Exit Through The Gift Shop

O que é arte agora?


Inerente ao ser humano a necessidade de se expressar através de traços, da arte. Pode-se até fazer um paralelo entre a arte rupestre e a arte de rua, em especial o graffiti. No final dos anos 60, surge um novo movimento na Filadélfia e Nova York, a arte de rua, no qual crianças de bairros marginalizados escreviam em paredes e muros os seus nomes e o número de suas casas. O anseio de se expressar e ocupar espaços, identificar-se com o lugar em que habitavam e viviam. De uma parede para outra, de uma rua para outra, e o movimento ganha forma e ocupa cidades.


Muros se tornam telas para uma nova geração de artistas, como podemos perceber o muro de Berlim, no início dos anos 1980, com críticas políticas e sociais. Segundo o editor de arte da BBC e escritor do livro “Isso é arte?”, Will Gompertz, foi com esses novos artistas não legalmente autorizados da guerrilha visual, que a noção de arte de rua começou a ganhar força. A nova geração usava adesivos, stencil e esculturas para deixar suas marcas, tendo como galeria as ruas, um espaço público, e como “clientes", todos que por ali passavam, gerando sempre uma reflexão sobre o que estava sendo exposto ou apenas sobre a liberdade de expressão daqueles desenhos ou traços.


A arte de rua se transformou no maior movimento de contracultura desde o punk, que com a Internet, junto àsmídias digitais, se divulgou e ganhou popularidade.


Mas será que toda essa arte e expressão tem algum sentido? Há crítica? Isso é arte? Ou é apenas vandalismo?


Essa discussão (acerca do que é arte ou sobre arte) do que é arte, o que traz, seu significado e valor foi o principal objetivo do movimento modernista Dadaísta (1916-1922). Os artistas dadaístas foram responsáveis por desafiar as noções prévias do mérito artístico: menosprezaram o tradicional posto na estética e na expressividade e santidade da própria arte (que se instaurou com maior força com o academicismo do Neoclassicismo). Promoveram a não-estética, o ilógico, propuseram uma conduta irracional, ilógica e desordenada. Para alcançar a beleza e a fama, basta dizer dada. Dizer dada até ficar louco e perder a consciência, pelo menos foi o que disse o poeta Hugo Ball no manifesto Dadaísta.

Desde as vanguardas modernistas, o significado das artes foi mudado, como dito (muito bem exposto) no livro "A Definição da Arte", de Umberto Eco, o artista contemporâneo comporta-se como revolucionário: destrói completamente a ordem que lhe foi entregue e propõe outra.



Dentro dessa arte nova, dessa arte agora, surgiu o artista britânico Banksy, conhecido mundialmente por seus graffitis, que transbordam críticas aos valores de nossa sociedade. Até então, esse artista tem sua identidade desconhecida, mas seus trabalhos apresentam uma unidade, sendo fácil identificar suas obras, geralmente produzidas com a técnica de stencil. Em suas obras, o artista além de pintar figuras irônicas e frases de efeito em pares e prédios, traz mensagens carregadas de conteúdo social e político. Ter sua identidade desconhecida é um dos fatores que mais traz visibilidade ao seu trabalho, tratando-se de outra ironia proposta pelo mesmo, atraindo mais e mais admiradores.


Em 2010, Banksy lançou o documentário “Exit Through The Gift Shop”, que conta a história de Thierry Guetta, um francês morando em Los Angeles que viria a se tornar um sucesso no mundo (e mercado) de arte. Thierry Guetta tinha uma loja de roupas em Los Angeles, onde morava com a mulher e os filhos. Bastante fascinado com filmadoras, Thierry não saia de casa sem que estive portando uma, estava sempre gravando a tudo e a todos, atitude essa, que foi se tornando uma obsessão. Mas nunca gravava mais do que cenas pacatas do seu cotidiano e dos que o cercava.


O francês era um homem com uma câmera na mão, possuía uma constante necessidade de registrar tudo que vivenciava e via. Até que resolveu gravar a produção de arte de seu primo, conhecido pelo pseudônimo de Space Invader. Este artista viria a se tornar um dos protagonistas no novo movimento Arte de Rua. Guetta achava toda aquela criação muito interessante, a ideia de uma forma de expressão de cunho artístico que se tonaria visível nas ruas, um lugar onde todos passam e podem ver esses trabalhos. Com o contato do seu primo, Thierry pode conhecer e conviver com diversos artistas, se inserindo naquele mundo da Arte de Rua.


