Estranhos no Paraíso - Vivendo Pelo Momento Seguinte

Talvez o filme que melhor representa o senso de deslocamento social e cultural que reflete a obra de Jim Jarmusch, “Estranhos no Paraíso” é um clássico entre seus admiradores.



O cinema de Jim Jarmusch é totalmente tomado pela casualidade. É quase como se ele dissesse a seus atores para que imaginem que estão em um táxi, tendo que puxar assunto com um desconhecido e improvisar lampejos de uma narrativa sobre a sua vida, um recorte de momentos que eles mesmos selecionam, já que cada um controla o que pode extrair do sequenciamento de fatos do dia-a-dia. Ele chegou até a dirigir um filme com essa premissa, “Uma Noite Sobre a Terra”, de 1991.


Em “Estranhos no Paraíso”, além dessa base narrativa, o diretor desenvolve outro mote que ganharia mais força com o passar do tempo: as personagens são emblemas de suas identidades, mas, em sua grande maioria, os protagonistas são pessoas chegando na casa dos 30 anos, e se veem divididos entre abraçar o “sonho americano” ou viver de acordo com suas tradições.


Muitas de suas personagens estão vivenciando momentos inéditos na vida, tendo que se mudar ou passar por rituais de passagem que causam conflitos internos. Elas se deslocam de uma vida de certezas para um horizonte nebuloso e incerto, que as desloca social e culturalmente. Acabam vivendo na fronteira entre a renúncia e a aceitação.



No filme, o foco não é apenas em Eva, uma adolescente húngara que vai para a América (esse é o esquema básico do plot, mas até o final essa tendência vai se invertendo, e são geradas variações), mas também, e principalmente, em seu primo, Willie, que também tem suas raízes húngaras, mas não faz nenhuma viagem de um país a outro (ele sempre está acompanhado do amigo Eddie), porque se sente um cidadão americano desde o início, inclusive ensinando a Eva e ao público como jantar assistindo televisão do jeito mais prático possível nos Estados Unidos. Ele não gosta quando sua tia fala com ele em sua língua nativa, e se aborrece quando tem que traduzir palavras que não sejam diretamente faladas em inglês.


É interessante perceber que Jarmusch parece projetar-se nessas personagens. Afinal, ele sempre fez filmes à sua maneira, raramente quer expandir suas intenções para dialogar com um público maior e é muito relaxado em entrevistas e aparições públicas. Ele parece querer ter seu espaço de conforto, não gosta muito de ser incomodado. Esse conflito de não sentir necessidade de sair do lugar e ter que lidar com indagações e perguntas está na essência de seu cinema.



Willie não apenas rejeita seu legado ao se recusar a falar em húngaro, como, quando Eva chega, a trata como uma outsider, alguém que não se enquadra em seu estilo de vida, quando ela nunca se colocou exatamente nesse lugar. Inclusive, já que eu citei a carreira do cineasta, para quem a acompanha de perto, não há nada mais comum do que sentir a letargia e a repetição de seus filmes, mas, para quem não tem o hábito de vê-los, o sentimento é o de ser conduzido por um organismo estranho.


No caso de Willie, o que ele não percebe é que coloca a si mesmo nesse lugar diariamente, porque opta por não se comprometer com nada nem com ninguém, como se fosse uma pessoa sem encaixe nas regras, nos costumes e nas formalidades fixas da vida. Nesse sentido, é curioso notar que, mesmo que o filme parta de uma encenação, tenha um roteiro e uma estrutura linear, Jim Jarmusch introduz sua obra ao público de uma maneira entrecortada, como se cada cena fosse uma vinheta de momentos que quase se complementam, mas na “hora h”, sempre fica faltando um ingrediente importante: a tradução, dos sentimentos e da linguagem oral.



Individualmente, Willie, Eddie e Eva, com seus nomes genéricos e suas ambições proporcionais ao curto tempo de duração do filme, estão sempre se atravessando. Eles vivem para esperar e esperam para viver. A ação, de fato, se concentra na expectativa. Se um telespectador quisesse saber o que virá depois, talvez uma boa solução fosse voltar o filme ao começo.


O que Jarmusch entende, acima de tudo, é que o tédio é um estado passageiro. Não é uma condição, nem uma escolha derivada de uma oportunidade. Na realidade, todo dia nós somos abatidos por esse sentimento. É natural não saber para onde ir quando não há como correr atrás de respostas do que ainda não aconteceu. Em outras palavras, o tédio só ocorre porque a cada segundo, a cada minuto, a cada hora, estamos esperando por algo, e são raros os momentos em que essa espera se traduz em eventos, em exceções ao padrão de comportamento do dia-a-dia. Na maior parte do tempo, é o fator ordinário que orienta a rotina.


Aqui, não é diferente. Seja apostando em corrida de cavalos, tomando sopa e fingindo gostar, vendo filme de kung fu de maneira forçada ou até se locomovendo de um lugar a outro sem se estabelecer em nenhuma direção, o dia seguinte sempre chega para as personagens, e elas não precisam dormir ou acordar para que sua situação atual mude. Tudo é muito espontâneo, e se comunicar e sentir ao mesmo tempo é uma tarefa que, na maior parte do tempo, vai gerar ruídos. O filme de Jarmusch é uma prova disso, mas a história de um cara, sua prima e seu melhor amigo, convivendo ao acaso em uma viagem de estrada, permanece hilária, melancólica e até mesmo doce, quase 40 anos após seu lançamento.


Lista de favoritos do redator

  1. Embriagado de Amor | Paul Thomas Anderson, 2002

  2. A Felicidade Não Se Compra | Frank Capra, 1946

  3. Deserto Vermelho | Michelangelo Antonioni, 1964

  4. Companheiros: Uma Quase História de Amor | Peter Chan, 1996

  5. Um Corpo Que Cai | Alfred Hitchcock, 1958

  6. Fogo Contra Fogo | Michael Mann, 1995

  7. Jogo de Cena | Eduardo Coutinho, 2007

  8. Um Tiro na Noite | Brian De Palma, 1981

  9. Depois das Horas | Martin Scorsese, 1985

  10. O Funeral das Rosas | Toshio Matsumoto, 1969

  11. O Espírito da Colmeia | Victor Erice, 1973

  12. No Silêncio da Noite | Nicholas Ray, 1950

  13. Certas Mulheres | Kelly Reichardt, 2016

  14. Não Estou Lá | Todd Haynes, 2007

  15. Estranhos No Paraíso | Jim Jarmusch, 1984

  16. Luzes da Cidade | Charlie Chaplin, 1931

  17. Noites de Cabíria | Federico Fellini, 1957

  18. Acossado | Jean-Luc Godard, 1960

  19. Cópia Fiel | Abbas Kiorastami, 2010

  20. Barry Lyndon | Stanley Kubrick, 1975


Esse texto pertence ao nosso especial Favoritos da Cine-Stylo: Uma lista com os filmes prediletos de nossos redatores e 11 textos para discorrer um pouco dessa paixão. Acesse!


 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor: