Especial PTA | O Mestre (2012)

Um mergulho no inconsciente de um corpo que caminha, morto, entre os vivos, ansiando pela realização de seus desejos físicos inalcançáveis.



Tem uma história que conta assim: havia um príncipe que, apaixonado pela princesa de outro reino, prometeu casar-se com ela. Os dois ansiavam pelo casamento com extrema felicidade, até que o príncipe foi convocado para uma guerra que eclodiu. A princesa, angustiada com a partida de seu amado, resolveu que esperaria pelo seu retorno em um acampamento em direção à região na qual o jovem lutava. Ela esperou por incontáveis dias e noites, sem perspectiva do retorno de seu companheiro. Nisso, a princesa conheceu o príncipe de outro reino, que não estava envolvido na guerra, e que vivia próximo ao acampamento da menina. Vendo a jovem sozinha e deprimida, este outro príncipe resolveu fazer companhia para ela. Os dois conversavam durante as antes solitárias noites, enquanto os longos dias começavam a passar num piscar de olhos para a princesa. O príncipe que estava prometido para a princesa, após anos de uma longa guerra, retornou para casa, já um homem maduro, tendo vivido terrores inomináveis. Ele tinha medo de não se reconhecer mais com sua amada, mas sequer teve essa chance: a princesa havia fugido com o príncipe que conhecera e por quem se apaixonara enquanto seu noivo estava na guerra.


Agora, imaginemos que toda essa história ocorre não com nobres, mas com pessoas comuns. Não nos tempos medievais, mas em plena Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, qual seria o resultado de um mergulho na psique do “príncipe” que viveu todos os anos de guerra? É isso o que podemos encontrar em O Mestre (2012), filme dirigido por Paul Thomas Anderson e estrelado por Joaquin Phoenix (quase que antecipando seu papel como Coringa no filme de 2019).


Logo ao início, a primeira referência que surge ao filme é Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Paul Thomas Anderson nos apresenta esse soldado que recém saiu da guerra atormentado e marcado por obsessões, especialmente sexuais. Daí, partimos para o cotidiano de Freddie (Joaquin Phoenix) após a guerra, vivendo como fotógrafo. O primeiro plano no qual vemos Freddie trabalhando por trás de sua câmera revela o que será do filme daí em diante: um retrato do olhar de Freddie, tal qual os que ele faz em seu trabalho. O Mestre é um mergulho no olhar subjetivo da mente atormentada de seu protagonista, tornando o mundo do filme submisso às percepções deturpadas de Freddie Quell, bem como nós, espectadores, reféns de sua narração. Tal qual Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock, e a já citada obra prima de Scorsese, este é um daqueles filmes em que o olhar narrativo pertence ao protagonista, e não a um terceiro olho que observa tudo de maneira distanciada (tal qual em Magnólia, um dos exemplos mais extremos de um narrador onisciente). É, como na literatura, o equivalente ao narrador-personagem, aos livros em primeira pessoa.


Porém, maximizando a experiência de um narrador-protagonista, o que encontra-se em O Mestre é um filme recheado de elementos do inconsciente de Freddie que fazem com que não possamos confiar nos acontecimentos evidenciados em tela. Um dos mais claros exemplos é a cena em que “O Mestre” Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) está cantando enquanto, a partir do ponto de vista de Freddie, enxergamos todas as mulheres da sala nuas, ecoando a obsessão sexual do ex-marinheiro. O próprio simbolismo da água (comumente utilizada como símbolo da profundeza do inconsciente), presente em todo o filme (desde seu momento como marinheiro, até quando é contratado pelo Mestre e também em imagens soltas do mar que vão surgindo ao longo da obra), de certa forma sempre nos remete à presença incontestável do inconsciente de Freddie nas imagens do filme. As próprias construções barrocas dos planos também trazem toda uma carga gráfica onírica e dramática em si mesmas, com alto contraste de luz e sombra e uma textura um tanto pictórica.



Dentro dessa perspectiva, temos também a forma como o olhar de Freddie evidencia uma agressividade descorporificada por parte dele com o mundo - uma relação que irá se transformar ao longo do filme. Se primeiro encontramos esse Freddie fotógrafo, que apenas registra o mundo, mas, ao mesmo tempo, carrega um recalque e agressividade incontroláveis (visto a primeira cena em que conhece O Mestre e os dois brigam), ao longo do filme Freddie irá buscar corporificar seus instintos animalescos para além do olhar inquisitivo. E ele fará isso através da memória: a cena mais reveladora quanto a isso é aquela em que conhecemos sua história com Doris durante um dos “tratamentos” que faz com O Mestre. Ali, enxergamos, pela primeira vez, um Freddie muito mais estável, vivendo a sexualidade que tanto busca após a guerra, mas de uma forma muito mais inocente. Em sua memória, vemos um Freddie corporificado diante do mundo, e não um observador inquisitivo distanciado (que remete, novamente, ao protagonista de Vertigo).


Onde está o ponto de virada de sua história? Justamente em sua vivência como marinheiro na Segunda Guerra. Freddie retorna do conflito desprovido de seu próprio corpo ao ser reprimido de sua sexualidade, distanciado de Doris e do que o fazia sentir desejo, atração e não obsessão. A guerra transforma Freddie num arquétipo violento e obstinado, sem qualquer controle de seus impulsos: durante o filme, tratam-no como animal, visto que Freddie é esse homem que, reprimido, acaba sendo tomado pelos impulsos mais animalescos que vivem num ser humano, por sua sombra. Mas, reiterando, Freddie seria uma espécie de “animal” desprovido da possibilidade de realizar seus instintos e desejos, estando eternamente suspenso no campo do olhar, reprimido de seu exibicionismo; o que o leva a tornar-se cada vez mais violento.


Podemos observar uma cena ao final do filme para exemplificar esta ideia: nela, temos Freddie voltando para casa, atrás de Doris, que já se casou com outro homem (ecoando a história que citei no início). Ela, inclusive, assume o nome de “Doris Day” pois se casa com “Jim Day”, sendo o nome de uma famosa atriz estadunidense. Na cena seguinte, Freddie está no cinema. Em uma espécie de montagem intelectual, a junção dessas duas cenas reforça a posição de Freddie como espectador, que vê mas não é visto, que está sempre sujeito ao desejo pelo olhar, reprimido de seu corpo; um corpo morto pela guerra, mas que caminha entre os vivos.



Quero retornar, agora, ao simbolismo da água que mencionei anteriormente. Pois, além de algo que remete ao inconsciente, há também na ferocidade das águas do mar uma liberdade anárquica que combina muito bem com Freddie e seu descontrole. Então, quero retomar também a cena do primeiro encontro entre o personagem de Joaquin Phoenix e O Mestre. Porque, esta cena, em que os dois brigam, demonstra como Lancaster Dodd é muito parecido com Freddie Quell: porém, enquanto o marinheiro não tem controle algum sobre suas explosões (possivelmente por buscar as sensações físicas que perdeu ao deixar seu corpo no passado anterior à guerra), o personagem vivido por Philip Seymour Hoffman administra uma pose que está no cerne do seu trabalho: ele é, antes de tudo, um performer - quer acredite ou não no “tratamento” que propõe - e, assim, controla seus instintos de modo a não transparecer sua violência de forma tão clara.


O descontrole do Mestre diante do descontrole de Freddie evidenciam como existe uma semelhança entre o lado mais sombrio de Lancaster e a persona assumida por Freddie: o marinheiro é a própria sombra de Dodd, e por isso acaba surgindo um desejo tão grande de zelar e tê-lo por perto da parte do Mestre, quase como um desejo pulsante de encontrar a própria sombra. Porém, o fato de que ele jamais consegue se recordar desse primeiro encontro, talvez apresente uma recusa de realmente encarar de cara este lado sombrio que Freddie, como um arquétipo, simboliza para ele.


Todo o tratamento de Freddie, então, direciona-se para “domar” a fera que o controla, de modo que acaba sendo um caminho para o próprio Mestre subjugar sua sombra que mantém também ‘perversões sexuais’ (como na cena em que sua esposa percebe que ele quer traí-la) e impulsos violentos com quem o contesta. O que une ambos os personagens (O Mestre e Freddie) são os seus inconscientes, cerne da abordagem do diretor Paul Thomas Anderson que, com saltos temporais que criam um senso de suspensão no tempo ao longo da narrativa (a história avança de formas tão bruscas e tão ao acaso que é difícil estabelecer um tempo cronológico entre as sequências do filme), além de todos os outros elementos já citados, está sempre pontuando a relação mais simbólica do que literal que o diretor busca estabelecer com sua narrativa.



Por fim, é fundamental observarmos a conclusão absoluta do filme: sua sequência final é marcada por curtas cenas intercaladas. Temos: Freddie visitando a casa de Doris e depois dormindo no cinema até receber a ligação do Mestre; ele indo até a Inglaterra para ver o Mestre, seguido de um plano em que ele dorme numa mesa de bar; e, finalmente, ele conseguindo vivenciar seu corpo e sexualidade ao fazer sexo com uma garota. Esta última cena é seguida pelo último plano, em que Freddie aparece dormindo numa praia, como no início do filme (quando ainda era um marinheiro). Estas sequências todas estabelecem entre si uma relação de montagem intelectual (novamente) que pontua o alto grau de subjetividade da narrativa do filme: Freddie consegue retornar para casa com a moto roubada do Mestre, afirmar sua liberdade e independência diante de Lancaster e realizar seus desejos sexuais. Quase um “bom demais pra ser verdade”... e talvez seja! Pois todas estas são seguidas de planos em que ele dorme. Inclusive, ao conversar com O Mestre, Freddie afirma ter “sonhado” com sua ligação. Esta sequência final estabelece a ruptura absoluta com a realidade que o filme já vinha pontuando e construindo, é a suspensão total de um tempo e espaço reais, trazendo a dúvida quanto a todos esses acontecimentos. Seriam verdadeiros ou apenas manifestações fantasiosas do inconsciente de Freddie? O fato é que, ao longo das pouco mais de 2h10min de O Mestre, não vemos a história de vida de um homem, mas sim o anseio de um morto por um corpo. Freddie não vive, ele sonha - e o sonho, como já escreveu Glauber Rocha, é tudo que resta ao miserável.


Nota do crítico:


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