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Crítica | Curtas da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Confira a cobertura da Singular da sessão de curtas da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Dentro da 24ª Mostra de Cinema Tiradentes os curtas-metragens desempenham uma importante função. Em um festival tão amplo e diverso eles compõem o corpo e apresentam visões bem autorais e únicas. Pensando nisso, resolvemos reunir todos os comentários a cerca dessas obras em um único post para facilitar a visualização. Apreciem:


NAPO

Dir: Gustavo Ribeiro


Em uma história bem chupinhada de características Pixar, ele traz uma narrativa que dialoga com o sentimento de perda e aceitação. A falta de falas em um tempo tão “longo” é sem sombra de dúvidas um movimento corajoso e, mesmo sem esse recurso, o curta desenvolve bem a sua trama, revivendo memórias de outrora através da imaginação infantil.

Todavia, por mais que seus temas sejam bem estabelecidos, em sobreposição com a sua clara inspiração, ele não parece atingir o espectador com a pontuação sentimental que promete. De certo, talvez a mágica esteja em se manter firme em detrimento das adversidades, mas o filme não parece ir a fundo em nenhuma de suas marcações.


De qualquer forma, ele é bem tocante e quando se desloca entre linguagens de animação para significar pensamentos e conflitar realidade com criatividade ele alça uma mentalidade bem rica.


Texto por: Davi Alencar


CRUA

Dir: Clara Vilas Boas e Emanuele Sales


Gosto demais de como as diretoras traçam uma narrativa através do que não edito, dos desvios e da falta de fala. Um diálogo que quando saí já está em seu estágio de tráfego de informação entre personagens pois na esfera espectador/filme já foi muito bem desenhado. Fora isso, é legal demais ver uma produção com tamanha personalidade se desenhar com essa estética, um cinema que sabe usar dos seus recursos e dificuldades para se estabelecer. Um exemplo disso são as cenas no carro que, por uma dificuldade técnica, sempre são bem tremidas, mas que, se incorporadas na mise en scène do filme, denotam muito bem as relações conturbadas que habitam esse espaço.


Bem parecido com o cruel desenvolvimento de Never, Rarely, Sometimes, Always (Eliza Hittman, 2020), acompanhamos uma jovem que, através da relutante omissão, tenta conviver com um assédio sexual. É doloroso mas ainda assim revigorante e esse meio termo se prova como seu maior mérito.


Texto por: Davi Alencar


MANGUE-BRANCO

Dir: Flávia K. Ventura


Há quem pense que o sobrenatural é necessariamente mal e, da mesma forma, que seu uso nas artes deve ser sempre um retrato dessa máxima. Em Mangue-Branco, forçando um pouco a barra, podemos ver um paralelo com O Fim Da Viagem, O Começo De Tudo (Kiyoshi Kurosawa, 2019) em que essas mesmas forças guiam a protagonista por uma jornada incerta que reflete seus dramas e lhe entrega, se não soluções, uma certa forma de conforto.

O curta não tem uma linha de fala sequer até a sua metade e a quebra disso se faz tão impactante quanto. A primeira vez que alguém se endereça à Maíra é para perguntar de seu marido e essa relação de dominância perdura o filme inteiro de uma maneira bem indiferente. Sendo assim, as muitas metáforas que institui para refletir coisas como casamento, consumo, abuso e afins são muito bem inseridas, apoiando-se bem no ritmo e na narrativa do filme para recriar visualmente a situação em que a protagonista se encontra.

A ponte do começo, numa representação de mutualidade, se desfaz. A diminuta TV ligada no batente apresenta urubus consumindo a carne de algumas carcaças, tirando delas tudo que teriam de resto. Ao passar pelo pequeno agito, ela só pode olhar e ouvir a música que remete à como ela foi individualizada.


Por fim, ainda é ignorada logo após ajudar o marido a se curar, ela se debruça para agarrar seu gesso e de fundo vemos uma representação de Narciso, explicitando de vez o egoísmo e abuso a qual é submetida. Voltando no misticismo do começo, em todos esses momentos algo parece chamá-la. Algo de fora parece sempre captar sua atenção e emoção e, em um momento que lembra muito a realização de A Mulher Que Fugiu (Hong Sang-Soo, 2020), ela, em essência, se desvencilha dessa imperatividade mesmo ciente de que ainda está encapsulada.


Talvez, aquilo que a chama seja a própria liberdade e, em uma representação bem dolorosa, a ponte que não consegue atravessar a prende em um estado que não parece alavancar muitas mudanças.


