Jonathan Demme além dos clássicos

Conheça um pouco mais sobre um diretor americano que sabia dosar o que o estúdio demandava dele com uma criatividade autoral que poucos ousavam ter.



Inaugurando um quadro novo aqui na Cine-Stylo, venho com a proposta de revitalizar carreiras de cineastas que ficaram famosos por um ou dois trabalhos, mas cuja veia autoral, a essência de sua obra, está em outros, menos conhecidos do público em geral. É uma sequência do projeto que venho tocando em minha página pessoal (@filmegrafando), onde faço o público mais novo ter acesso a filmes que normalmente não procuraria sem a ajuda da internet.


No caso do cineasta Jonathan Demme, mesmo que seus filmes tenham apelo popular, ele foi realmente comentado no mainstream durante a década de 90, com filmes indicados ao Oscar, estrelados por grandes nomes, como “Filadélfia” e “O Silêncio dos Inocentes”. Seus filmes anteriores, que serão abordados aqui, geralmente eram estrelados por atores e atrizes cuja carreira quase sempre aponta para a inconstância. Vamos aos filmes essenciais para conhecê-lo, indo além dos clássicos:



Stop Making Sense (1984)


Ao longo dos anos 80, Jonathan Demme demonstrou um interesse natural em filmar a noção de movimento e as interferências que essa escolha acarretava em suas tramas. Suas personagens sempre iam de lugar a outro buscando algum tipo de destino, cruzavam as fronteiras entre os seus desejos e o que a vida podia oferecer a elas. Não à toa, seus filmes desse período não apenas possuem uma trilha sonora recheada, como são musicados, porque o ritmo que envolve a narrativa é constante.


Tendo um bom ouvido pop, treinado para identificar aquilo que tem energia capaz de sustentar as motivações de seus protagonistas, em 1985 ele resolveu dirigir um filme-concerto dos Talking Heads, que nada mais é do que uma fusão de individualidades que, somadas, forma, mais do que uma banda, um senso de coletividade, que sempre fez da diferença, sua maior força, sua maior união. Um descontraído David Byrne entra no palco e começa a tocar, de um jeito desengonçado, mas característico, o mega-hit “Psycho Killer”. Seus movimentos ocupam todo o espaço cênico. São suas mãos que efetivamente tocam o instrumento, mas é seu corpo que está se expressando com a plateia. É como se cada uma daquelas notas que ele tocasse absorvesse o calor, a energia que ele emana. É quase como se a música, ali, em sua forma mais simples, tomasse conta de todo o ambiente. Um homem se contorcendo todo para ficar em pé e ainda assim mantendo uma postura digna de aplausos, sem nunca deixar de segurar o violão.


Quando os outros membros aparecem, o equilíbrio vai sendo estabelecido, mas a sensação é a mesma de antes: eles usam uma parte do corpo para tocar, mas cada passo, cada marca que eles deixam naquele palco, é uma performance nova, que se renova a cada música. Quem disse que o cantor, quando está em um show, não vira ator? Saber conviver com os limites físicos do espaço sem ser consumido por ele é o grande desafio do artista, afinal. Byrne e companhia podem até balançar, mas nunca caem. Que bom que existe a câmera e a percepção de Demme para, respectivamente, filmar e registrar tudo aquilo que ocorre, sem interferir no saldo final do espetáculo. O diretor amplia o campo de visão do público de um show tradicional, e ao acrescentar doses de apuro técnico, uma explosão de cores e luzes, que se unem à ocupação natural daquele espaço, Demme faz um cinema de encaixe, em que cada música tem algo a dizer sobre a construção narrativa desse espetáculo.



Totalmente Selvagem (1986)


Aqui, Demme começava a preparar território para seu próximo filme, e começava a mesclar gêneros e apostar em um hibridismo que dava dinamismo à trama. Estrelado por Jeff Daniels, como Charlie, um típico yuppie, homem engravatado amarrado às suas próprias convicções, muito acostumado com seu próprio universo para questioná-lo, e Melanie Griffith, como Audrey, uma forasteira com um grande senso de rebeldia que o faz enxergar outro lado da vida, o filme aposta na diversidade étnica e cultural, com trilha sonora de reggae, música ao vivo da banda geek The Feelies e canções com autoria do próprio David Byrne e um grau de otimismo super espontâneo que era difícil ver no cinema americano, sem que se forçasse essa impressão. É bem visível que o filme influenciou e foi influenciado na mesma medida.


