Venha Aqui

Em uma jornada vai da união até a invasão, o longa tailandês cria um ambiente melancólico com a desconexão entre a imagem e som.



O tempo, como outrora já foi dito e repetido à exaustão o pensamento de Einstein, é relativo. Não que o físico exalasse poesia em sua teoria, voltada para a análise técnica e racional do mundo e não para proposições filosóficas, mas dela nasce um mar de percepções que, quando emparelhado com a arte, rende um caldo interessante. Venha Aqui (Anocha Suwichakornpong, 2021) é um ótimo exemplo dessa articulação e, em seus diminutos 68 minutos, o experimenta como agente de uniões, intrusões, transformações e reflexões.


Ao longo da rodagem, quatro amigos encenam as experiências que viveram em uma viagem para o interior do país, uma jovem se metamorfoseia na mata e muitas jornadas são tomadas sem necessariamente apresentar um final. Sempre invadindo a prevalência de um recurso com os demais, seja um som diferente que se apossa de uma imagem ou até mesmo a tela que se divide, a diretora desenha seu filme como um grande rito de passagem indo desde a transmutação de uma vivência para a encenação até a transição do feminino para o masculino.


Todavia, esses processos não são tão amistosos como dá a entender. Na interpretação dos rapazes sobre os animais eles não só duelam com uma motivação visualmente primitiva como também fazem a ponte para a invasão do natural pelo humano.


Em vários momentos é essa premissa que desenvolve a narrativa: a já citada transmutação da mulher em homem, o quadro estático que rompe as árvores com uma usina, o jovem que late como um cachorro e o zoológico fechando explicitam muito bem essa correlação. São relações intrusivas que, independente de resultarem em união, são forçadas, indesejadas e negativas. Esse teor agressivo extrapola a tela e, em longos takes, as personagens se atrevem a encarar o espectador. A troca de olhares é incômoda e, com a insistência de Anocha em impactar com o close agonizante, cria os momentos mais emocionantes do filme.


Voltando ao tempo, é o anacronismo da montagem que se responsabiliza por costurar o filme e sua melancolia. Não que ele se preocupe em fazer sentido, mas por mais abstrato que seja, há uma unidade que interliga seus seres em um campo espiritual, sem diálogos. É como se todos fossem relacionados, mas os recortes de suas vidas em que pudéssemos contemplar tal familiaridade ficaram de fora da sua construção.


Venha Aqui é um longa plenamente sensorial e se deleita com a noção cinematográfica afinada da diretora na união, mesmo que desconexa, entre imagem e som. Sem cores, o filme se aventura em expor o cinza de relações humanas, urbanas e naturais junto de todos os seus elos.


Nota do crítico:


Esse texto faz parte da cobertura da Singular do 5º Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais. Para mais críticas clique AQUI.