Texto por: Davi Alencar


BABELON

dir: Leon Barbero


Com mensagem óbvia e repetitiva, o curta de Leon Barbero parece se importar menos com a complexidade de seu comentário político e mais com as possibilidades gráficas de seu conceito. Não chega a ser uma novidade a mensagem sobre a perda de identidade e o comprometimento da realidade a partir da relação do indivíduo com a tecnologia, e o diretor utiliza os 13 minutos da obra para estabelecer um ambiente que se renova, durante a duração, em mais caos e incertezas.


A relação com o crescimento do bolsonarismo a partir das fake news e com o isolamento social causado pela pandemia engrandece a obra, na medida em que traz um caráter claustrofóbico ao clima político que cerca o país - e o diretor explora a ideia com criatividade sem seus planos. Apesar da narração não encontrar o tom da obra, Caeteno Gotardo soma a ficção experimental de Barbero.


Texto por: Pedro Kono


CÉU DE AGOSTO

dir: Jasmin Tenucci


Como é legal ver um filme que reflete de uma maneira tão direta acontecimentos contemporâneos utilizando-os como o plano de fundo para o desenrolar de uma história sobre nascimento. Céu De Agosto é agonizante e tenta localizar urbanamente o impacto causado pela interferência humana no meio ambiente, no caso, através das queimadas do Pantanal que culminaram em um dia alaranjado por todo o país.


É bem interessante como ele se faz individual. A câmera é sempre fechada e raramente focaliza mais de dois elementos, o noticiário, sempre em segundo plano, margeia o cotidiano, dando um alerta que, por pura falta de interesse ou disponibilidade, é inaudível. Assim, ele elabora um certo senso de egoísmo que não necessariamente reflete o sentido pejorativo e maléfico da palavra, mas sim um egoísmo inocente, que obriga o indivíduo a só se preocupar com aquilo que se liga diretamente a ele e infere essa impotência de realmente transformar o universo que o cerca.


Lucia está no meio desse furacão. Enquanto um ecossistema sofre com a morte, ela se preocupa com a vida e, pensando nisso, compactua com as instituições que compõem o epicentro do retrocesso. Bem significativo e explícito sem ser necessariamente panfletário.


Texto por: Davi Alencar


RATOEIRA

dir: Carlos Adelino


De fato, é muito intrigante como ele traça essa coligação entre a memorabília e seus proprietários, quase como se a essência da pessoa, uma vez em ligação, permanecesse no eletrônico tal qual a energia flui para seu funcionamento e o próprio protagonista não está imune a isso. Junto disso ele ainda tenta pincelar algumas outras coisas, mas todas bem rasas.


O que não parece fazer muito sentido é a maneira que ele amarra o filme. Por mais que ele tenha essa mensagem até que interessante para passar, não dá para entender o que de fato norteia sua narrativa, o que move o filme e dita o seu ritmo. Até mesmo na hora de trazer seu trunfo à tona, os objetos “tomando vida”, não encontram um propósito interessante o suficiente para acontecer.


O trabalho de som e a montagem tem resultados bem legais, auxiliam na construção do meio eletrônico conturbado e conflitante com esse senso de rebeldia, mas no final das contas ele simplesmente não explora seus recursos e prefere jogar toda construção que faz fora ao ignorar essa presença quase sobrenatural do ser no não ser.


Essa relação entre o espaço e seus frequentadores me lembrou O Som Ao Redor (Kléber Mendonça Filho, 2012), mas diferentemente do pernambucano, não sabe aproveitar tão bem esse elo.


Texto por: Davi Alencar


O MENINO E O OVO

dir: Juliana Capilé


A infância é um período enervante. Repleta de descobertas, um simples comentário pode se tornar um desafio nobre e O Menino e o Ovo sabe lidar perfeitamente bem com essa premissa para desenrolar sua narrativa. Ao acompanharmos essa curiosidade petulante pela ótica de uma criança, em que tudo é levado extremamente à sério, embarcamos na curiosidade que o questionamento central do filme propõe.


A quebra de expectativa final, por mais clichê que possa soar, ainda consegue ser doce o suficiente para desviar a atenção do espectador. Ele inspira um altruísmo bem honesto e no final das contas sabe exatamente como se posicionar em prol do ritmo e do teor aventuresco, levemente turma da Mônica, que o filme tenta emular.


