Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021)

Novo lançamento extrapola as conhecidas barreiras do fan-service e da nostalgia para retomar uma profundeza melodramática dos primeiros filmes do herói.



Desde o florescimento, especialmente na internet, de uma “cultura nerd” que rapidamente tornou-se mainstream e parte da chamada “cultura-pop”, a nostalgia vem sendo um recurso muito presente em grandes produções de Hollywood. Quase toda grande franquia, que já exista há um tempo considerável para conseguir criar um culto ao redor de si, parece querer surfar nessa onda nostálgica. A Disney, que vem formando um monopólio no entretenimento, conhece bem esse recurso: os novos filmes de Star Wars produzidos pelo estúdio pautaram-se muito em todo o legado da franquia original, sendo que o primeiro dos novos, “O Despertar da Força”, é todo um exercício de nostalgia, mais do que um filme que propõe um novo olhar sobre a saga.


Da nostalgia a autorreferência (como é o caso dos últimos filmes dos Vingadores, que deslizam sob todo o legado do Universo Cinematográfico Marvel que havia sido construído até então), a Disney entende bem a demanda de um público que cresceu nos anos 90 e início dos 2000, e que busca os sentimentos que vivenciou em sua infância com os quadrinhos e com os primeiros filmes de super-herói. Sabendo disso, e do recente sucesso de “Homem Aranha: no Aranhaverso”, não é nenhuma surpresa que, desde a campanha de marketing, este novo filme do Aranha vem apostando no recurso nostálgico do retorno de personagens das franquias anteriores do herói. Porém, a questão é que a nostalgia é um recurso fácil, pois basta recorrer a imagens já amadas pelo público para incendiá-lo com êxtase ao revê-las. Então, a grande pergunta é: consegue o mais recente filme da Marvel demonstrar méritos cinematográficos próprios, que vão além do puro regozijo do público com a volta de velhos personagens conhecidos e amados?


Acredito que a primeira forma de responder essa dúvida é olhando para a articulação dramática do filme. Pois, é comum, como no último filme de Star Wars (A Ascensão de Skywalker), que o recurso nostálgico esconda uma estória fraca e sem consequências reais dos atos de suas personagens. Este novo filme do Teioso já inicia reverberando as consequência de seu antecessor, com o mundo todo descobrindo que Peter Parker é o Homem-Aranha. Daí em diante, o drama do filme recupera uma das virtudes dos primeiros filmes do herói, dirigidos por Sam Raimi: toda decisão de Peter tem consequências marcantes. Assim como no primeiro filme de 2002, este demonstra por sua estrutura de causa e consequência a famosa frase “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Pode parecer óbvio, visto que uma estrutura de história assim é comum em filmes mainstream; porém, é algo que não aparecia nos títulos anteriores da personagem sob tutela da Disney - e seria até fácil dessa vez criar um filme sem consequências, apostando apenas no fan-service.



Além disso, outra virtude que esta nova obra recupera em relação aos primeiros filmes, são os códigos do melodrama: acredito que Homem-Aranha 2 (de Sam Raimi), seja um dos grandes melodramas da Hollywood contemporânea. E este novo filme recupera uma verdade e profundeza melodramática, que consegue ultrapassar o racionalismo comum da Marvel (o estilo debochado das piadas nos filmes, a recusa à fantasia em prol da explicação cientificista de tudo), e entrar tanto na fantasia quanto na explosão emocional que não recua com alguma piadinha debochada que é costume dos filmes do estúdio. Assim, aliando consequências reais e sensíveis resultantes dos atos do protagonista junto à manifestação emocional sincera de suas personagens, o filme vai transformando eventos que seriam simples fan-service em potência dramática para sua estória. Um exemplo é a retomada da frase “com grandes poderes vem grandes responsabilidades” por uma personagem de peso, que é muito mais do que um simples retorno nostálgico fácil, mas sim parte fundamental da jornada desse novo Homem-Aranha, que ainda não havia descoberto o que os Aranhas mais velhos que ele puderam compreender.