Dá para sentir um misto de “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, que foi lançado antes, porque, acima do lado cômico, essa é uma aventura cujos rumos estão sempre nas mãos do diretor, porque nunca sabemos até onde pegaremos carona com as personagens, mas também de “Amor à Queima-Roupa”, de Tony Scott, lançado depois, porque aquelas duas pessoas, de tanto tempo que passam juntas, acabam de fato se apaixonando, mas isso não as impede de ter que resolver conflitos que perpassam suas intenções e a vontade de estarem juntos. Esses conflitos são encarnados na figura de Ray Liotta, mais uma vez interpretando um homem durão, o típico “bad guy”, que surge para estragar os planos de quem só quer ser feliz. É a partir daí, inclusive, que o que vinha se desenvolvendo como um filme de “amor fora da lei” com toques cômicos e muita diversão, se transforma em um jogo de gato e rato entre o casal e seu obstáculo, ex-namorado da Audrey de Melanie.


O cineasta sempre foi muito amigo de George Armitage, diretor e roteirista de carreira curta, e é facilmente perceptível que esse ecletismo na hora de definir as fronteiras entre um gênero é outro, é uma característica presente nos poucos filmes que seu colega dirigiu, como “O Anjo Assassino” (“Miami Blues”, 1990) e “Matador em Conflito” (Grosse Pointe Blank, 1997), filmes que também têm um lado pop bem escancarado e nunca terminam como começam, sempre estabelecendo um tipo de tensão que é amenizada a princípio.



De Caso com a Máfia (1988)


Esse filme se utiliza da mesma lógica de “Os Bons Companheiros”, mas a inverte. Se lá as mulheres eram donas de casa que, por mais que tivessem momentos de liberdade, acompanhavam seus maridos em festas e fingiam que não sabiam de muita coisa que ocorria pelas sarjetas, aqui elas sabem desde o princípio, e Jonathan Demme não esconde que o cerne da história é a dinâmica doméstica das personagens, as sobras que os "homens da máfia" deixam a quem mora com eles. Torna-se quase impossível se livrar de todos os rastros dessa vida e, além disso, essa omissão gera ciúmes entre as mulheres, como se elas vivessem literalmente à mercê da máfia. Ainda assim, esses homens cheios de si cedem seu protagonismo usual a elas, que estão sempre a par do que está acontecendo e demonstram isso.


A música, seja a composta por David Byrne, eventual colaborador de Demme, que sempre mesclou diferentes ritmos, seja a de outros artistas, muitas vezes tocadas "ao vivo" (como de costume em seus filmes), abrange uma rica diversidade de estilos. Tem até canção cantada em português e participações de Pixies e New Order, mostrando que o diretor adorava passear pelos anos 80 através das tendências sociais e culturais, como já havia demonstrado em “Stop Making Sense” e “Something Wild”.


Com exceção da protagonista de Michelle Pfeiffer e da ponta de Alec Baldwin, todos os outros atores escalados sempre foram alçados ao rótulo de coadjuvantes (Mercedes Ruehl, Oliver Platt, Matthew Modine e Joan Cusack, por exemplo) e conviveram muito bem com isso ao longo da carreira. Aqui, eles parecem muito confortáveis em seus papeis. Os looks também são maravilhosos, bem a cara da década e de tudo aquilo que era tendência na moda. É legal como, em tudo que tinha o dedo do diretor, dos filmes que tiveram ou quase tiveram seu dedo (Miami Blues) aos que dirigiu (Something Wild), a trama se envolvia em gêneros e subgêneros como um organismo vivo, mutável, que absorvia influências de um trabalho para outro. Do meio para o fim, o lado cômico sempre se dissolve na ação, na tensão, e, depois que a bolha estoura, a história volta a explorar o que tem de mais romântico/engraçado/sensível.


Uma curiosidade é que, no crédito final de alguns de seus filmes (incluindo esse), bem no apagar das luzes, lê-se a seguinte frase: “A luta continua”, slogan do Movimento de Independência de Moçambique”. Na maioria das vezes, seu uso estava descontextualizado da história, mas apontava para um lado curioso e ativista do diretor.



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