Texto por: Davi Alencar


À BEIRA DO PLANETA MAINHA SOPROU A GENTE

dir: Bruna Barros e Bruna Castro


Há filmes que ressoam muito com muito pouco e esse aqui é um expoente dessa categoria. Com elementos muitos simples ele transborda sentimento e cada fração de seus elementos transpira a mesma essência. As diretoras sobrepõem diferentes amores e como esses dialogam entre si de uma forma tão refinada que a costura entre seu leque de recursos visuais esbalda não só criatividade como também a plena noção que tem para compor na tela uma narrativa tão bonita quanto no texto. No meio do caminho elas ainda aproximam o espectador com seus recortes de realidade.


Como é bom ver um filme que não tem receio de utilizar tudo que está à sua disposição para existir e, mesmo com quase nada de informação dada, não é difícil visualizar todos os elos que expõe.


A poesia no discurso não vem com o clichê das frases prontas, aqui os dramas são reais em uma escala tão real quanto poderiam ser e não esbaldam o teor absolutista que é comum de se ver principalmente em dramas de aceitação nas suas diversas esferas. O amor de verdade não traça vilões, traça dissonâncias e o filme explora isso muito bem, colocando em embate as partes que se amam e as partes que não se aceitam, mas que, acima de tudo, continuam se tolerando pois há conexões que simplesmente não podem ser quebradas.


Texto por: Davi Alencar


WON'T YOU COME OUT TO PLAY?

dir: Julia Katharine


Um ótimo exemplo de inovação e improviso. Ao que tudo indica, ele ganha vida através dos recursos que cada um dos atores tinha a disposição e se desdobra cinematograficamente muito bem mediante a esses obstáculos. Assim sendo, o filme amplifica bem a solidão das personagens que se "comunicam" apenas por pensamentos e se relacionam apenas por telas, áudios e memórias.


O uso excessivo da narração limita um pouco o seu potencial de se fazer entender sem o artifício da palavra e isso prejudica um pouco a experiência. Parece que tem sempre alguém no seu ouvido te contando diretamente os causos dessa formação familiar peculiar.


Em suma, a obra de Julia Katharine existe muito bem com um retrato claustrofóbico das coisas que ficaram entaladas e que nós não conseguimos colocar para fora exceto pelo próprio filme se colocar demais para fora e perder um pouco de sua potência nessa falta de confiança em seus recursos.


Texto por: Davi Alencar


TRÊS GRAÇAS

dir: Luana Laux


Surpreendentemente bom! Com um afiado senso estético e narrativo Três Graças é um prato cheio para quem gostar de terror psicológico. O filme constrói diversas relações de significado com santidade e pecado, dor e prazer e esse tipo de dicotomia com primazia, se apoiando fortemente no design de produção e na simplicidade de símbolos (como as cores ou cruzes) para inferir essa significância que aspira.


Seu ritmo é viciante e, principalmente nas sequência ritualísticas, equilibra muito bem o quadro com o que ele quer dizer. As transições entre caos e calmaria são, para não falar sutis, imperceptíveis e, com toques de Midsommar (Ari Aster, 2019), encontra muito bem a sua personalidade.


Um último trunfo é a ganância que evidencia. Todas as personagens querem o do outro e, não satisfeitas em impedi-lo de continuar, acham uma maneira de usurpar seu privilégio, recriando a experiência de um jeito disforme. A dança na água, a costura do casamento e o sono na mesma posição do repouso no útero são exemplos dessa transição entre o interno das personagens e seus desejos. Esse momentos são como tijolos que, assentados com uma massa narrativa e uma certa simbologia, fundamentam uma bela construção.


Texto por: Davi Alencar


ENTERRADO NO QUINTAL

dir: Diego Bauer


Em “Enterrado no Quintal”, o diretor e roteirista Diego Bauer eleva as possibilidades do cinema de gênero por meio de uma relação muito inventiva com a imagem. O faroeste clássico se une ás ruas de uma favela do Brasil e à melancolia do trauma que se vive e não é expurgado. O resultado é um filme que encontra camadas de drama e política no processo clássico da narrativa de vingança.


Seja na textura que lembra o aspecto de película - apesar do filme se passar nos dias atuais - ou no “Jesus” escrito em neon no final do filme, o curta de Bauer parece sempre operar na ambiguidade. Ao mesmo tempo que existe a sede de sangue da protagonista, existe a sua expressão amendrontada de inocência. Ao mesmo tempo que existe a precariedade do ambiente, existe a trilha sonora eletrônica. A abordagem do diretor revela uma realidade que, apesar de contemporânea, está sempre fadada a decadência e ao abandono.


