Era Uma Vez em... Hollywood

O olhar, o corpo e o mundo cotidiano



Eis uma cena de Era Uma Vez em Hollywood. Cliff Booth (Brad Pitt) sobe o telhado da casa do seu amigo e patrão Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) para ajeitar a antena. Lá em cima, Cliff caminha pelo telhado, tira a camisa e ajeita o cabelo. Na casa ao lado Sharon Tate (Margot Robbie) coloca um vinil para tocar, curte a música enquanto arruma a sua mala. Voltamos para Cliff que ainda no telhado acende um cigarro e começa a se lembrar de algo, o seu encontro com o Bruce Lee. Depois voltaremos ao filme do Quentin Tarantino.


Uma das coisas que diferencia o cinema das outras artes, e o que o torna original, é como esse se relaciona com o mundo. Enquanto as outras artes representam o mundo através da metáfora, existe algo entre o objeto e a sua representação, o cinema lida diretamente com o mundo sensível, não há nada entre o objeto e sua representação, sendo o mundo o próprio objeto cinematográfico. O simples ato de ligar uma câmera já produz uma imagem do mundo. Um tatu que esbarra numa câmera e a liga já produz uma imagem do mundo.


Contudo, filmes não são feitos apenas com o ligar da câmera. Esquecemos por hora da técnica e produção envolvidas na feitura de um filme. Pois nada importa milhões na produção de um filme, se não há um olhar para o mundo por parte do cineasta. O olhar que importa. Ironicamente, comecei esse texto falando de um filme de quase US $100 milhões de orçamento. Muito embora, Tarantino tenha trabalhado em diferentes práticas de produção, tendo feito três filmes num esquema de produção independente, Cães de Aluguel, por exemplo, custou US $1,5 milhões. Mas o olhar do diretor permanece autoral em todas as práticas de produção que trabalhou. O olhar que importa.


Sendo o cinema uma forma de arte que lida diretamente com o mundo, a construção de um olhar envolve a organização desse mundo sensível a fim de uma significação. É uma busca pelo belo no mundo, seja sua evidência ou até mesmo a sua restituição, com o intuito de gerar fascinação no espectador. É isso que os autores da Cahiers du Cinéma, como Bazin, Rivette, Rohmer, Mourlet, chamariam de Mise en Scène. A fascinação pode vir do esplendor da natureza, como num filme do Tarkovsky, ou de um simples sorriso. Nesse segundo ponto voltemos ao filme de Tarantino.


Na cena que descrevi de Era Uma Vez em Hollywood, ele busca elevar os atos do cotidiano, trazer a sua fascinação pelos corpos fazendo simples coisas, restituir uma beleza no ordinário para a fascinação do público, um reencontro com o que normalmente passa despercebido. É quase uma desdramatização, e isso num filme de 100 milhões de dólares, bem incomum. Tarantino acredita no poder dos corpos, o ator é o elemento principal do estilo tarantinesco, as suas decisões formais sempre envolvem a elevação de seus atores/personagens. Há uma articulação bem própria do tempo e do espaço, planos longos, câmera distanciada, é o tempo e o espaço para o ator emanar o seu poder. E não apenas nessa cena, como em todo o longa, e ao decorrer da carreira do diretor.


O corpo humano é um grande elemento de fascinação no cinema. Gestos, movimentos, feições, nudez. São todos elementos de beleza que emanam de nossos corpos. Os atores constituem um dos elementos principais da mise en scène, e não apenas a interpretação, mas também como se relacionam com os demais elementos formais. Como ocupam o espaço, como se posicionam e se movimentam, relações com os outros atores, com o quadro, com a câmera. É o balé cinematográfico que os grandes diretores sabem promover. E como Tarantino filma a cena descrita no primeiro parágrafo? Vamos olhar mais de perto ela.


Na primeira aparição de Cliff, toda a ação é filmada em apenas um único plano, que começa com a câmera distanciada e Cliff ao fundo, minúsculo.


Há uma leve aproximação da câmera, que não chama atenção para si, mas é Cliff que se aproxima mais, criando um novo enquadramento no mesmo plano.


Cliff tira a camisa, sendo esse o momento de “impacto” na cena, um simples ato evidenciado pelo estilo de Tarantino, mas feito de maneira suave. A sua câmera não se altera, não há uso de trilha sonora, ou outras técnicas de intensificação.


A câmera se afasta, reinserindo Cliff no espaço, naquele momento. Todo o ato é percebido em uma única “fatia” de tempo, Tarantino não corta as partes “chatas”, ele quer que percebamos o tempo passando, ele nos quer colocar ali juntos com os personagens.


