Entre Nós Talvez Estejam Multidões

Por meio da simplicidade, dupla de diretores confere tom poético e sincero para relatos de habitantes de uma ocupação.

Entre as escolhas da dupla de diretores Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito para o documentário ‘‘Entre Nós Talvez Estejam Multidões’’, talvez a mais perceptível seja a preferência pelos planos abertos, fixos, que observam as pessoas que fazem parte da Ocupação Eliana Silva sem chamar a atenção para si. Não existem close-ups, movimentos bruscos ou câmeras tremidas. O que pode soar como uma escolha pela neutralidade se revela como um artifício que confere afetividade e sinceridade para o filme.


O distanciamento estabelecido pela câmera não afasta o espectador dos habitantes da comunidade, mas sim potencializa o lado humano dos relatos - que vão de uma reunião sobre métodos de resistência em meio a eleições presidenciais a uma discussão franca sobre sexualidade. Seja o tema que for, a distância coloca os personagens em uma posição de vulnerabilidade que torna os diálogos mais reais. A ocupação e seus habitantes, aqui, já bastam para carregar o lado emocional do filme.


A escolha não exclui a possibilidade de uma certa riqueza nas composições, que aqui engrandecem o filme ao apresentarem diferentes ambientes e universos - um quarto, uma sala de estar, um bar - que se relacionam de formas específicas com os personagens. Impossível esquecer, por exemplo, da conversa limitada pelas paredes de uma lanchonete entre duas mulheres e um homem sobre o segundo turno das eleições de 2018. A relação entre os indivíduos e o ambiente estabelecida pela imagem destaca o teor político da comunidade e sua relação com o contexto social. Afinal, são indivíduos que, mesmo inconscientemente, têm suas vidas determinadas pelo o que existe ao redor.


O contraste entre a conversa descompromissada e a reunião política, o debate de ideias e a apresentação artística, confere uma certa poesia e abstração a um documentário que, por conta de suas ferramentas, poderia soar burocrático. A montagem também não é embalada por qualquer tipo de firula: pulamos de cena para cena, ambiente para ambiente, relato para relato como se estivéssemos assistindo a uma playlist de esquetes que vão conferindo complexidade e força ao filme.


Apesar dos relatos individuais e das situações específicas, o sentimento de união e solidariedade entre os habitantes em prol de uma luta é a principal sensação ao final do filme. Realizado a partir de artifícios que chamam tão pouca atenção para si mesmos, o mérito da dupla de diretores é reconhecer com afetividade a força de seus registros.


Nota do Crítico:

O filme está disponível até o dia 30/01 no site da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes