Fragmentos de 2016 (2018)

Adirley Queirós explora um momento de ruptura no cenário político nacional a partir de uma sensibilidade documental muito específica.



É interessante observar a relação entre os dois episódios dessa nova produção de Adirley Queirós a partir dos primeiros e dos últimos minutos de ambos. Os dois iniciam-se apresentando uma realidade provavelmente distante do espectador, mas que invade o lugar seguro de quem assiste ao filme através do olhar penetrante de Adirley. No primeiro episódio, somos não apenas convidados a conhecer o cotidiano de militantes camponeses do MST, como somos já de cara confrontados com o olhar cru para uma galinha sendo degolada. O choque com essa imagem ocorre para o espectador, mas é parte do dia a dia do homem que a esfola. É o choque da entrada em um outro mundo, e uma breve apresentação do que será esse primeiro episódio: o retrato cotidiano de camponeses que lutam pelo acesso à terras. Dos pequenos perrengues que a militância enfrenta, como o atraso do ônibus que os leva à manifestação, até a confraternização de crianças ao fim do filme.


A poética de Adirley, aqui, faz-se não pela neutralidade, pois seu filme é perfeitamente parcial, mas pelo realismo cinematográfico. É como André Bazin já definiu quanto ao realismo na arte: “[seu resultado é] obrigar o espírito a tomar partido sem trapacear com os seres e as coisas”. O olhar de Adirley para aquela realidade é poético pelo uso criativo da autoridade fotográfica, da capacidade intrínseca ao cinema de parecer sempre “real”, de que cada imagem ressoe como fato absoluto, visto que são capturas diretas da realidade. Adirley trabalha ainda com uma característica própria do chamado “cinema-verdade”, a partir da consciência de seu olhar sobre aquele mundo. Embora não vejamos a equipe de filmagem, estamos sempre sendo lembrados de que há alguém filmando, observando aquele mundo através de uma câmera (o comportamento de alguns militantes, um pouco desconfortáveis percebendo o equipamento de filmagem, bem como uma criança na última cena mencionando que nunca foi filmada, são exemplos). A aproximação com códigos do cinema-verdade é outra maneira que o diretor utiliza para alcançar o senso de verdade do realismo cinematográfico.


Porém, é fundamental lembrar que cinema é narrativa, e uma narrativa é um recorte (inevitavelmente tendencioso) da realidade. Portanto, há também uma elaboração de mise-en-scène que lida com o acaso das situações documentais para construir um discurso coeso do início ao fim. É aí que podemos analisar o último plano do primeiro episódio: ao longo de todos os seus 26 minutos de duração, a partir do retrato do que foram os momentos decisivos do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a narrativa de Adirley parte da esperança da construção de uma nova realidade quando vemos os camponeses se organizando; até o desânimo com os perrengues que enfrentam (como o atraso no ônibus); passando por uma iminência trágica no momento em que filma os militantes assistindo à votação do impeachment (uma espécie de anunciação de tragédia digna dos gregos); encerrando-se novamente com a esperança, depositada na confraternização das crianças do MST, que são filmadas unidas como um coletivo enquanto entoam o hino do movimento. Assim encerra-se o primeiro episódio: com a esperança ultrapassando o senso de tragédia que antes reinava. No último plano, as crianças - símbolos de uma nova geração que pode construir novos caminhos para a luta popular. Vem, então, o segundo episódio.


A segunda parte desta produção já tem, em sua primeira cena, o rompimento com a esperança perpetuada no final do episódio anterior. É uma ruptura que se relaciona de forma muito sensível com o discurso que o filme busca construir quanto ao rompimento democrático a partir do impeachment da presidenta e, com isso, o fim da esperança de um país construído pela ação popular. O segundo episódio é também um rompimento geral com a unidade estilística do anterior, visto que, agora, Adirley abre espaço ao lugar - que muito já explorou - da mistura entre “realidade” e ficção; pois eventos factuais são mostrados no filme, ao mesmo tempo que há a criação de cenas fictícias que buscam apresentar a nova conjuntura política do país como distópica, como um estado policial-empresarial guiado pelo absurdo. Tais cenas, como o início do filme, com os apresentadores do programa de rádio colocando máscaras de gás para se proteger, concretizam a iminência de tragédia vista no episódio anterior. Esse último episódio da série documental, diferentemente do anterior, passa a ser guiado não pelo retrato do cotidiano militante, mas por uma espécie de construção épica mesmo, de militantes enfrentando um Estado repressivo (as duas cenas de manifestação mostradas nos dois filmes evidenciam bem isso - na primeira, tudo é mais pacato, enquanto na segunda há o constante pavor com a violência policial). Essa construção épica, porém, jamais foge do caráter documental da obra, aliando, mais uma vez, o discurso do filme a um senso de verdade. Entretanto, há até mesmo um didatismo forte na montagem deste segundo episódio, mas que não é necessariamente ruim. Porque, dessa forma, ficam claras as intenções de discurso do filme; não abrindo espaço para “interpretações” espertinhas, de modo que a obra se conclui em um pensamento unificado e direto, que é o que está sendo mostrado.


O último plano sela e representa visualmente o destino trágico do Brasil pós-impeachment. O filme termina tal qual se inicia (com os apresentadores utilizando máscaras de gás enquanto uma bomba é arremessada no estúdio), em um looping aterrorizante e asfixiante. A verdade de uma cena como esta está em seu discurso, não em seu acontecimento. É assim que Adirley Queirós constrói sua narrativa nessa série documental em dois episódios: adquirindo um senso de verdade à suas crenças ideológicas a partir tanto da representação direta da realidade como pela dramatização desta, sempre valendo-se do poder narrativo da autoridade fotográfica e da verossimilhança intrínseca ao cinema com sua capacidade de registrar o real diante da câmera; com uma objetividade quanto às suas intenções que não abre espaço para infinitas interpretações. Objetividade, talvez, seja a palavra de ordem dessa série de Adirley Queirós.


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Sobre o autor - Davi Pieri


Crítico de cinema, diretor de teatro, ator e estudante de Audiovisual na Universidade de Brasília. Transitando entre o pensamento e a prática artística nesse sonho urgente que é a vida.


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