Especial PTA | Boogie Nights (1997)

Abordando as angústias de um vasto grupo de profissionais da indústria pornográfica, Boogie Nights é um filme repleto de tragédia, mas conduzido de forma espirituosa.



Em Boogie Nights, o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson (PTA) combina música pop dos anos 1970 e um visual pra lá de expressivo — com cores fortes, montagem rápida e uma escolha de planos bastante complexa —, mantendo uma base de realismo do início ao fim. O escopo temporal do filme é delimitado conforme a carreira do protagonista Dirk Diggler (Mark Wahlberg), um ator pornô que chega à decadência, repleta de drogas e golpes baixos, após um grande apogeu na indústria — ele chega a ser o ator pornô de maior destaque por alguns anos. Contudo, o ponto de vista narrativo não pertence a Dirk, mas ao próprio PTA, como um narrador-observador que navega por essa grande teia de personagens e situações dramáticas em busca de seus interesses.


A graça de Boogie Nights está em conhecer gente nova, observando o quão simultaneamente estranhos e familiares eles são, sem precisarmos sair da nossa zona de conforto. Na verdade, a graça toda só existe porque o estilo de PTA dá uma espécie de brilho festivo nos acontecimentos — nossa zona de conforto está nas mãos dele, que, mesmo assim, não nos poupa dos eventos mais pesados. Confiamos nele. Ele olha tudo com empolgação, com humor, procurando o que tem de divertido em cada pequeno evento, mesmo nos graves. Ao contrário de um diretor como Sidney Lumet, que reinventa suas cenas por meio de uma decupagem desesperada por lustrar tudo e não perder nossa atenção, Paul Thomas Anderson enche suas cenas de significado e tira desse impulso o próprio coração do filme.


Aqui não há condenação moral sobre as práticas das personagens, apenas uma observação sobre os seus problemáticos limites (disfunções sexuais, soberba, preconceito, fragmentação individual, etc). PTA não está interessado na moral daquilo tudo. O problema de Dirk se tornar um bandido no ato final não é de âmbito moral, é só que isso não é jeito de se viver — se ele pudesse levar a vida assim, seria aceitável, mas ele não pode: logo na primeira tentativa, ele quase morre. Do mesmo modo, não é um problema moral quando Buck (Don Cheadle) decide levar o dinheiro roubado da cafeteria. Nesse caso, é ainda mais evidente, porque a atitude de Buck, que naturalmente entendemos como imoral, acaba definindo a grande virada em sua vida e ficamos felizes por ele ao término do filme.



Quando alguém entra pra indústria pornográfica, não há volta: sua família não o verá do mesmo jeito, a sociedade não o verá do mesmo jeito, nem ele se verá do mesmo jeito. Existe uma cisão na vida desses personagens que, no fim das contas, é o maior problema filosófico de Boogie Nights. Todos conhecem a atriz pornô Amber Waves (Juliane Moore), mas ninguém se lembra que o nome dela é Maggie. Ela tem praticamente uma vida dupla: chega em casa e diz que vai dormir, mas, na verdade, vai tentar conversar com seu filho pequeno pelo telefone (sem êxito, porque o ex-marido nunca permite). Aliás, a cara de Juliane Moore é sempre de uma melancolia disfarçada pelas drogas, pela bebida e, é claro, pelo sexo. Sua vida é uma grande confusão entre o que ela é (uma profissional do sexo) e o que ela queria ser (uma mãe), ao ponto em que ela expressa seu amor por Dirk, a quem considera um filho, por meio do sexo. Essa é a condição existencial dessas personagens. Eles não tem pra onde ir e nem pra onde voltar, só tem uns aos outros. Quando PTA troca a moralidade por uma busca do “viver bem”, ele chega à conclusão de que gente quebrada e encurralada só encontra sua porção de paz no abraço uns dos outros. Eles são família, ou a coisa mais perto disso que cada um ali tem. Amber pode não ser uma boa mãe para Dirk, mas é o mais próximo de uma figura materna que ele encontrou. A solução para os problemas da vida é sempre contingencial, porque não existem ideais. Não tem mãe perfeita, tem a mãe que a vida te dá. A cena em que Dirk volta para a casa de Jack (Burt Reynolds) e, humilhado, pede perdão é como uma releitura completamente dessacralizada da parábola do filho pródigo.


Como abordei antes, o interesse estético de Paul Thomas Anderson está justamente no que há de tão divertido em viver: no brilho das pessoas, na familiaridade de suas estranhezas, nas surpresas que encantam, nas desgraças, nas superações, no entrelaçar de vidas e nos eventos insólitos.


 

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