Demônios e Maravilhas (1987) | Espetacularizando em cima da própria vida

Em uma obra auto-reflexiva, José Mojica Marins se observa, ao mesmo tempo, sob um status de grandeza e com um tom de ironia perante o grande espetáculo que virou sua trajetória enquanto cineasta e criador do mito Zé do Caixão



Em “Demônios e Maravilhas”, José Mojica Marins se coloca, mais uma vez, como um cineasta articulador de ilusões, que vende o sonho da magia de ser um autor versus a maldição (que também é uma benção) de estar sempre à serviço de sua maior criação, o Zé do Caixão, personagem pelo qual ele responde como se fosse parte integral de sua personalidade.


Aproveitando o nível do patamar criativo em que se encontrava, se deu ao luxo de, a essa altura da carreira, no fim da década de 80, fazer o que bem entendesse (até porque nunca teve muito suporte financeiro), e criou um filme (basicamente uma tiração de sarro) que é, na realidade, uma obra oca: seja para qual lado você a analisar, nada importa, e nem vai.


O que tem de narcisismo por aqui, também tem de deboche e uma total falta de relevância no sentido da concepção do filme, inclusive para o que a crítica ou o próprio público poderia pensar.



Ele fala sobre tudo, sobre a carreira, sobre o status, dramatiza teorias sobre o seu futuro, utiliza músicas aleatórias em contextos desprovidos de sentido, se curte sendo comparado a Luis Buñuel e, no fim, troca toda a possível relevância dessas caracterizações por uma oportunidade de, menos do que se agigantar, ou se consolidar, simplesmente se curtir.


Não consigo achar ruim o que ele faz aqui, porque, ainda que com o ego inflado, ele é honesto: é realmente assim que ele via as coisas, com um fundo de indiferença e outro de egocentrismo, colidindo lado a lado, além de um apreço pela espetacularização (literalmente, marcada por tropeços e voltas por cima), com direito a discursos de auto-ajuda e trilha sonora não-autorizada. E não é como se ele não pudesse fazer isso, porque ele podia.


Inclusive, nunca existiu algum indício de que cinema de horror no Brasil, naquela época, era visto como algo aceitável ou corriqueiro. Caso existisse, realmente não precisaria que ninguém agisse como porta-voz do gênero e reforçasse que era possível viver disso no país. Mas todo mundo sabe que precisava.



No fundo, é um teatro cheio de excessos, pontuado apenas por altos, por uma noção de megalomania, sem espaço para respiro ou alívio. Mas eu confesso que gosto de ver alguém tão empolgado assim consigo mesmo, ainda mais se a pessoa em questão abriu uma brecha em sua carreira para esse tipo de confissão pessoal.


É muito mais pensado para o consumo dele do que para o público, como se fosse um experimento de auto-estima que tivesse vazado para quem não devia. São quarenta e nove minutos de Mojica encenando/se olhando no espelho e alguém filmando o reflexo. Eu não me importei o suficiente (e acho que nem era para isso acontecer), mas também não reclamei.


Eu confesso que ri muito quando ele coloca o caixão para falar, quando toca a música-tema de “Koyaanisqatsi” (1982) e quando o Pelé aparece em cena do nada. Ah, e adorei (até achei comovente), quando, depois de tudo o que é mostrado, Mojica cita os nomes dos cineastas Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach compondo sua lista de grandes mestres e amigos, pessoas por quem tem grande gratidão e carinho. Me diverti muito!


Nota do crítico:


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