Tarantino nos coloca no momento de forma suave, permite que a mise en scène respire, há um respeito pelo o que é filmado, um respeito pelo poder do plano, um respeito pelo mundo sensível, ele categoricamente rejeita o CGI. É o corpo inserido no espaço e tempo do momento, sem pressa para atingir um efeito no público. Um cinema do plano, e não necessariamente da imagem. Uma fatia de tempo e espaço a serem experienciados, e não uma imagem que se exibe para rápida apreciação. Tarantino é com certeza um cineasta sem pressa, uma crença no mundo, e é claro uma crença em si mesmo, bem sabemos que é um diretor com certo ego, mas é muito belo como ele “se exibe”, ele tem um olhar, tem um método bem rigoroso, uma decupagem precisa, e aqui bastante econômica.


Então há um corte e somos levados para a casa de Sharon Tate. Nela novamente não teremos um evento dramático, nada de conflito, apenas a personagem no seu cotidiano curtindo um bom som. A beleza, o carisma e a jovialidade da Margot capturados por Tarantino. O diretor traz a beleza desses astros (Pitt, Robbie) e os coloca em situações cotidianas, a fim de restaurar o fascínio em coisas do dia-a-dia. Tate é a personagem que menos se depara com algum momento dramático, ele nos dá Tate roncando, andando pela cidade, vendo o seu próprio filme.


A cena começa por um plano detalhe da vitrola. Tarantino é um diretor que adora filmar objetos em plano detalhe,e esse é um padrão de estilo constante ao decorrer do filme.


Então a câmera se movimenta e nos revela Tate dançando ao som da música, é uma coreografia entre atriz e câmera. É um momento de beleza contagiante.


Tate sai do plano, mas a câmera ainda permanece por um tempo antes da corte. Ainda é possível ver o reflexo da atriz na janela.


Então o filme corta e temos Tate novamente, agora ajeitando a mala. Note como a câmera está distanciada, mesmo padrão da cena de Cliff. Tarantino capta o mundo através de um método rigoroso.


Falei do método rigoroso do Tarantino, pois bem, um padrão que se destaca no filme é sempre enquadrar os atores de forma distanciada (planos de média ou longa distância), os captando dentro do mundo deles, reservando os close up para os momentos de mais impacto. Por exemplo, na cena em que Rick conversa com a atriz mirim, temos apenas um único close up de Rick em toda a cena, que é formada na sua maioria por planos de dois estáticos, distanciados e longos.


Exemplos de planos de dois sustentados.


O plano de dois sustentado é uma constante pelo filme, ou seja, o plano que filma dois atores ao mesmo tempo, e Tarantino os mantém por um tempo elevado. É ação e reação no mesmo plano, respeitando a ontologia do ato. Esta é uma técnica que caiu em desuso em Hollywood, bem como várias outras, mas que o diretor faz bastante uso. Vamos a alguns exemplos.


Depois da reunião com o produtor, Rick fica bastante abalado, e esse diálogo no estacionamento do restaurante é filmado em apenas um plano e com pouquíssimo movimento de câmera.


Outro plano de dois, novamente toda a cena é decupada em um único plano, e aqui não há qualquer movimento de câmera, estamos com Rick e Cliff naquele carro.


A câmera bem mais distanciada capta os dois atores por inteiro, a câmera só se move para os manter no quadro à medida que eles andam em direção a porta, novamente em apenas um plano.


Aqui um momento sem diálogo, só mostrando o trajeto dos dois no carro, um momento de pura apreciação.


É uma maneira de evidenciar a amizade e a igualdade entre os dois protagonistas do filme, Rick e Cliff. Tarantino não escolhe o mais importante, não enfatiza quem devemos olhar mais, ele nos coloca dentro da situação e deixa nosso olho ir e vir entre os dois, é a montagem dentro do próprio plano, já que muitas vezes ele resolve a cena com um ou poucos planos. Era Uma Vez em Hollywood é um filme que diz “eis aqui um bom momento a ser experienciado”.


Contudo, para Bordwell, o cinema está cada vez mais distante desse balé de corpos, cada vez mais distante da mise en scène. Em uma teoria que chamou de Continuidade Intensificada, o autor coloca que os planos estão cada vez mais rápidos, o enquadramento cada vez mais próximo e a câmera se move incessantemente. Um cinema com menos informação a cada plano, mais forçado para atingir emocionalmente o público. E por isso que o escolhido para análise do texto foi o cineasta Quentin Tarantino. Mesmo atuando dentro de grandes orçamentos de Hollywood, ele consegue manter o seu olhar autoral, imprimir um estilo próprio, e não reproduzir o estilo dominante. É sempre revigorante perceber um diretor como ele atuando dentro da grande indústria de Hollywood.