Através desses contatos, conheceu o artista Shepard Fairey, autor de “Obama Hope” e “Obey”. A partir desse momento, Thierry passa a acompanhar todos os passos de Shepard, indo do seu processo criativo até a aplicação de suas criações nas ruas de Los Angeles.



Encantado com o conteúdo que produzia, Thierry decide fazer um documentário sobre a Arte de Rua, a qualestava no caminho de se tornar a expressão autêntica do nascimento de um movimento, protagonizado pelas maiores figuras dessa área da arte no mundo, cujos artistas Thierry Guetta passou a ter contato e produzir suas gravações.


Mas, havia um artista que ele não tinha nem imagens nem conhecimento, apenas sabia de suas obras e seu impacto no mundo. Com criações bastante conhecidas e um criador com sua identidade anônima, Thierry passou a procurar alguma forma de conhecer e registar um pouco do trabalho de Banksy.


Em 2006, na cidade de Los Angeles, o esperado encontro entre Thierry e Banksy aconteceu. O artista de identidade anônima estava a procura de bons lugares para expor sua arte, como Thierry tinha bons contatos e conhecia os pontos estratégicos para grafitar na cidade, eles foram apresentados. Logo, Guetta já interessado em também registar o trabalho de Banksy, passa a dar a assistência necessária durante a estada e a ajudar em seu trabalho, levando aos lugares, auxiliando na montagem da obra, e aproveitando para gravar tudo que acontecia, deixando sempre a identidade do artista oculta.


Banksy convida o francês para visitar a Inglaterra e conhecer seu estúdio, sua produção e execução. Quando volta para Los Angeles, Guetta pede para que alguns amigos artistas produzam um desenho dele com sua câmera. Com um resultado que o agradou, resolveu imprimir os desenhos em um tom preto com o fundo branco, com o design que se assemelhava bastante ao stencil. Gostou do resultado e resolveu colar por toda cidade, em diversos tamanhos, assim como havia aprendido com os artistas de rua que conhecera.



No mesmo ano, Banksy volta a Los Angeles para sua primeira exposição nos Estados Unidos, intitulada “Barely Legal”. Pela fama que o artista britânico possuía, a exposição atraiu um enorme público, que incluía personalidades famosas como Brad Pitt, Angelina Jolie e Jude Law, o que teve grande consequência no mundo da arte de rua, colocando-a em destaque e passando a atrair a atenção do establishment da arte, disparando os preços dessas obras. A arte de rua estava se tornando mercadoria de luxo, grandes galerias e colecionadores de arte também queriam possuir alguma peça.


A arte de rua não foi criada para estar inserida no mercado de arte, e sim, para que qualquer um pudesse expor suas criações em um espaço público, de modo que toda a sociedade tivesse acesso a essas obras. Banksy percebeu que essa arte estava seguindo outro caminho, já que não deveria se concentrar nas vendas e no dinheiro. Sendo assim, resolve pedir que Thierry lançasse seu filme.


A verdade é que não havia documentário nenhum, o “cineasta” francês apenas gravava o que via, estava acumulando fitas e mais fitas em Los Angeles. Thierry filmava tudo, sem critério ou seleção, e depois simplesmente guardava as fitas em enormes caixas. Em um processo contínuo, de 6 meses, Guetta transformou anos de gravações de artistas de rua em 90 minutos, no documentário que intitulou de “Controle Remoto da Vida”.


Em Londres, mostra a Banksy o trabalho concluído, todos os registos selecionados e editados. O artista britânico analisa e percebe que Thierry não era cineasta, não tinha noções de montagem e edição. Havia produzido um conteúdo sem sentido, repleto de cenas com muito movimento e ação soltas, sem nenhuma história. Banksy então, sugere que Guetta voltasse para Los Angeles e tentasse produzir arte, e também, que organizasse uma exposição com o que foi criado, e deixasse as fitas em Londres.


Thierry segue a sugestão do grande artista, entretanto, se anima com a ideia e leva a uma outra escala. Nasce Mr. Brainwash (lavagem cerebral), que é Guetta enquanto artista. Antes de iniciar seus trabalhos, vê essa nova fase com a certeza de um sucesso, passando a produzir em escala industrial. Hipoteca sua casa e investe todo seu dinheiro em um estúdio de qualidade e em uma grande equipe. Gostando do resultando que produzia, resolve montar uma exposição no coração de Hollywood, intitulada “Life is beautiful”.


Durante a produção da exposição, Thierry sofre um acidente, quebra o pé e passa a tomar analgésicos. Como forma de ajuda, Banksy chama uma equipe para acompanhar a parte logística, como o produtor Roger Gastman. Thierry aproveitou para pedir que Banksy e Shepard divulgassem a sua exposição.


