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Crítica - A Casa dos Sonhos (1988)

O filme de Bernard Rose é uma grande manifestação de amor aos pensamentos que habitam nossa mente quando temos inclinação à curiosidade que nos faz sonhar mesmo quando estamos acordados



Em 1988, quatro anos antes de ser o responsável pela primeira adaptação ao cinema do famoso conto Candyman, o cineasta Bernard Rose, de outros sucessos posteriores como Minha Amada Imortal, dirigiu um delicado pequeno grande filme chamado A Casa dos Sonhos, baseado no romance Marianne Dreams, de Catherine Storr. Tanto o filme quanto a obra literária partem da mesma pergunta: e se nós tivéssemos acesso, com acompanhamento integral, ao imaginário de uma criança, beirando a pré-adolescência, com febre e uma curiosidade desproporcional ao seu cansaço, capaz de mover o universo de seu quarto fechado e transformá-lo em manifestações de amor à natureza, convertendo energia de mau-humor e frustração em habilidade de ilustração?


Bem, a autora e o diretor permitem que aconteça, e a resposta é muito próxima da que eu esperaria encontrar. Aqui, a jovem Anna Madden (vivida com intensidade e disposição por Charlotte Burke, atriz que nunca mais atuou em um filme ou sequer foi fotografada em público) começa a ter sonhos até quando está acordada, sem que houvesse padrão de ritmo ou uma cronologia em que as linhas que separam imaginação de realidade conseguissem conviver fazendo sentido enquanto duas formas de enxergar o mundo diametralmente opostas. Para que atinja esse estado de distanciamento do alinhamento coletivo e uma maior conexão com o meio-ambiente e com o bem-estar que essa relação traz à sua individualidade, ela precisa apenas carregar um resistente caderno de desenho, onde projeta o futuro na impossibilidade de viver o presente. Tudo o que aparece no papel é devidamente ilustrado, interpretado e absorvido pelo seu inconsciente.


Como ela deveria se acostumar com as paisagens que desenhava, logo percebe que precisaria de companhia, e assim dá vida ao garoto Marc (Elliott Spiers), sem saber que, na realidade, ele estava à beira da morte, e era um dos pacientes da enfermeira e doutora Sara (Gemma Jones), que tomava as vezes de psicóloga e aliviava, mas também preocupava, Kate (Glenne Headly), mãe de Anna, durante o período de enfermidade da filha.


Aos poucos, o fator idílico, de apreciação e contemplação da imensidão do mundo dos sonhos vai ganhando conotações que suprimem a realidade, para o bem e para o mal. Sentindo falta do pai (Ben Cross), ausente do cotidiano, mas presente em uma foto revelada por sua mãe, a presença dele constitui um verdadeiro mistério para o público, e o cineasta espertamente vai trabalhando essa ambiguidade, mantendo sempre uma atmosfera intrigante nas evidências (temos poucas provas para concluir sobre sua índole), mas transformando-0 em um homem inescrupuloso quando o sonho vira pesadelo, alguém capaz de atingir níveis de sadismo e representar o mal pelo mal, sem que importe que vejamos seu rosto ou tenhamos uma noção real da sua voz, sem distorção.


Acho que poucos filmes conseguem captar uma emoção, um jeito de ser, ilustrando o comportamento de uma pessoa, como se ela vestisse a roupa de seu sentimento, como esse. Todas as mágoas, alegrias, ansiedades, medos, frustrações, raivas e todo o combo de sentimentos únicos acumulados na mente inquieta de uma pessoa ainda muito jovem acham espaço no fascínio onírico de Anna, um lugar subterrâneo onde todas as coisas que ela pensa, objetos que ela usa, vozes e conselhos que ela descarta se encontram e fazem o lugar parecer uma extensão de seu quarto, como se a bagunça não precisasse mais ser organizada.


Se, na metade inicial, o filme é mais contemplativo e seu ímpeto é mais contido, no final, a direção de arte carrega a proporção dos acontecimentos para uma representação dos piores medos imagináveis, que, uma vez que nos encontramos acordados são até contornáveis, mas, quando dormimos, se tornam maiores, e o confronto com cada um deles se torna inevitável.


A ideia de que o lugar onde o imaginário ganha forma parecesse um porão envelhecido, com cores amareladas e um tecido desgastado, me atraiu muito, e o filme passa bem essa impressão de que ele é obsoleto, como se a fotografia que Anna viu de seu pai, incompleta, estivesse assim não pelo comportamento humano, mas porque é isso o que o tempo faz com tudo o que existe, incluindo nossos sonhos mais remotos.


 

Nota do crítico:


 

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