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Crítica - Propriedade (2023)

Abraçando o suspense com honestidade, Propriedade é um típico filme de gênero com tempero brasileiro.


Propriedade Daniel Bandeira

A captura da imagem é também a captura de um espaço. Ao posicionar os atores no quadro, o filme define a que local eles pertencem e como eles podem se relacionar (ou não) com o ambiente ao redor. Da mesma forma, nossos espaços em vida são definidos de formas variadas, seja através da escritura de uma casa, cercas que demarcam um terreno, paredes que sustentam uma residência. Em certo sentido, o cinema é como a arquitetura da imagem, uma construção que, ao se comunicar com o campo sensorial de quem assiste, define espaços, limites e se apropria de cada um deles num verdadeiro jogo de manipulação, usando para isso movimentos de câmera, a montagem, a iluminação, o foco, entre outros.


Partindo dessa noção de territorialidade, Propriedade amplia as inseguranças internas da protagonista - que sofrera um trauma em que seu próprio espaço pessoal fora invadido - através da manifestação física - e, portanto, imagética - desses medos. Com isso, o filme parte para uma abordagem explícita de suas problemáticas, de forma que mesmo os discursos parecem mais centrados nos desafios imediatos dos personagens do que no debate teórico/político da questão. Como resultado, Daniel Bandeira nos entrega um verdadeiro filme de gênero, bebendo diretamente das fontes do suspense e sem sacrificar as características básicas do gênero.


Entretanto, essa fidelidade ao gênero - a trilha musical angustiante, a montagem que eleva os estímulos pouco a pouco, as atuações que buscam um realismo sem perder a estilização dos horrores vivenciados - não se traduz no abandono do debate político. Na verdade, Bandeira assimila o tema central na própria mise en scénè, como quando posiciona os personagens em espaços muito próximos, mas separados por elementos que impedem a comunicação plena. Essa incomunicabilidade norteia as não-relações, em um trabalho cheio de ruídos e tentativas (sem sucesso) de diálogos. Mesmo antes da divisão física, o plano sempre separa os personagens (ou classes), impedindo mesmo o contato imagético entre o casal rico e as dezenas de trabalhadores miseráveis.


No espaço limitado da obra (temos uma fazenda e um carro), Bandeira apresenta um microverso em que as dinâmicas relacionais são distorcidas e a única possibilidade de diálogo entre classes se dá através de trocas econômicas (notas de dinheiro ou um belo vestido). Nesse caminho, seria muito fácil Propriedade ser mais um entre tantos filmes que estão mais preocupados em simplesmente dizer algo do que ser. Verdadeiros filmes-discursos que, ainda que tratem de temas importantes, desperdiçam o poder do cinema enquanto ferramenta de comunicação sensorial, mais reproduzindo um texto (ou roteiro) que de fato cumprindo sua vocação artística.


Entretanto, não é o caso de Propriedade. Existe uma assimilação formal de seus temas que se ligam diretamente às bases do gênero de suspense. Como consequência, o filme demonstra um interesse real em explorar as possibilidades linguísticas da sétima arte e, ainda que isso incorra em alguns lugares-comuns - em certo sentido, o filme segue bastante os moldes hollywoodianos -, ele nunca deixa de se interessar pelo que ele é de fato. Isso pode ser visto, por exemplo, na abordagem frontal da violência, que não busca qualquer suavização poética, mas explora as consequências imediatas de cada uma das ações daquele microverso.


É como uma soma de problemáticas que se dão num espaço comum, mas cujos personagens continuam em um estado de desencontro perene, a impossibilidade de se enxergarem em um mesmo lugar. Esse estado de conflito, inclusive, é contagioso, de forma que mesmo supostos aliados tomam decisões contraditórias e pautadas em seus próprios interesses, pondo em crise a ideia de uma sociedade unida.


Desconfortável e angustiante, Propriedade abraça as vocações do seu gênero, assimilando o tema muito mais por escolhas formais do que por discursos prontos. Demonstrando um interesse genuíno pelo fazer cinematográfico, Daniel Bandeira entrega um dos filmes brasileiros mais tensos do ano.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria e Sessão Vitrine Petrobrás. Propriedade chegará aos cinemas dia 21 de dezembro.


 

Nota da crítica:


 

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