O anúncio feito por estes dois grandes artistas, chamou a atenção da revista L.A. Weekly, que resolveu fazer uma matéria sobre o novo artista que surgia, Mr. Brainwash. Além disso, propôs com Thierry que os 200 primeiros a visitarem a exposição ganhariam obras exclusivas.


A exposição foi um sucesso, tendo uma fila de mais de 2000 pessoas. O evento, que duraria 5 dias, se estendeu ao longo de 2 meses, acompanhado de venda constante das obras, que gerou para Thierry um lucro que envolveu milhões de dólares. Suas obras agora estavam nas grandes galerias de arte no mundo, de Miami a Nova York, de Londres a Pequim, sendo inclusive o artista responsável pela produção da capa da coletânea da Madonna, Madonna Celebration, 2009.



“Não sei que significado tem o sucesso do Thierry no mundo da arte. Talvez o Thierry seja mesmo um gênio. Ou talvez teve sorte. Ou talvez signifique que a arte é um pouco uma piada”. - Banksy


"Exit Through The Gift Shop" traz essa reflexão sobre o que é arte, o que a sociedade considera arte, quem é artista e o local de pertencimento da arte (seja rua ou galeria). Mas será que toda essa obra não teria sido uma piada de Banksy? Essa foi a principal especulação na época, e continua até os dias de hoje. O artista teria criado uma história? Um roteiro para mostrar que a arte ganhou outro significado? Seria “Exit Through The Gift Shop” um mockumentary?



Durante o documentário, diversos artistas comentam que as obras de Thierry não tinham nenhuma unidade, ou até identidade. Uma mistura de épocas e artistas que agradassem a Guetta. É notável a enorme influência, muitas vezes chegando ao plágio de artistas como Banksy e Andy Warhol.


Outra discussão é proposta: depois de tantos anos, de muita história, ainda é possível ser original na arte? Será que atualmente as obras não são apenas releituras ou novas interpretações em cima da arte que já foi produzida?


As obras de MBW (Mr. Brainwash) seriam o exemplo perfeito disso: um leigo que percebeu o que agradava o público, usando uma repetição exagerada, como na “releitura" do quadro "Díptico de Marilyn", 1962, do artista Andy Warhol. Notar o que atraia a atenção do público e do mercado de arte seria o negócio perfeito. E foi perfeito para Thierry, que comenta como é deslumbrante ver que um simples spray sobre uma imagem pode fazer a mesma custar $12.000 ou 18.000 dólares, sem que se tenha tido um esforço criativo ou técnico.


“Ele fazia lembrar o Andy Warhol, de certa forma, ao repetir ícones famosos, até se tornarem insignificantes. Mas era extremamente icônico, na maneira como o fazia. Mas os do Thierry os torna mesmo insignificantes.” - Banksy



A Pop Art surge como uma crítica e reflexão sobre a sociedade de consumo, usando muitas vezes a técnica e estratégia da repetição. Nesse movimento, a obra de arte se torna fria, com uma “ausência” da mão do artista, afirma Will Gompertz. Repete e se reproduz tal qual a indústria e a publicidade moderna, criam-se marcas.

“Warhol está também contestando a convenção de que a arte deve ser original. Sua similaridade vai contra as tradições do mercado da arte, que atribui valor – financeiro e artístico – à raridade e unicidade percebidas. A decisão de Warhol de não criar seu próprio estilo gráfico, mas imitar o das latas de sopa Campbell, tem uma dimensão social e política.” – Will Gompertz

Talvez tenha acontecido com Thierry Guetta o mesmo que com Andy Warhol. Escolheu a sociedade de consumo como tema, debatendo e promovendo uma reflexão sobre produto, marcas e sociedade, que no final, o próprio artista se tornou seu objeto de estudo, transformou-se em uma marca. Agora, podemos “comprar um Warhol”, ou “um Mr. Brainwash”.

“Penso que todo o fenômeno do Thierry, a sua obsessão com a arte de rua, tornando-se um artista de rua, um bando de idiotas indo ao espetáculo, ele vendendo muitas obras caras, muito rapidamente... Antropológica e socialmente é uma coisa fascinante de se analisar, e talvez possamos aprender alguma coisa com isso” - Shepard Fairey

O fenômeno Mr. Brainwash pode ser uma conclusão de Banksy quanto a visão das pessoas sobre arte de rua. A recepção do público e o interesse do mercado de arte foram os responsáveis pelo novo caminho que a arte de rua tomou, justamente o que critica o documentário. A arte de rua não se tratava de dinheiro nem de fama. Agora, essa arte, ironicamente, havia se tornado mercadoria de luxo.


