arte convencional, elas tem vida própria e um tempo próprio, se tornam algo que a história não dá conta, pois parecem ser retratos de sua vida. Assim, a ideia de narrativa se instaura quando observamos as obras lado a lado.


Figura 2: Sem Título, Nilce Eiko Hanashiro/divulgação

Nilce se cria e se recria nesses desenhos, escava a história e recupera formas de animais pré-históricos, os desenha com formas humanos e faz de seus desenhos um universo particular. Depois de muitas criações, Nilce não conseguiu continuar sua produção de desenhos por questões de saúde e então ela se encaminha para performance e instalações. Contudo, sua feitura de desenhos não para totalmente, tanto que alguns deles foram feitos durante os anos 2000.


O CORPO


O que se carrega no corpo? As marcas, as lembranças, a memória de um passado que nunca existiu ou lembranças de dias corriqueiros. Nilce nos faz percorrer entre seu corpo e sua mente por meio de duas performances que foram apresentadas na exposição do Museu Nacional da República. A primeira delas durou vinte meses e mostra o cotidiano de sua vida.


Essa performance, como quase todas as obras da artista, não tem título. Na exposição Antologia, essas fotos foram instaladas em blocos e colocadas ao chão. As fotografias registram o cotidiano da artista que se aventura pelas ruas de Brasília e mesmo que pareça que elas não estão ligadas, o cotidiano as fazem se conectarem. Walter Benjamin afirma que o cotidiano é marcado pela perda de experiência em meio ao caos da modernidade. Nilce nos mostra que o cotidiano pode ser uma experiência diversa pela busca de si mesma.


Figura 6: instalação exposta no Museu Nacional da República.

Percebe-se nas fotografias que os objetos de várias culturas se misturam, como o copo de saquê, imagem da Nossa Senhora Aparecida próximo ao terço e a outros elementos. Nilce coloca seu corpo e sua memória como meio de expressão, mas também coloca o cotidiano, um cotidiano barulhento das noites da Asa Norte, das comerciais, coloca a sua casa como obra. Nilce tenta encontrar no cotidiano o seu “eu”, sua identidade. É o encontro de Nilce com a beleza e o horror dos dias corriqueiros. É como João Fiadeiro e Fernanda Eugenio escrevem no texto O Encontro é Uma Ferida que diz:


“Reencontrar, naquela matéria simples e quotidiana em relação à qual aprendemos a nos insensibilizar – a matéria da secalharidade – reencontrar aí, nesse comparecer recíproco, toda uma multiplicidade de vias contingentes para abrir uma brecha. Uma brecha para a re-­existência.”


(FIADEIRO, João; EUGÉNIO, Fernanda. O Encontro é Uma Ferida. [S. l.: s. n.], 2012.)


Alguns anos depois, Nilce se aventura novamente na performance e produz solitariamente em seu quarto. A performance consistia em mostrar partes do corpo enquanto um véu preto cobre seu rosto. Sob o véu, que pode ser sagrado ou usado em casamentos, Nilce desafia as concepções de uma época onde o machismo se escondia em roupas longas e sociais. Para os autores dos textos do catálogo, Nilce traz seus desejos e fetiches, mas o que mais aparece nessa performance é o corpo feminino assumindo sua sexualidade. O seu corpo se tornar matéria de seu trabalho, nas palavras de Angélica Madeira:


“A seriedade e a concentração que transparecem nas “tomadas fotográficas” revelam que algo muito relevante aconteceu naquela noite e que ninguém viu: o corpo tornado matéria prima, suporte de signos que mostram e escondem a sensualidade extrema, a nudez parcial, os cabelos, as pernas cruzadas, as roupas e adereços, em um ininterrupto devir-mulher, explorando em si mesma as possibilidades de prazer.”


(MADEIRA, Angélica. Nilce Eiko e os Signos, publicado no catálogo Nilce Eiko Hanashiro: Antologia, 2019).


Hanashiro mostra que o véu não é puro e que todos temos nossas perversões e fetiches. Ela nos traz uma realidade que só acontece dentro dos nossos próprios quartos: quando o corpo se aquieta e a única coisa que resta é olhar para si, ver o que se esconde e desvendar o motivo do mistério.


AS RAÍZES


Nilce Eiko Hanashiro era descendente de japoneses. Seu pai veio de Okinawa para o Brasil quando tinha 18, trabalhou durante dois anos e logo foi morar com os seus irmãos; casou e desse casamento, Nilce nasceu. Vivendo com japoneses, a artista traz elementos para suas obras em sua produção principalmente quando ela passa a produzir performances e instalações.


Uma das performances mais icônicas da Nilce é intitulada Luvas. A performance consiste em manusear objetos com luvas nas mãos, entre eles velas, pregos, plásticos, livros, bandeiras, prendedores de roupa, fotos de Jesus e Maria, moedas, cebolas e outros. Nilce faz um longa série, mas o que chama atenção nessa performance, é quando ela tira uma foto sem luvas.