O formalismo do diretor também confere um caráter documental que adiciona peso e naturalismo para um filme que não faz muita questão de externalizar qualquer coisa que não seja para movimentar a trama - como a narração em off que serve apenas para preparar o terreno. A partir do trabalho cuidadoso com a imagem, o drama da personagem vivida por Isabela Catão se potencializa e atinge níveis surpreendentes.


Texto por: Pedro Kono


OSTINATO

dir: Paula Gaitán


Apesar de discutir o processo criativo do compositor Arrigo Barnabé, Ostinato, documentário de Paula Gaitán, opera enquanto um retrato sobre o desprendimento do autor e sua arte em relação ao mundo. Entre as imagens do músico deslocado no meio de uma calçada e seus comentários sobre a dificuldade da comunicação a partir de sua arte, cria-se um desconforto e um sentimento de isolamento.


Quando Barnabé não está enclausurado em cômodos escuros da sua casa, está em ambientes ultrapassados: uma loja de discos, uma bancada de um comércio de instrumentos musicais que está na ativa desde 1910, entre outros. Até mesmo no registro de uma apresentação para o público, a diretora toma o cuidado de mergulhar a plateia nas sombras. O média-metragem é todo estruturado para causar uma sensação de estranheza, com as quebras de linearidade causando um sentimento parecido com a música do compositor, em que as notas vão surgindo de forma surpreendente e renovadora.


Se existe uma certa frustração pelo fato dos 56 minutos da obra serem exagerados e baterem na mesma tecla, talvez seja pelo fato de justamente se tratar de um retrato de um artista desconfortável com o que existe ao redor.


Texto por: Pedro Kono


FORA DE ÉPOCA

dir: Drica Czech e Laís Catalano Aranha


Com uma mensagem muito clara e significativa, o filme faz uma crítica incisiva não só ao bolsonarismo, ou até mesmo o conservadorismo de forma mais ampla, mas também a toda uma construção social que embate privilégios. Uma das falas lembra muito a essência do filme Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016), em que, na mesma ligação que se protesta contra tirania, são proferidas ofensas a classe social do caseiro.


Não sei até que ponto esse significado é bem aproveitado e funciona muito melhor como crítica ao que ele mesmo explicita nos letreiros finais. Sempre tenho dificuldade de quando o filme não parece procurar uma lacuna para inserir seu discurso e tem que, abusando da palavra, trazê-lo à tona dessa forma. Aqui, diferentemente dessa casualidade, até que esse artifício não fica tão deslocado e, flutuando um pouco à cima do cinema, age como um alerta.


Junto disso, o filme se auto censura em paralelo a censura que acometeu diversos autores durante a ditadura militar, mas, diferentemente do que se espera de uma censura, ele só retira os nomes, mas mantém o contexto. Dessa forma, não é difícil saber do que se trata, qual o assunto geral e, relacionando isso com a premissa do filme, embora os militares tenham calado algumas vozes, não conseguiram evitar que o barulho se alastrasse.


Texto por: Davi Alencar


MENARCA

dir: Lillah Halla


Em várias camadas o filme é uma metáfora muito forte sobre amadurecimento forçado. Primoroso no desenho dramático, não só relaciona muito bem as personagens como também traça os elos entre si e os laços com o ambiente que os cerca. Entra em uma adolescência muito sabida mas pouco vista e, se aproveitando de seu título, dialoga muito bem com essa mudança.


Aqui, diferentemente do que se espera, não vemos uma relação de inocência e vulnerabilidade e sim uma relação de entendimento e resposta. Bem direto e forte, é um trunfo necessário que se empodera pela interação com a natureza e uma religação com o mito.


Texto por: Davi Alencar


CONSTRUÇÃO

dir: Leonardo da Rosa


Com uma abordagem bem técnica da construção de sentido, o filme cria uma narrativa apenas através da sobreposição de imagem, uma forma interessante de sobrepor forma e conteúdo e fazer com que ambos interajam. O tema se parece com a maneira que o filme é feito e existe um mérito na visão do diretor, na premissa que bolaram e no conceito que imprimiram


Todavia, por horas, esse mesmo aparato conceitual soa distante do drama e, ao invés de desenvolver de alguma maneira, parece só captura-lo com uma jaula fria da montagem. Ele é doído demais, a situação como um todo não cabe só dentro de um retrato técnico focado na construção de sentido, ela se expande e o filme não acompanha essa grandiosidade.


