Coração Valente

Um continente divido.


Uma guerra entre humanos e possuidores de magia.


Katarina tem o segredo que pode mudar o rumo da história.


Mas em uma terra onde todos são peões no jogo dos deuses, nada é por acaso.


Até onde você iria pela sua liberdade?

Prólogo


Os pés sangravam conforme ela corria desesperada por galhos, folhas e pedras. O ar estava quente e cheio de fumaça, vindo diretamente do vilarejo que pegava fogo a poucos metros dali. Ela respirava aquele vento que açoitava seu rosto na corrida, entrando e queimando seus pulmões e a garganta. Como haviam feito com eles. Como haviam feito com todos eles.

Sua família. Seu povo.

As lágrimas corriam pelo branco do rosto traçando fios entre as cinzas pretas que o haviam pintado. Os músculos gritavam, as pernas começavam a tremer perdendo força e ela rezou. Rezou para a Mãe que a ajudasse e a protegesse. Rezou para que a Mãe lhe desse forças o suficiente para conseguir correr por mais algumas horas. Para não parar nunca mais. Para fugir para bem longe dali. Longe do banho de sangue. Longe da guerra e daqueles que queriam proibir a magia.

As pernas aguentaram por mais alguns quilômetros enquanto ela se embrenhava na mata escura. Não pararia. Não podia parar. O mundo parecia mais lento a cada segundo, a realidade indo e vindo em flashs de lucidez. Entretanto os sons dos cachorros latindo e o grito dos homens que se embrenhavam pela mata atrás dela forçavam o corpo a continuar.

A dor irradiava dos pés cortados pelas pernas aos pulmões. O vestido comprido impedia que se movesse com clareza entre as árvores enroscando-se. Ela só não gritou porque sabia que viriam atrás dela. Matá-la, se fossem misericordiosos.

Não. Fariam pior. Prendê-la nos caixões de ferro para que sobrevivesse durante semanas até que a morte a alcançasse finalmente.

Tudo que ela sentia era desespero, o suor gotejava em gotas gordas pela face, entre os seios, nas mãos. Ela tinha certeza que aqueles cachorros conseguiam sentir. Sentir o seu pavor a quilômetros de distância.

As árvores começavam a ficar escassas. Apareciam cada vez menos, conforme a garota avançava mais e mais pelo terreno inclinado, forçando o corpo cansado a subir a ladeira para o gramado logo a frente.

Os pés pararam subitamente quando ela chegou ao fim. Não havia mais nada ali. Só o penhasco, o rio e a noite sem estrelas. Ela parou por um minuto olhando o desfiladeiro abaixo e o rio profundo que descia para o interior do continente. Ouvindo o chiado leve da água que escorria calma ali e o barulho dos homens atrás de si.

"Peguem-na" eles gritavam e os cachorros latiam, latiam e latiam.

Então uma brisa doce deslizou até ela, envolvendo o seu corpo cansado com um afago materno. Gentil. Ela estremeceu.

"Se quiser minha ajuda terá de esquecer tudo e atender o meu chamado quando for a hora." Disse a voz feminina sussurrante. Uma promessa. Era isso que os deuses estavam oferecendo. Uma promessa. Algo em seu interior se agitou. A magia que a conectava com todos aqueles que vieram antes. Era um aviso que lhe percorreu a espinha espalhando o frio pelo corpo. Eles não queriam que ela aceitasse. Queriam que voltasse atrás, que desse as costas.

Não importava se fosse pega. Se fosse morta.

Era melhor que virar um peão no jogo dos deuses.

Mas ela era covarde demais e não suportaria a dor.

"Desculpe." Disse com a voz baixa, um lamento para os antepassados que olhavam-na decepcionados.

Assim, ela segurou o amuleto que carregava pendurado ao pescoço. Aceitou a promessa da deusa e se atirou para o penhasco.


Capítulo 1 - Katarina

O corpo despencava pelo céu conforme rostos familiares se desfaziam em pedaços. Os sorrisos que ela tanto amava. Os olhares cúmplices. As risadas. Os rostos. Os nomes. As promessas. A história da sua família, dos seus ancestrais. A sua história. Tudo o que a fazia ser o que era.

Se desfazendo em pedaços. Estilhaçados. Como um vaso que cai no chão. Sem concerto.

E quando o corpo finalmente atingiu a água ele se quebrou também.



Os olhos estranharam a luz parva do quarto. Não muito maior que um cubículo. Ela estava numa cama de feno, em um quarto rústico de madeira, tão abafado que ela mal conseguia respirar. A luz do sol entrava por frestas cortando a poeira que pairava no ar. Lençol e cobertores a protegiam do frio.

Na parede oposta do quarto estava uma cama idêntica aquela, com um baú trancado ao lado de um penico vazio. O quarto também possuía uma mesa pequena de madeira lascada. Haviam alguns livros ali. Uma jarra de água e um prato com pão meio mordido que já começava a embolorar.

O quarto era tão minúsculo que ela se perguntou como duas pessoas conseguiam viver ali.

-Ei, você acordou! Graças a deus porque eu já não aguentava mais vir aqui pra trocar e lavar os seus lençóis.- Disse a beldade de cabelos loiros que entrou pela porta carregando uma pilha de lençóis e roupas nos braços. A jovem colocou os tecidos na beirada da cama de feno e se aproximou da garota, pronta para tocar-lhe a testa e checar a febre. Mas a garota se afastou da mão da moça loira, mostrando os dentes.

