Fragmentado (2016) | O olhar predatório

Este lançamento de 2016 é um filme que explora as possibilidades que surgem pela dinâmica de olhares encontrada no formalismo rigoroso de seu diretor, M. Night Shyamalan



“Fragmentado” orienta-se por uma dinâmica de olhares que lida com a oposição entre a caça e o caçador, tema marcante no filme. Na perspectiva do caçador, a câmera adota um olhar onisciente, voeyurístico, uma posição de poder, que remete diretamente ao personagem vivido por James McAvoy. Do ponto de vista da caça, o olhar é subjetivo, reduzido ao que alguém inserido naquele mundo e submisso às suas circunstâncias é capaz de enxergar. Esse olhar está relacionado à Casey (Anya Taylor Joy), que está em oposição a Kevin (McAvoy). Mas essa dinâmica de caça e caçador será subvertida e ressignificada ao longo da jornada de Casey.


Vejamos: ela vive a experiência como caça ao ser raptada por Kevin. Mas este é um ambiente familiar à menina, que caçava com seu pai e seu tio quando criança. Em seu passado, há mais um detalhe fundamental: os abusos que sofria de seu tio, sugeridos pela sutileza da mise-en-scène de Shyamalan que, para comunicar acontecimentos como esse, pauta-se também no olhar, como gesto simples mas revelador. As sugestões, então, de Casey como caça não se fazem apenas pela situação clara da personagem proposta pelo enredo, mas por manipulações dinâmicas na montagem: como, por exemplo, a sequência em que primeiro vemos, no passado de Casey, ela observando (em ângulo contra-plongée) um cervo morto (em plongée) e, logo depois, corta para ela, já no presente, deitada na cama (em plongée) e Patricia (Kevin/McAvoy) observando-a em (contra-plongée).



Esse é um ponto importante do filme: se Casey conhece tanto a perspectiva da caça como a do caçador, é também o caso de Kevin. Nesse ponto, o trabalho dos dois atores é fundamental: ambos conseguem construir seus personagens na linha entre a vulnerabilidade de caça e a firmeza do caçador. Com destaque para James McAvoy que constrói diversos personagens em um só: tudo em seu corpo e em sua ação interna se modifica — o olhar, a forma de andar, a coluna, a postura, a voz, as imagens interiores da personagem. É extremamente sofisticado encontrar tanta variedade em um único papel e transmiti-la com verdade, mas, como dito, a interpretação de McAvoy só é tão potente no filme pois integra com veracidade e intensidade a relação entre caça e caçador que permeia a obra: a vulnerabilidade que o ator alcança é visível em Hedwig, um personagem, enquanto criança, evidentemente mais vulnerável. Mas, se Dennis parece a oposição para isso — sendo o caçador, firme, duro — não é bem assim. Dennis demonstra sua extrema vulnerabilidade especialmente nas conversas com a doutora, que tocam seu coração. No fim, todas as diferentes personalidades são resultado de traumas de Kevin, surgindo de um lugar delicado. Ao mesmo tempo, são o que transformam-no em caçador. Mais ainda, é interessantíssimo perceber como há toda uma nova qualidade quando o personagem torna-se simplesmente Kevin novamente: surge uma leveza no corpo de McAvoy, um maior respiro para a interpretação, algo que alivia o peso carregado pelas diversas personalidades — peso este que se faz presente enquanto Dennis, Patricia e Hedwig são resultados de fortes traumas.


É aí que, retornando à Casey, encontramos um ponto em comum entre os dois: ambos são vítimas e carregam em si as sequelas do trauma. O que vai diferenciar um do outro e colocá-los em posições opostas é a forma como lidam com o que sofreram: Kevin necessita da destruição, na figura da Fera, para sentir-se protegido; enquanto Casey é uma sobrevivente. No fim, apesar das explicações psicológicas da doutora, a Fera que habita Kevin manifesta-se como um ser sobrenatural e que é, em si, o próprio mal, pois surge da necessidade de destruição. A Fera faz com que Kevin assuma de vez a característica de caçador e, logo, de vilão. Mas não é à Casey que sobra o papel de caça. Pelo contrário, o que ocorre é que, enquanto tenta superar, pela esperteza (tal qual quando caça um animal) seu caçador, nessa postura de sobrevivência, Casey torna-se a heroína: nem precisa destruir os outros para se proteger, nem aceita que a ela seja imposta uma posição submissa. Assim, “Fragmentado” surge como essencialmente um filme de herói contra vilão, fazendo sentido ser parte integrante da trilogia que inicia com “Corpo Fechado”.


Porém, tal conclusão só irá chegar à personagem de Taylor-Joy ao final do filme, após sua jornada de sobrevivência: como já de praxe no cinema do Shyamalan, a protagonista encontra um caminho para lidar com seu trauma através da experiência sobrenatural. Isso fica muito claro, novamente, a partir da sutileza dos olhares, logo ao fim do filme: quando Casey, dentro da viatura, recebe a notícia da policial de que seu tio foi buscá-la, basta um olhar de Anya Taylor-Joy e um contra-plano de outro olhar da policial para que tudo fique claro: a sugestão e esperança final é de que este seja o fim dos abusos de seu tio escroto. Numa espécie de montagem intelectual, logo após esse momento, Shyamalan faz um único plano da estátua no zoológico de um leão submetendo sua presa. Fica visível também como essas sugestões de caça e caçador extrapolam o olhar e manifestam-se de várias formas no filme, como o próprio fato de que eles estavam, esse tempo todo, debaixo de um zoológico (e, claro, que Kevin transforma-se literalmente num animal caçador).



Mas, como mencionei, “Fragmentado” é essencialmente um filme de herói: logo, a oposição caça X caçador passa a fazer mais sentido, ao longo do filme, como uma oposição entre herói X vilão, à medida que Casey vai assumindo seu papel enquanto sobrevivente, recusando adotar um lado na dicotomia de caça (submissa) ou caçadora (destruidora). Assim, Kevin assemelha-se ao vilão de “Corpo Fechado” que aparece ao fim do filme, Mr. Glass: necessita da destruição para sentir-se protegido. Vemos então que não somente pela evidência mais óbvia ao fim do filme é que Shyamalan associa “Fragmentado” a seu primeiro filme da trilogia.


Portanto, “Fragmentado” é um filme de herói vs vilão que se mascara de forma muito eficiente na atmosfera sombria de um terror, mas que, ao mesmo tempo, carrega uma “mensagem” inspiradora na jornada de sua protagonista — que se torna um símbolo heróico: sendo essa importância simbólica do herói enquanto figura de inspiração uma coisa que Shyamalan mostra entender desde “Corpo Fechado”. O filme faz isso através de uma sugestão sofisticada de tipos diferentes de olhares, que chega mesmo a remeter à Hitchcock e seu interesse pela qualidade do olhar da câmera, e que consegue — como já é comum no cinema de Shyamalan — contar uma história com forte tensão e emoção, que não só comunica uma relação intelectual, mas um forte envolvimento sensorial com sua mise-en-scène.


Nota do crítico:


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