As duas falas que relatam a violência são aterradoras. Em uma acompanhamos o desespero, na outra a esperança.


Texto por: Davi Alencar


PÁTRIA

dir: Lívia Costa e Sunny Maia


Enquanto muitos documentários acham diversas maneiras de usar a imagem e a palavra para criticar qualquer que seja o assunto retratado, em Pátria as diretoras acham o jeito mais explícito e agressivo de atacar a classe dominante tanto na política quanto nas questões de gênero e no entrelaçar das duas. Gosto da montagem que se apropria da voz dos outros para passar sua ideia, soa como um daqueles textos em que cada letra é de uma página da revista, mas que no final entregam a mensagem com a mesma eficiência só que muito mais estilizado.


Texto por: Davi Alencar


VOCÊ JÁ TENTOU OLHAR NOS MEUS OLHOS?

dir: Tiago Felipe


Até certo ponto é interessante como um estudo do corpo e como as relações humanas perdem a intimidade em um mundo focado no carnal. Te desafia a encarar certos ângulos que, por mais pessoais que sejam, soam desconfortáveis. Falta algo que amarre toda a sua mensagem, o estático das fotos não encaixa na fluidez proposta e o jogo na edição cria um senso ainda mais impessoal que, ao invés de aproximar o ser ao corpo, afasta o espectador de ambos.


Texto por: Davi Alencar


LETÍCIA, MONTE BONITO, 04

dir: Julia Regis


Por mais que visualmente o filme flutue entre vários estilos e tenha uma séria dificuldade em instaurar uma unidade estilística, ele, triunfantemente, com pouco diálogos e uma dinâmica bem interessante entre as atrizes, consegue marcar presença como um drama teen da melhor qualidade. A clara tensão entre as duas é cômica e adorável, um pequeno ponto comum corriqueiro e inspirador, sem peso, mas com um sentimento jovem.


A maneira que é descompromissado e funciona majoritariamente experimentando expectativas é o que tem de melhor a oferecer. O jeito que, em tão pouco tempo, uma floresce na outra e criam um elo tão momentâneo e verdadeiro é engraçado de ver. O ambiente infantil, de uma casa de vó, inspira esse cotidiano tedioso gerado por um momento de transformação, subitamente a monotonia é quebrada e, se não o amor, o romance entra em cena da maneira mais juvenil e pura possível.


A cena em que se perguntam como tomaram um fora é de uma sensibilidade sem tamanho!


Texto por: Davi Alencar


VANDER

dir: Barbara Carmo


Uma lição sobre hereditariedade e bagagem. Com uma forma tão alinhada com o conteúdo, através de algumas poucas fotos e um texto curto, Barbara Carmo acha espaço para passar tudo o que garante ao seu filme uma baita potência. Um registro diminuto, impessoal e sem sentimento expressa tão bem tanto a relação fria entre pai e filha quanto a relação de um homem com a sociedade que o cerca e segrega. Lembra muito Uma Canção Para Latasha (Sophia Nahli Allison, 2019), mas ao invés do abstracionismo para ilustrar aquilo que não se tem documentado (ou aguardado) aposta num realismo muito mais tocante.


Texto por: Davi Alencar


NOITE DE SERESTA

dir: Sávio Fernandes e Muniz Filho


Noite de Seresta é uma obra-prima sobre estrelato. Um filme que, da sua própria maneira e sem perder o fio da meada, consegue abraçar uma grandiosidade de pautas e causas. Não só por isso ele é incrível, como documentário as imagens que capta são estonteantes, sabe ser engraçado e faz os registros precisos que retratam o ambiente. O momento em que a protagonista está no banheiro e continua cantando sumariza bem o filme como um todo: uma mulher que, crente no seu talento, almeja o mundo através de sua voz.


Uma vez que esse tema centraliza tudo mais o que o filme propõe, ele eleva Katia a um estágio de estrela, até por que o palco que precisava talvez fosse na frente das câmeras. O regional e a tradição ganham espaço e a filosofia da mulher faz com que ela continue cantando por mais que isso não a leve a lugar nenhum. Cantar é uma elevação de espírito e nenhuma recompensa mundana pode suprir isso.


A cena final em que ela canta que a "vida é bonita" logo após seu humilde show ter sido arruinado pela chuva sumariza bem tanto a personagem quanto o filme. Sem sombra de dúvidas, esse é o melhor curta que foi assistido por mim na 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes.


Texto por: Davi Alencar