Figura 3: Sem Título. Nilce Eiko Hanashiro/divulgação

A artista propõe o contato distante com esses objetos, pois o toque não acontece. A face da artista está coberta por um pano e suas mãos usam luvas, assim os corações que ela segura não são totalmente vistos e nem tocados por ela, mas Nilce muda em determinado momento, quando ela resolve tocar seu objeto, o leque japonês é o único objeto dessa série que sente sua mão. Todas as fotos dessa performance foram feitas na primeira metade dos anos 2000 e a única fotografia sem luvas é justamente a que ela segura o leque. Sendo proposital ou não, nesta fotografia é possível entender que a artista traz sua ancestralidade japonesa nesse objeto, mas ela busca uma memória que não foi construída. O toque entre a pele e o leque pode representar o encontro entre o passado e a Nilce.


Figura 4: Sem Título, Nilce Eiko Hanashiro

Dessa busca pelo ancestral nasceram algumas obras: a primeira delas foi a sequência de fotos de noivos japoneses e nisseis. Seguindo sua produção em busca da ancestralidade, nos deparamos com “Os Sabonetes”, obras que são fotos mergulhadas em parafina - quando a parafina esfria, ela endurece, e a foto fica ali dentro, como uma memória sólida e enterrada. As fotos eram de vários japoneses posando, mas os registros não foram conservados, pois os produtos químicos corroem o papel fotográfico. O sabonete já é algo efêmero e Nilce, talvez, soubesse que os produtos iriam corroer as fotos que ali estavam. Portanto, este trabalho imprime o que a memória é: efêmera. Essas fotos se corroem, a memória se dilui e no fim, esquecemos de coisas que pareciam ser importantes.


Figura 5: Sabonete

Chegamos então em seu trabalho incompleto: as fotos 3x4 de japoneses que ela coletou e colocou dentro de um envelope. Não se sabe o que Nilce queria fazer com elas, mas de qualquer maneira, seria algo impecável e grandioso. O que se mostra na sequência dessas fotos são pessoas como ela, com as mesmas origens em comum, com ou sem vincular familiar, em fotografias que o tempo preservou.


Nilce contemplou durante muito tempo suas origens, suas raízes, mas também contemplou quem ela era no presente momento em que produzia essas obras. Nilce era muitas e o mundo sempre a respondeu positivamente.


No fim, Nilce Eiko Hanashiro viu o cenário de artes visuais de Brasília ser construído, viu Brasília ser construída. Nilce fez de sua jornada uma incrível exposição sobre dar atenção ao cotidiano, mas também criar sob ele como um pintor faz com a tela em branco, sobre ser o que é e não negar suas raízes, pois elas também fazem parte de quem somos. Eiko Hanashiro deixou sua história registrada no tempo. Contudo, é um tempo que não consegue prendê-la, pois Nilce é livre, ela não colocou limites para si ou para sua obra, e o tempo não lhe é um problema.


Figura 7: série de fotos 3x4 encontradas dentro de um envelope.

Nilce tem suas mitologias individuais, como Fernando Cocchiarale afirma em seu texto para o catálogo Antologia. Nilce coloca ironia e humor em suas produções, mas também utiliza o que tem para criar arte política, afinal seus temas não são simples. Imigração, corpo feminino e sexualidade são temas tão atuais quanto nos anos passados em que Nilce produziu essas obras.


Nilce foi mulher, foi artista, japonesa, brasileira e ocupou seu lugar no mundo, um lugar que sempre foi dela.


 

¹ A palavra candango é utilizada para designar os primeiros habitantes de Brasília.

² Linha do Céu, Nilce Eiko Hanashiro, in: https://www.youtube.com/watch?v=fiuqUC8ymcQ

³ “São mitologias formadas com base na tensão entre a grande ordem intelectualmente estabelecida pela história e pelas teorias da arte e a suposta desordem provocada por idiossincrasias pessoais dos artistas que os textos críticos tendem a ignorar” COCCHIARALE, Fernando, Nilce Eiko Hanashiro: Intensidades, publicado em: Nilce Eiko Hanashiro: Antologia, 2019.

⁴ Região/subregião de Brasíia


 

REFERÊNCIAS:


- COHEN, Renato, Performance como Linguagem. Editora Perspectiva,2002.

- DIDI-HUBERMAN, Georges. A História da Arte como Disciplina Anacrônica: Diante da Imagem: diante do Tempo. In: DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do Tempo: História da Arte e Anacronismo das Imagens. Páris: Les Éditions de Minuit, 2000.

- FIADEIRO, João; EUGÉNIO, Fernanda. O Encontro é Uma Ferida. [S. l.: s. n.], 2012.

- HANASHIRO, Nilce Eiko. A Linha do Céu. 2006.

- LE GOFF, Jacques. História e Memória. Editora Unicamp, 2008.

- MENEZES, Glastone Machado de, Nilce Eiko Hanashiro: Antologia. Brasília, 2019.


IMAGENS:


- Figura 1: Sem Título. Desenho. Nilce Eiko Hanashiro. Fonte: http://blocodenotaserabiscos.blogspot.com/2015/12/duas-mulheres-duas-artistas-uma-saudade.html

- FIGURAS 5, 6 E 7: fonte: MENEZES, Glastone Machado de, Nilce Eiko Hanashiro: Antologia. Brasília, 2019.


 

Esse texto faz parte de A TELA INQUIETA, a 4ª edição da Revista Singular. Para mais textos clique aquie para conferir mais do trabalho do autor clique abaixo.



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