-Nossa! Então ela morde? -disse com um tom divertido arqueando as sobrancelhas e jogando os cabelos loiros para os ombros, conforme inclinava a cabeça chegando ainda mais perto da jovem assustada.- Se já está bem o suficiente para mostrar os dentes, está bem o suficiente pra se levantar e pagar pela ajuda. - Então a loira puxou o lençol que cobria a jovem e o vento acariciou a pele desnuda. - Frio né? - disse a loira com o tom de deboche, quando o vento assobiou do lado de fora e o pouco que entrou fez a pele da jovem se arrepiar por inteiro. A estranha lançou um bater de cílios e se aproximou da pilha de lençóis, tirando as roupas do meio. - Aqui. Vista-se rápido. A gente tem muito trabalho a fazer.- continuou, ao jogar as roupas para a jovem que as pegou no ar ainda desajeitada.

A mulher loira se afastou, passando a mão pelo vestido gasto que usava, enfiando-a em um dos bolsos conforme andava para a porta.

Ela se virou para a garota morena, que ainda segurava as peças de roupa rústica tentando processar. Então soltou um assobio que fez os olhos castanhos da moça se voltarem pra ela. Aqueles olhos castanhos brilhantes com um quê de dourado. A mulher sorriu e atirou o amuleto para a morena. Ele caiu tilintando ao lado da cama.

-Qual o seu nome?- disse a loira com um meio sorriso, já se pondo entre a porta. Havia um olhar de interesse ali.

Os olhos da garota caíram para o chão, deslizando para o amuleto. O corvo, o corvo que pousava sobre o círculo, observando em silêncio. O corvo esculpido em prata fina com rubis encrustados na lateral do círculo. A única coisa que restava.

Ela se lembrou.

-Katarina.- a última coisa que havia restado. A última coisa junto com aquele amuleto. A única coisa que os deuses haviam deixado. Seu nome. A jovem saboreou a palavra na boca, a única coisa que não parecia estranha ali.

-O meu é Makatza.- disse com um sorriso. - Te encontro lá fora...Ah, tenho um espelho no baú e uma escova. Preciso apresentá-los aos outros e você tem que estar decente. - então ela fechou a porta e deixou Katarina só.

Sozinha naquele quarto minúsculo ela se pôs de pé. Mesmo que o corpo inteiro doesse e a cabeça gritasse. Ela vestiu a camisola íntima e amarrou o corpete amarelado. Depois passou o corpo para dentro do longo vestido grosseiro de tom marrom, com algumas manchas e remendos com outros tecidos que não combinavam.

O tecido era tão grosseira que irritava e pinicava a pele sensível e ela precisou lutar contra os instintos de arrancar e rasgar a roupa.

Devagar ela caminhou até o baú. Katarina não conseguiu evitar que suas mãos tremessem, que o corpo todo tremesse, conforme ela abria o baú. Entre algumas peças de roupas comuns e alguns vestidos mais finos, estava o espelho. Ela pegou o espelho, redondo, pequeno do tamanho da palma de uma mão, com o contorno em ferro. O vidro já começava a oxidar, tornando a imagem mais turva e escura.

Ela precisou de toda a força que tinha no corpo para erguer o espelho e se olhar ali. Um suspiro fino escapou pela garganta, a água já inundava os olhos. Pelos deuses. Eles haviam tirado tudo dela. Menos o nome e o medalhão. Mas toda a história sobre si e sua família, quem realmente era...Havia sumido.

Não eles não haviam tirado. Ela havia concordado com isso. Fizera isso A si mesma.

Ela havia esquecido o próprio rosto.

Katarina analisou o espelho, o reflexo que via ali, o seu reflexo. Os olhos castanhos com os cílios longos, a sobrancelha preta forte e marcada, o nariz fino que descia com uma bolinha na ponta, a boca média, bem desenhada e rósea, a pele branca como papel e o cabelo longo e preto como a noite que escorria em ondas pelo rosto.

Ela era linda. Um verdadeiro espetáculo. Mesmo que estivesse magra demais, mesmo que o rosto tivesse alguns arranhões.

Era estranho. Mesmo que parecesse familiar era estranho. O corpo parecia não ser seu. O rosto parecia não ser seu. Ela não se pertencia mais.

Em silêncio a jovem chorou. Sentando-se no chão do quarto e apoiando o espelho entre os dois joelhos, ela pegou a escova. Começou a pentear o cabelo, deslizando a escova pelas madeixas negras, trançando-as. Durante o processo ela se lembrará de correr pela floresta, do pavor, de chegar a ponta do penhasco, de fazer o acordo com a deusa e de se jogar para a morte que a esperava.

As suas memórias começavam ali. Depois disso era só um vazio, como se tivesse caído no rio e afundado até a escuridão e permanecido lá. Exceto hoje. Quando havia acordado numa casa estranha, com nada mais que um nome, um amuleto, um corpo frio e desajeitado.

Katarina, respirou fundo e limpou as lágrimas. Forçou um sorriso para o espelho e deu alguns tapas no rosto para que a bochecha parecesse mais rosada. Não sabia o que tinha acontecido consigo afinal, mas fizera para sobreviver e continuaria assim, custasse o que custasse.

Estava a ponto de sair do quarto quando os olhos deslizaram para mesa de madeira ao lado. Ela pegou o pão embolorado cortando a parte que estava menos ruim e enfiando na boca. Em seguida, tomou um gole da água que ainda restava na jarra. Rápida e eficiente suas mãos escorregaram para o prato para a faca que jazia ali. O gume estava cego e dificilmente mataria alguém mas se ela fosse rápida ganharia tempo para fugir. Com agilidade e maestria ela escondeu a faca na lateral do corpete, abaixo do braço esquerdo e saiu pela porta...


A HISTÓRIA CONTINUA AQUI...