A chegada desses velhos Homem-Aranhas, inclusive, que se apropria do fan-service para reforçar o mito em torno do herói que protagoniza o filme. Se em um filme como “No Tempo das Diligências”, de John Ford, o famosíssimo ator John Wayne é filmado de frente e como uma figura simbólica, visto que sua imagem já havia se tornado arquetípica, a entrada de Tobey Maguire, Andrew Garfield e os vilões de filmes anteriores funciona de forma parecida: não são apenas as personagens “Peter-Parker”, mas sim imagens que vemos ali, imagens que mais do que puro fan-service, reforçam (ao utilizar tais personagens como “mentores” do mais jovem Homem-Aranha) a aura mitológica do herói como um mito que inspira aqueles que o conhecem - da mesma forma que esses Aranhas inspiram o jovem Peter (Tom Holland). Ao utilizar tais atores como imagens arquetípicas, o filme consegue, de maneira surpreendente, ultrapassar as barreiras fáceis e empobrecedoras do fan-service.


Seria, porém, inadequado dizer que “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” não utiliza do fan-service e da nostalgia de forma gratuita. Porque, de fato, utiliza, e acaba sendo prejudicado por isso em determinados momentos. Não só o constante apelo a atacar facilmente os sentimentos de um público que busca recriar o que viveu em sua infância, mas também as decisões narrativas fáceis, acabam empobrecendo o longa. É, de fato, um filme exatamente como os fãs gostariam de ver. Na sessão em que eu estava, um grupo de adolescentes atrás de mim chegou a comentar “nós acertamos tudo, tudo o que a gente falou que ia acontecer, aconteceu.” E é isso mesmo, a Disney sabe bem o que o público quer, e sabe entregar esses biscoitos. Porém, apesar de uma fragilidade ao curvar sua história às demandas de um público (e não à decisões artísticas sinceras), justamente por não recusar a potência melodramática que o herói tem, o filme consegue sustentar muito bem toda a sua narrativa. Ainda mais porque, pela primeira vez, parece que vemos, aqui, um filme do Aranha que interessa-se mais por seus dramas pessoais do que por apenas criar um espetáculo de efeitos visuais.



Ainda assim, o espetáculo é muito importante aqui: todo o retorno desses personagens nostálgicos é uma forma de espetacularização do filme. E, de certa maneira, isso acaba gerando mais um dos problemas da obra: o peso narrativo a partir do espaço de cada cena costuma ser reduzido à tela verde e à “bonecos” lutando sobre ela. O efeito disso é que, enquanto por um lado o filme assume-se um melodrama genuinamente interessante, por outro, recusa dar o mesmo peso que um filme como Homem-Aranha 2 dava às batalhas e a sua concretização em um espaço verdadeiramente dinâmico e perigoso (como é o caso do primeiro filme, de 2002, com a batalha contra o Duende-Verde em um prédio aos pedaços, ou como no segundo filme, de 2004, em que o espaço destruído por Octopus em sua ganância é um elemento de perigo constante e potencializador da ação). Aqui, a batalha final ocorre em um monumento genérico com uma referência solta ao Universo Cinematográfico Marvel (o escudo do Capitão América).


Apesar disso tudo, o uso do CGI em determinados momentos é ótimo para a potencialização da fantasia do filme. Todos os Peter, quando vestidos como o Homem-Aranha, adquirem essa plástica maleável que remete a uma animação, especialmente em suas cores mais vibrantes. O filme todo tem um aspecto muito mais lúdico em suas decisões estéticas do que os seus anteriores (e ainda mais em relação aos outros filmes do estúdio). É, assim como todos os códigos do melodrama e as consequências sérias e emocionantes da estória, surpreendente ver como o diretor Jon Watts remete à fantasia que Sam Raimi abraçava em seus filmes do super-herói.


“Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” é um filme que recupera virtudes dos primeiros filmes do Teioso, bem como utiliza de sua potência arquetípica para fundamentar o mito de amadurecimento do herói a partir de seu legado, ultrapassando as barreiras conhecidas e vazias do fan-service e da nostalgia. É, apesar de seus problemas ao buscar o espetáculo vago dos bonecos no fundo de CGI e de não conseguir largar o osso da “fórmula Marvel” (que insiste em inserir piadinhas forçadas a cada instante, sendo Ned o personagem mais insuportável nesse sentido), uma bela e agradável surpresa dentre as produções do estúdio.


Nota do crítico:


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