Muitos podem ver esse interesse do mercado de arte como positivo, mas Banksy mostra o contrário com sua obra. O significado de arte de rua havia sido deturpado, alterando até seu local de exposição, as ruas, essa galeria ao ar livre que aproximava o público da obra, e consequentemente, o público do artista. Em uma galeria, esse elo é quebrado, o interesse na obra está centrado em outros significados, que acabam por ser mais pessoais e individuais, uma vez que, a compra da arte é possível, e deixa de pertencer às ruas.



Com o desenvolvimento do documentário, é possível perceber que o objetivo de Banksy é gerar uma reflexão sobre a arte, o seu significado e sua classificação, assim como mostrar a história de Thierry Guetta, sendo esse seu personagem principal e exemplo sobre o sucesso na arte contemporânea, juntamente com o surgimento de Mr. Brainwash (MBW).


Em um determinado momento, Banksy comenta se Mr. Brainwash não teria tido sorte para alcançar esse sucesso, já que estava no ambiente certo com bons contatos, se não teria sido um génio desde o princípio, ou talvez, o fenômeno Mr. Brainwash signifique que a arte é uma piada, qualquer um seria capaz de fazer, não precisando estudar, ter conhecimento.


“Não acho que Thierry tenha jogado segundo as ‘regras’. Mas aparentemente, não é para haver regras”. - Banksy


Com essa história, o artista de identidade desconhecida nos faz refletir, para se criar arte precisa seguir regras?


Esse questionamento remete ao que Kandinsky diz no livro "Do espiritual na arte”, o artista deve ter alguma coisa a dizer. Sua tarefa não consiste em dominar a forma e sim em adaptar essa forma a seu conteúdo. "O artista não é um indivíduo sortudo, a quem tudo sai bem sem esforço. Ele não tem o direito de viver sem deveres”.


Com essa conclusão, nos remetemos à ideia de beleza que foi rompida no modernismo e deu mais liberdade ao artista, sendo interpretada pela sociedade muitas vezes como “algo que qualquer um pode criar”, já que não se tem mais uma valorização exacerbada com a técnica. É belo o que provém de uma necessidade interior da alma. O artista não trabalha para merecer louvores e admiração, ou para evitar a reprovação e o ódio, mas, sim, obedecendo à voz que o dirige com autoridade, à voz que é a dos mestres perante o qual se deve inclinar, de quem é escravo, essa necessidade da alma, do espiritual, diz Kandinsky.


Outro ponto relevante desta obra, e, inclusive, já mencionado anteriormente, refere-se à valorização que o público dá às obras, o que a sociedade julga belo e estético durante a interpretação da arte. No livro “A Definição da Arte” de Umberto Eco, tem-se uma questão semelhante à abordada por Banksy, a oposição entre perspectiva pessoal e realidade da obra: este é o problema da estética e trata-se do problema de uma possibilidade de juízo. Assim, percebemos que, diante de uma obra, o mais importante é um processo de interpretação; aquilo que importa é um compreensão crítica, não um juízo de valor expresso em termos dogmáticos e simplistas. Possível notar que a falta de conhecimento sobre a arte e toda sua história vem sendo o principal culpado para a sua não valorização. A ignorância é que deve ser combatida.


Se "Exit Through The Gift Shop" tiver sido um experimento de Banksy, o que se provou? Qualquer um pode ser artista? Essa profissão é uma piada para a sociedade? As regras são importantes para a criação? Tudo é uma questão de sorte?


A questão proposta por Banksy não se generaliza na importância do que é arte e seu valor. Vai bem além disso, porquanto, visa também, perquirir o significado e o destaque que a arte de rua tem na sociedade, se a sensação de ser interessante é igual tanto para aqueles que a admiram quanto para os que a criticam. Assim, a ideia é que, a partir do documentário, seja possível formar um opinião mais consistente, uma vez que, é mostrado os bastidores, desde o processo de projetar, até sua execução.


Seria Mr. Brainwash um projeto de Banksy?



"Banksy nunca mais ajudará alguém a fazer um documentário sobre arte de rua"



Ana Rita Meneses

Estudante de Arquitetura e Urbanismo, querendo ser cinéfila, metida a crítica e apaixonada por cinema, arte e música. Atualmente escrevo para o ULTRAVERSO e sou criadora do Trucagem.